Inglaterra

Responsável pelos gols do Liverpool de Bill Shankly, Roger Hunt foi condecorado pela Kop como “Sir Roger”

O segundo maior artilheiro da história do Liverpool morreu nesta terça-feira, aos 83 anos, após um longo tempo doente

Quem tem o poder de entregar aos cidadãos britânicos o título de cavaleiro, o famoso “Sir”, é a rainha, mas as arquibancadas de Anfield não deram a mínima aos procedimentos oficiais e condecoraram Roger Hunt como “Sir Roger” pelos seus serviços prestados ao Liverpool. E que serviços! O homem que morreu nesta terça-feira aos 83 anos ainda é o segundo maior artilheiro da história dos Reds e foi também o único atacante que disputou todas as seis partidas do título da seleção inglesa na Copa do Mundo de 1966.

Natural de Lancashire, no noroeste da Inglaterra, Hunt marcou 285 vezes em 492 jogos pelo Liverpool e era o maior artilheiro do clube até ser superado por Ian Rush. No entanto, ele ainda detém o recorde de gols pelos Reds na liga inglesa, com 244, uma marca que provavelmente nunca será atingida – Mohamed Salah acabou de chegar a 100 no último fim de semana. Hunt foi o principal goleador do Liverpool em oito anos consecutivos, entre 1961 e 1969, a sua última temporada antes de se transferir ao Bolton para encerrar a carreira sob o comando do ídolo de infância, Nat Lofthouse.

Após servir o exército, Hunt defendia clubes amadores da região de Chesire, condado nas redondezas de Liverpool, quando foi contratado para ser reserva de Billy Liddel. Estreou no começo da temporada 1959/60 e marcou em sua estreia contra o Scunthorpe, pela segunda divisão, ainda com o técnico Phil Taylor. Meses depois, tanto a sua história quanto a do clube seriam revolucionadas pela chegada de Bill Shankly.

Shankly assumiu o Liverpool em dezembro daquele ano. Teve pressa para aplicar mudanças estruturais, de métodos de treinamento e mentalidade que catapultaram os Reds ao primeiro patamar da Inglaterra. Também mexeu bastante no elenco, mas manteve a confiança em Roger Hunt. Estava correto porque seus 41 gols em 42 rodadas foram essenciais para que o Liverpool conquistasse a segunda divisão em 1961/62 e encerrasse um exílio de oito temporadas afastado da elite.

As contratações do zagueiro Ron Yeats e do atacante Ian St. John impulsionaram o Liverpool ao acesso, e parte desse efeito foi potencializar as qualidades de Hunt. A parceria com St. John foi uma das maiores da história do clube. Enquanto o escocês brigava com os zagueiros, ganhava bolas pelo alto e abria espaços, Hunt se destacava pela dedicação, inteligência e, claro, pela qualidade da sua finalização.

Aquele time montado por Bill Shankly enfileirou uma série de feitos e estabeleceu as bases para sucessos ainda maiores nas décadas seguintes. Não apenas tirou o Liverpool da segunda divisão, como quebrou o jejum de títulos ingleses, conquistou a primeira Copa da Inglaterra e desbravou as fronteiras com a semifinal da Copa dos Campeões e a decisão da Recopa Europeia. E tudo isso foi realizado com base em muitos e muitos gols de Roger Hunt. Ele, por exemplo, abriu o placar da final daquela FA Cup, em 1965, e também fez o primeiro gol da história do Liverpool em uma final europeia, contra o Borussia Dortmund, na temporada seguinte.

Roger Hunt, do Liverpool (Foto: Divulgação)

Atestado da sua qualidade, Hunt conseguiu ser também um jogador valioso em um outro estilo de jogo na seleção inglesa. Ao contrário do Liverpool, que reservava grande parte da sua criatividade aos pontas Ian Callaghan e Peter Thomson, o time de Alf Ramsey não atuava com jogadores tão abertos. Hunt era tão importante, no entanto, que antes da final contra a Alemanha a dúvida era entre Geoff Hurst ou Jimmy Greaves, que havia sido titular na fase de grupos, mas se machucara na terceira partida contra a França.

Hunt estava garantido, e era o jogador mais próximo das traves no controverso “gol” de Hurst que acertou o travessão e cruzou ou não a linha dependendo de a quem você pergunta – na Inglaterra, a resposta tende a ser “sim”. Reza a lenda que a sua comemoração efusiva convenceu os companheiros de que a bola havia de fato entrado e ajudou a influenciar a arbitragem a confirmar o gol que ele sempre considerou legítimo.

Acabou se tornando vítima da reformulação de um time envelhecido que Shankly se sentiu obrigado a conduzir no final da década de sessenta. Em março de 1969, ficou irritado ao ser substituído a 17 minutos do fim da derrota por 1 a 0 para o Leicester, em Anfield, no replay da quinta rodada da Copa da Inglaterra. Rasgou a camisa e a atirou no chão antes de se dirigir aos vestiários. Ficaria apenas mais alguns meses antes de se transferir ao Bolton, em dezembro daquele ano, para disputar os últimos jogos de uma carreira das mais vitoriosas.

“Infelizmente, parece que estamos nos despedindo desses gigantes do clube muito frequentemente neste momento”, afirmou Jürgen Klopp. “Roger Hunt não foi menos importante do que ninguém para a história do Liverpool, isso é claro. Ser o catalisador de gols do time de Shankly, conseguir o acesso e vencer aqueles preciosos títulos ingleses e a Copa da Inglaterra, tudo isso o coloca em um grupo de lendas do Liverpool que são responsáveis por nos tornar o clube que somos hoje”.

“Não apenas isso, mas ele também conquistou a Copa do Mundo de 1966. Me disseram que a Kop o condecorou como ‘Sir Roger’ pelos seus feitos. Um artilheiro que nunca parava de trabalhar para ajudar os companheiros. Acredito que ele teria se encaixado bem no nosso atual time”, completou.

O único jogador relacionado ao Liverpool que foi oficialmente condecorado como cavaleiro pela realeza é Kenny Dalglish – e apenas em 2018. Não apenas pelos seus feitos esportivos, mas também pela maneira como apoiou as famílias vítimas da tragédia de Hillsborough e pelos trabalhos de caridade que arrecadaram milhões de libras para o tratamento do câncer em Merseyside. Lendário presidente entre as décadas de setenta e oitenta, Jonh Smith também ganhou o direito de ser chamado de “Sir”.

Como único representante do Liverpool entre os 11 que derrotaram a Alemanha na final da Copa do Mundo de 1966, Hunt seria um forte candidato. Questionado se a ausência do título o incomodava pelo Liverpool Echo, dois anos atrás, respondeu: “Eu nunca precisei dele. Eu fui condecorado pela Kop. Isso significa mais para mim”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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