Eurocopa 2024

A realidade pode ser ainda melhor que o sonho: A heroica Islândia elimina a Inglaterra da Euro

Sonhar não custa absolutamente nada. O que custa, sempre, é fazer o sonho acontecer. O suor que se derrama, o empenho que se oferece, a vontade que não cessa. E o trabalho bem feito, estudado, minucioso. É assim na vida, e também nesse microcosmo chamado futebol. É o que a Islândia demonstra na Eurocopa, ao sair do sonho para uma realidade que parece ser ainda melhor do que se poderia sonhar. Os islandeses já estariam muito satisfeitos pela classificação à fase final do torneio, mas poderiam mais. Já estariam muitos satisfeitos pela vaga nos mata-matas e pela vitória no último instante, mas poderiam mais. E, que a heroica vitória de virada sobre a Inglaterra por 2 a 1 já satisfaça, eles sabem que podem mais, por sua raça e também por sua qualidade técnica como equipe. Não há limites para o sonho de todo um país na Euro 2016, por menor que ele seja. A França será o seu prolongamento nas quartas de final, e com a consciência que dá para querer mais.

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Por um instante, a partida em Nice parecia colocar em xeque o conto de fadas da Islândia. Logo de cara, a Inglaterra chegou a esboçar uma vitória fácil. Aos três minutos, os Three Lions ganharam um pênalti desnecessário: o goleiro Halldórsson atropelou Raheem Sterling próximo à linha de fundo, presenteando os ingleses com a falta dentro da área. Rooney converteu a cobrança e abriu o placar. No entanto, o mérito da Islândia foi justamente se recuperar rapidamente. Dois minutos depois, o empate já sairia, a partir de uma jogada muito bem ensaiada. Gunnarsson cobrou lateral em direção à área e o zagueiro Árnasson desviou de cabeça. Já na pequena área, Ragnar Sigurdsson apareceu livre de marcação, para completar para as redes.

Apesar do empate, a Inglaterra seguiu no domínio. Tinha mais posse de bola e pressionava, principalmente a partir dos cruzamentos e dos chutes de fora da área. Mas, aos 17 minutos, a virada tiraria o time de Roy Hodgson dos eixos. Em uma linda troca de passes, diante de uma defesa que servia de mera espectadora, os islandeses invadiram a área. Coube a Sigthórsson dar o golpe decisivo, em um chute sem tanta força, mas que acabou contando com a colaboração de Joe Hart.

Depois disso, os ingleses se perderam. Tinham a bola, mas nem sabiam o que fazer com ela. A equipe se desencontrava diante da postura aguerrida da Islândia, se defendendo de maneira abdicada e concentrada. Pouco criativos, os Three Lions mal conseguiam finalizar. Quando conseguiram, em uma bomba de Harry Kane, Halldórsson se redimiu com uma boa defesa no centro do gol. Pior, quando a Islândia conseguia se aproximar da área adversária, criava perigo. Por muito pouco Skúlason não fez o terceiro no fim da primeira etapa.

O intervalo, que deveria acordar a Inglaterra, terminou de apagar os favoritos. A posse de bola inglesa era inútil e a Islândia mereceu ampliar a vantagem. Ragnar Sigurdsson quase anotou um golaço de bicicleta, que Hart espalmou no susto. Já em contra-ataque, Saevarsson também perdoou. Sem a bola, os islandeses se entregavam a cada carrinho, a cada recuperação. O capitão Gunnarsson, principalmente, simbolizava a vontade de um time que pode não ser o melhor do mundo, mas quer ser o melhor possível. Além disso, o time de Lars Lagerbäck não se descontrolava. Mesmo na saída de jogo, imperava a calma para trabalhar o passe e tentar arranjar algum ataque. Tudo o que faltava à Inglaterra.

Roy Hodgson demorou a fazer as alterações. Sterling, outra vez apagado, saiu para a entrada de Jamie Vardy. O atacante do Leicester era o empenho que os ingleses não tinham, mas não valia nada sozinho. Já no final, a aposta foi em Marcus Rashford, tirando Wayne Rooney. O novato até assustou em jogadas pela ponta esquerda, mas os Three Lions ficaram no quase. Já comemoraram quando Gunnarsson, em um contragolpe que deveria matar o jogo aos 44, chutou para boa defesa de Hart. Por fim, nos acréscimos, uma lasquinha de Árnasson na disputa pelo alto com Vardy confirmou o feito dos islandeses.

A Islândia é digna de muitíssimos elogios. A mentalidade gigante ressoa a cada partida desta Eurocopa e parece muito bem compreendida por cada membro do elenco de Lars Lagerbäck, a quem isso realmente interessa. Além disso, como poucas seleções do torneio, os islandeses contam com um apoio incondicional nas arquibancadas. Uma simbiose que se transforma em vibração durante os 90 minutos e se completa na comemoração de cada vitória. Contra a França, talvez os torcedores nórdicos sejam um pouco abafados pelos anfitriões. Mas não deixarão de ser sentidos por seus jogadores. Nos gritos fortes que vêm do lado de fora é que a Islândia tem certeza da realidade sensacional que vive nesta Euro.

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Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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