Inglaterra

Ian St. John deu o impulso que o Liverpool precisava para sair da segunda divisão e se tornar uma potência

Era uma manhã como qualquer outra para Bill Shankly. Em casa, folheando os jornais de domingo. Até que viu uma notícia no Sunday Post: Ian St. John, do Motherwell, estava disponível. Foi correndo ao telefone. Primeiro ligou para o presidente do clube escocês para marcar uma reunião. Depois, falou com Eric Sawyer, o membro da diretoria que mais compartilhava da sua visão para o Liverpool. Não podia deixar a oportunidade escapar novamente.

Shankly havia observado St. John pela primeira vez três anos antes, quando ainda era treinador do Huddersfield. Em seu eterno combate para convencer diretores a gastarem dinheiro, havia prometido que, com ele e Ron Yeats, zagueiro que também militava no futebol escocês, o Town seria promovido à primeira divisão. Os homens da grana em Huddersfield não quiseram pagar para ver. Os de Liverpool cobriram a aposta e não ficariam decepcionados.

Bill Shankly chegou ao Liverpool em dezembro de 1959. Além de todas as medidas que tomou para melhorar a infraestrutura e revolucionar a cultura do clube, também melhorou os resultados em campo. Chegou duas vezes em terceiro na segunda divisão, à qual os Reds estavam sentenciados desde 1954. Mas começava a ficar frustrado com a falta de evolução. Ninguém estava mais convencido do potencial do Liverpool do que ele. A base estava estabelecida. Faltava um pouco de material humano para dar o salto.

Posteriormente, diria que Ian St. John foi o divisor de águas. Não apenas do seu trabalho, mas da história do Liverpool. Ele e Yeats ajudaram-no a sair da segunda divisão, a ganhar o Campeonato Inglês pela primeira vez em 17 anos, a conquistar o inédito título da Copa da Inglaterra e foram os pilares do primeiro time vitorioso do clube mais vencedor da Inglaterra no período pós-Guerra do Século 20.

Ian St. John morreu nesta terça-feira, aos 82 anos, após muito tempo doente. A família não especificou a causa. Ele havia sofrido um forte derrame em 2015 e batalhara contra um câncer na bexiga.

O primeiro atacante em quem Shankly queria investir as riquezas do Liverpool era Brian Clough. Naquele mesmo mercado, Clough havia rachado de vez com o Middlesbrough, mas a pedida era alta demais. Acabou saindo para o Sunderland por £ 45 mil. Naquela época, o recorde de transferências do Liverpool era £ 16 mil por Gordon Milne. Perder um jogador do talento de Clough apenas aumentou a frustração de Shankly. E também a sua determinação assim que ele ficou sabendo que St. John estava disponível.

Com 1,70 metros de altura, St. John era pequeno para um centroavante daquela época. Mas era forte, tinha muita impulsão para ganhar bolas pelo alto e brigava o tempo inteiro, talvez um resíduo do seu passado como boxeador. “Eu amava o boxe e me ajudou muito porque eu não tinha medo dos jogos, não importava quão grandes fossem os zagueiros. Eu não tinha medo de ninguém. Às vezes eu levava minhas habilidades do boxe para o gramado. Fui expulso contra o Coventry. Fui expulso contra o Fulham. Eu tinha um temperamento explosivo, o que era ruim. O fato que eu não tinha medo de ninguém era bom”, disse.

Apesar de ainda ter apenas 22 anos, ele já havia marcado 80 gols na liga escocesa e defendera a seleção nacional. Um dos seus destaques foi um hat-trick em 150 segundos contra o Hibernian. Shankly sabia que precisava agir rápido para não o perder. O Newcastle também havia se interessado. Após três horas de negociação com a diretoria do Motherwell, chegaram a um valor aceitável às duas partes: £ 37,5 mil, menos do que Clough, ainda mais do que o dobro do recorde de transferências do Liverpool. Mas como sempre dizia Shankly, não era um gasto: era um investimento.

Com St. John e Yeats, contratado pouco depois por £ 30 mil, o Liverpool tinha o time que, em condições perfeitas, Shankly considerava ser imbatível: Tommy Lawrence, Chris Lawler, Yeats, Tommy Smith e Gerry Byrne; Ian Callaghan, Gordon Milne, Willie Stevenson e Peter Thompson; St. John e Roger Hunt. A opinião de Shankly era obviamente enviesada. Ele nunca perdia a oportunidade de dar confiança aos seus jogadores. Mas dez vitórias e um empate nas primeiras 11 rodadas da segunda divisão deram um pouco de crédito ao seu exagero.

A mudança mais visível foi no futebol de Roger Hunt. Ele havia feito 19 gols na segunda divisão de 1960/61. Com St. John brigando com os zagueiros, ganhando as bolas pelo alto e abrindo espaços, marcou 41 na campanha do acesso. E faria pelo menos 30 – ou quase – nas quatro temporadas seguintes em que o Liverpool se estabeleceu como um dos grandes clubes do mundo. Ian St. John era o segundo principal marcador, com aproximadamente 20 gols em suas primeiras três temporadas vestindo vermelho.

Não demorou muito para cair nas graças da torcida. Foi um dos primeiros a ganhar uma música especial das arquibancadas de Anfield. Ao ritmo de “Let’s Go”, canção do The Routers lançada em 1962, os torcedores batiam palmas e cantavam “St. John” em vez de “Let’s Go”.

Ele também deu uma contribuição duradoura à cultura do Liverpool. O time usava calções brancos até Shankly sugerir que eles também fossem vermelhos para intimidar o Anderlecht antes do jogo de ida da segunda rodada da Copa dos Campeões de 1964, a primeira vez que o Liverpool jogou a competição. St. John foi mais além: por que não meias vermelhas? Parecendo gigantes totalmente vestidos de vermelho, os Reds venceram por 3 a 0 em Anfield.

