Inglaterra

Maior artilheiro da história do Campeonato Inglês, Jimmy Greaves colecionou cicatrizes e marcou época por Tottenham e Chelsea

Greaves perdeu um filho de quatro meses, foi preterido por Geoff Hurst na final da Copa do Mundo de 1966 e passou quase uma década lutando contra o alcoolismo

Desde que estreou em 1957 até o fim da década de sessenta, ninguém fez mais gols no Campeonato Inglês do que Jimmy Greaves. Na realidade, ninguém na história da primeira divisão da Inglaterra fez mais gols do que Jimmy Greaves. Uma das marcas importantes que o atacante construiu com uma mistura de técnica, velocidade e faro de artilheiro. Inteligência também para encontrar o lugar certo dentro da área para finalizar. A decepção de ter perdido o lugar na seleção para Geoff Hurst na Copa do Mundo de 1966 e o alcoolismo após o fim da sua carreira foram marcadores implacáveis, mas conseguiu se reinventar como um popular comentarista na televisão antes da fundação da Premier League. E morreu neste domingo, aos 81 anos, em dia de Tottenham x Chelsea, as duas camisas pelas quais mais brilhou.

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Greaves fez 357 gols em 516 partidas pela primeira divisão da Inglaterra e praticamente não teve uma temporada ruim durante mais de 10 anos – na pior, doente, marcou 15 vezes. Foi artilheiro em seis ocasiões e, apesar de sua transferência ao Milan, um dos primeiros jogadores ingleses a se arriscar além das fronteiras, ter durado pouco, retornou com média de quase um tento por partida na dezena de rodadas que disputou. Formado pelo Chelsea, foi o Tottenham quem o repatriou, e ele acabou se tornando o maior artilheiro da história dos Spurs, com 266 gols em 379 partidas. Pela Inglaterra, teve 44 e é superado apenas por Gary Lineker, Bobby Charlton e Wayne Rooney – mas tem média melhor que todos eles.

Natural do leste de Londres, Greaves surgiu pelo principal time do outro lado da cidade, em um momento no qual o Chelsea era treinado por Ted Drake, que havia realizado revoluções estruturais e mudado tanto o apelido quanto o escudo do clube. Além disso, comandou o primeiro título inglês dos rebatizados Blues em 1954/55. Era um bom momento para começar carreira, e Greaves foi um meteoro que marcou 124 gols pelo Campeonato Inglês em apenas quatro temporadas. Foi artilheiro de duas, em 1958/59 e 1960/61 – quando marcou 41 em um torneio que tinha 42 rodadas.

A fantástica quantidade de gols que marcava colocou Greaves no radar do mercado italiano que abria as suas fronteiras. O Chelsea precisava vendê-lo para acertar as contas, e Greaves também estava interessado no novo desafio, principalmente nos salários muito maiores que receberia, e talvez também em parte para renovar os ares após uma pesada tragédia pessoal. O seu segundo filho, Jimmy júnior, havia morrido de pneumonia com quatro meses de idade. O Tottenham se mostrou interessado, mas o Chelsea não poderia vender a sua principal estrela para um rival. Um jornalista “agindo como um agente disfarçado representando um grande clube italiano” o abordou e eventualmente revelou que esse clube era o Milan.

O negócio de £ 80 mil libras – época em que o recorde eram £ 152 mil por Luis Suárez, do Barcelona – foi fechado entre o Chelsea e um representante não-secreto do Milan chamado Gigi Peronace, que parecia um personagem de Poderoso Chefão, segundo Greaves escreveu em sua biografia. Ele se juntaria a outros jogadores ingleses que foram à Itália naquele mercado, como Denis Law, Joe Baker e Garry Hitchens. Receberia um aumento daqueles, de £ 20 por semana para £ 130 e a primeira impressão do técnico Giuseppe Viani foi boa.

Greaves teria que esperar o fim da temporada para se juntar ao Milan e, à medida em que o tempo passava, ele começou a ter dúvidas. “Minha euforia inicial por jogar e viver na Itália rapidamente diminuiu. O pensamento de viver longe da área de Londres em outra parte da Inglaterra não era atraente para mim, ainda mais em outro país. Eu gostava da vida em Londres e do estilo de vida de Londres”, escreveu em sua autobiografia. O garoto de 21 anos chegou a dizer à cúpula do Chelsea que não queria mais ir ao Milan, mas, desesperados, após já terem aceitado um adiantamento de £ 10 mil, Ted Drake e o presidente Joe Mears o convenceram. “Eu me sentia como um garoto que havia aceitado se casar apenas porque não queria irritar ninguém”, disse.

Não é exatamente o espírito ideal para começar uma nova parceria. Convencido por um jornalista inglês, Greaves decidiu tomar uns drinques no aeroporto antes de embarcar e chegou seis horas atrasado a Milão porque perdeu o avião. Estreou marcando contra o Botafogo, mas a relação continuou a se deteriorar. A sua esposa Irene teve outro filho, em meados de julho, e Greaves queria retornar à Inglaterra. Ele foi, a contragosto do Milan e sob ameaças de que seria multado. Para piorar, ele não desembarcou em Milão, mas em Veneza, onde assinaria um acordo de patrocínio com uma marca esportiva e chegou um dia atrasado para a pré-temporada. Para piorar ainda mais, Viani havia sofrido um ataque cardíaco e seria substituído por Nero Rocco, com um estilo muito mais disciplinador que controlava as refeições e cada minuto da rotina dos jogadores.

A passagem de Greaves pela Itália durou apenas alguns meses. Ele ainda fez nove gols em 13 partidas e dez rodadas da Serie A. Marcou inclusive em um dérbi contra a Internazionale. Mas não passaria de dezembro, e Dino Sani até já havia sido contratado para ser seu substituto. O Tottenham, que havia acabado de conquistar a Dobradinha do futebol inglês, com os títulos da liga e da FA Cup, ressuscitou o seu interesse, superou a concorrência do Chelsea e o trouxe de volta. O treinador Bill Nicholson fez questão de que a taxa de transferência fosse de £ 99.999 para que ele não sofresse a pressão de ser o primeiro jogador inglês de £ 100 mil.

O melhor time que os Spurs já tiveram finalmente conseguiu transformar os gols de Greaves em pedaços de prata. Foram dois títulos da Copa da Inglaterra (um deles, em 1967, contra o Chelsea na final) e principalmente a Recopa Europeia de 1963. O primeiro título europeu de grande importância conquistado por um time britânico saiu com goleada por 5 a 1 sobre o Atlético de Madrid, em Roterdã, com dois gols de Jimmy Greaves. O atacante seguiu extremamente prolífico e emendou três artilharias seguidas do Campeonato Inglês, entre 1962/63 e 1964/65 e seria o principal goleador pela última vez em 1968/69.

A concorrência em uma década de ouro do futebol inglês era fortíssima. Embora fosse também um time histórico, aquele Tottenham precisou enfrentar o Liverpool de Bill Shankly, o Manchester United de Matt Busby, o Everton de Harry Caterick, o Manchester City de Joe Mercer e Malcolm Alisson e o Leeds de Don Revie. Havia conquistado o Campeonato Inglês, antes da chegada de Greaves, mas, com ele, não conseguiu passar do segundo lugar, em 1962/63.

Uma decepção maior foi a Copa do Mundo de 1966. Claro que Greaves ficou feliz pelo título, e comemorou com os companheiros, mas havia sido o titular nos três jogos da fase de grupos. Uma lesão contra a França abriu a porta para Geoff Hurst – que acabou marcando um hat-trick na final contra a Alemanha -, e Greaves não conseguiu mais voltar ao time. Receberia sua medalha de campeão apenas em 2009, quando todos os jogadores ingleses da delegação foram premiados retroativamente, o que passou a acontecer apenas depois do Mundial de 1978. Cinco anos depois, ele a vendeu por £ 44 mil em uma casa de leilões.