Mais tarde naquela temporada, St. John teria a sua semana mais especial como jogador do Liverpool. Em 1º de maio, completou o cruzamento de Callaghan para marcar contra o Leeds, na prorrogação, o gol da vitória por 2 a 1 que valeu a primeira Copa da Inglaterra da história do clube. Três dias depois, Gerry Byrne que havia quebrado a clavícula antes de dar a assistência do primeiro tento em Wembley, apareceu no gramado de Anfield carregando a FA Cup. O barulho foi tão grande que desestabilizou até uma campeã europeia como a Internazionale de Helenio Herrera. O Liverpool venceu por 3 a 1, com St. John anotando o terceiro gol. Na Itália, porém, foi derrotado por 3 a 0 e não chegou à final.

Na temporada seguinte, o título do Campeonato Inglês seria conquistado pela segunda vez em três anos, mas o Liverpool passaria algumas temporadas longe das conquistas, à medida em que a sua espinha dorsal envelhecia. Shankly admitiu que demorou demais para renovar o seu time. Seria obrigado pelas circunstâncias a fazê-lo em 1969/70, e St. John sempre culpou o treinador pela maneira como o processo foi conduzido.

O primeiro sinal foi ter sido barrado de um jogo contra o Newcastle, e o que causou fricção com Shankly foi o fato de ter descoberto que não estava entre os titulares da boca de Jackie Millburn. O ex-jogador do Newcastle trabalhava como jornalista esportivo e recebeu as escalações, sem o nome de St. John. O atacante teve um encontro constrangedor com o amigo nos corredores de St. James Park.

“Enquanto Milburn olhava as escalações, eu disse que precisava voltar aos vestiários para me trocar. Ele olhou para cima e disse poucas palavras que, pelo impacto que tiveram, estão gravadas no meu cérebro como ferro: ‘cara, você não vai jogar’”, escreveu St. John em sua autobiografia. “Enquanto eu corria pelos corredores de St. James Park, eu pensava na grande relação que eu tinha com Shankly, todo o calor e as intimidades, as risadas sem fim e o profundo senso de que, por baixo de todas as pressões do jogo, e da tensão e crueldades às vezes terríveis que elas produziam, nós nos entendíamos muito bem”.

“Se não era uma compreensão de pai e filho, era muito próximo. Ou pelo menos eu pensava que era. Não consigo não pensar que, no fim, Shankly me decepcionou. Eu fiquei muito frustrado porque ele não lidou melhor com a situação. Ele deveria ter falado comigo, mesmo que fosse no hotel em Newcastle ou antes do jogo. Ele poderia ter dito uma centena de coisas. Qualquer coisa seria melhor do que o golpe dado por Jackie Milburn”, completou.

Apesar da decepção, St. John foi um dos ex-jogadores que escoltou o caixão de Bill Shankly, falecido em 1981, e seguiu o seu conselho ao aceitar o cargo de técnico do Portsmouth, uma vez aposentado, dias depois de ser preterido pro Brian Clough no Leeds (aqueles 44 dias). No epílogo de sua autobiografia, descreveu como passou a ter sentimentos conflitantes em relação a Shankly.

“Eu fico dividido entre amor e ódio, admiração e às vezes um pouco de raiva e desilusão. Naquele dia em Anfield, olhando para a estátua de bronze de Shankly, eu não olhava para Shankly, meu patrão, o árbitro de todas minhas esperanças por dez anos no auge da minha vida, mas para alguém que havia sido fincado tão profundamente na percepção pública do futebol e que era adorado pelo povo de Liverpool. Eu me concentrei na inscrição: ‘Ele fez o povo feliz’. Sim, ele fez”, disse.

Meses depois do jogo contra o Newcastle, houve uma derrota marcante para o Watford nas quartas de final da Copa da Inglaterra. Foi a gota d’água para Shankly, que barrou quase todos os veteranos das suas primeiras conquistas e começou a renovação na marra. Ian St. John estava entre eles. Ainda ficou um pouco mais no clube, mas sua carreira em Anfield estava terminada. Jogou na África do Sul, no Coventry City e sob o comando de Yates no Tranmere Rovers, da região de Liverpool antes de se aposentar em 1973. Tentou a sorte como técnico do Motherwell e do Portsmouth, mas sem muito sucesso.

Quebrada a parceria com Roger Hunt, St. John encontrou outro nome importante do futebol inglês para formar uma dupla em sua segunda carreira. Ao lado de Jimmy Greaves, apresentou o popular e bem-humorado programa Saint and Greavsie que preencheu o horário do almoço de sábado na ITV entre 1985 e 1992. Ele era o cara mais sério que preparava as piadas para o humor afiado de Greaves.

Em um momento marcante, os dois viajaram a Nova York para gravar o sorteio da Copa da Liga Inglesa com um convidado especial: Donald Trump. St. John continuou analisando futebol para a ITV, mesmo depois do cancelamento do programa, e depois deu seus pitacos nas estações de rádio locais de Liverpool.

Em duas pesquisas do site oficial do Liverpool sobre os “100 Jogadores Que Fizeram a Kop Tremer”, ficou em 21º em 2006 e 33º em 2013. Se a régua fosse importância, talvez aparecesse mais para cima. Não dá para dizer que o Liverpool nunca se tornaria uma potência sem ele, mas St. John foi um dos principais instrumentos do processo. Então, fica a lição: nunca deixem de prestar atenção nos jornais de domingo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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