Se havia perdido um filho e a chance de jogar a final da Copa do Mundo na década anterior, a de setenta seria foi tão cruel quanto para Greaves. Começou ficando fora da convocação para o Mundial do México – acabou indo de qualquer jeito para participar de um rali relacionado ao torneio e, dirigindo um Ford Escort, terminou em sexto lugar – e a transferência para o West Ham, clube da região em que havia nascido, não foi bem sucedida. Embora tenha retornado para jogar nas divisões semi-amadoras, sua carreira efetivamente terminou em 1971. Como havia estreado muito jovem, ainda tinha apenas 31 anos.

Jimmy Greaves (Foto: David Klein/Sportimage/Imago/One Football)

E aí, o alcoolismo pegou pesado. Em sua autobiografia, Greaves admite que gostava de uma cerveja durante a sua época de jogador, mas, longe do futebol, o hábito piorou na década de setenta. “Às vezes eu bebia até 20 pints de cerveja durante o dia, ia para casa e bebia uma garrafa inteira de vodka antes de dormir. Eu não conseguia dormir sem beber. Costumava colocar uma garrafa de vodka ao lado da cama para poder beber assim que eu acordava. Fazia minhas mãos pararem de tremer, acalmava meus nervos e me preparava para mais um dia de bebida”, escreveu no livro, segundo o Guardian. “Eu perdi completamente os anos setenta. Eles passaram por mim. Eu fiquei bêbado de 1972 a 1977. Eu acordei um dia e percebi que o mundo era diferente. Eu estava vivendo nele, mas não estava consciente sobre ele”.

A bebida lhe custou o dinheiro que havia recebido como um dos maiores jogadores do mundo – o que naquela época não era tanto assim -, o casamento com a esposa Irene e a sua juventude. Envelheceu rapidamente e vendia casacos femininos para pagar as contas. Decidiu parar de beber em fevereiro de 1978. “Um dia eu disse ‘chega’ e deixei para trás e, felizmente, até hoje (o livro foi publicado em 2003), eu me mantive longe da bebida. Há momentos em que quero um drinque? Claro que há, como acontece com todo mundo. Você sente como todas as outras pessoas e gostaria de sair e beber algumas jarras, mas sabe que não pode fazer isso”, escreveu.

Greaves conseguiu colocar a vida em ordem. Reatou com a esposa e até voltou a jogar em times que disputam o futebol non-league, ou seja, fora da estrutura da liga inglesa daquela época, e teve uma segunda carreira de muito sucesso na televisão. Era uma das estrelas do programa Saints and Greavsie, ao lado de Ian St. John, ídolo do Liverpool, que preencheu a hora do almoço de sábado na ITV entre 1985 e 1992. Destacava-se pelo humor afiado, em contraste com o perfil mais sério de St. John, mas o forte do programa era falar de futebol com um tom leve. A parceria foi quebrada em 1992, quando a ITV perdeu os direitos de transmissão para a Sky Sports, que entrava no esporte com um caminhão de dinheiro para a inauguração da nova Premier League.

Acometido por um derrame em 2015, sua saúde ficou muito debilitada nos últimos anos. Morreu em casa nas primeiras horas deste domingo, segundo a nota oficial do Tottenham. “Ficamos extremamente tristes ao ficar sabendo da morte de Jimmy Greaves, não apenas o maior artilheiro da história do Tottenham, mas o melhor artilheiro que este país já viu”, afirmou o clube. O Chelsea também fez sua homenagem: “O Chelsea lamente a perda de um jogador realmente notável e um dos nossos. Nossos pensamentos e simpatias estão com a família e amigos de Jimmy Greaves neste momento triste de perda”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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