Premier League

Defoe se despede do futebol como um centroavante respeitável e um ídolo que honrou o lado mais bonito do esporte

Aos 39 anos, Defoe encerrou prematuramente seu retorno ao Sunderland e se aposentou do futebol profissional

Aos 39 anos, Jermain Defoe botou um ponto final em sua carreira profissional. O atacante havia anunciado uma volta para casa na janela de transferências de janeiro, ao assinar com o Sunderland, onde viveu alguns dos melhores anos de sua trajetória. Porém, a empreitada não passou de sete jogos e, com dificuldades para manter suas melhores condições físicas, o veterano decidiu parar de vez. O inglês encerra uma respeitável história, em que atuou por muitos clubes tradicionais e se estabeleceu entre os 10 maiores artilheiros da era Premier League. Ao longo de duas décadas, atuou em ótimo nível e esteve entre os jogadores que mais souberam balançar as redes na elite da Inglaterra. Foi ídolo em muitos cantos.

“Depois de 22 anos no jogo, decidi me aposentar do futebol profissional. Foi uma decisão realmente dura, que eu discuti com minha família e com as pessoas mais próximas. Fiz minha estreia com 17 anos e sinto que este é o momento certo para me retirar. Tive uma jornada incrível e conheci algumas pessoas fantásticas. O futebol sempre permanecerá no meu sangue, e me dá grande prazer e satisfação ao olhar para trás e ver a carreira abençoada que eu tive. Agora estou ansioso por passar mais bons momentos com meus amigos e família, antes de avançar ao próximo capítulo da minha carreira”, escreveu Defoe.

“Obrigado a todos os torcedores de cada clube em que atuei. O amor que recebi e que permaneceu durante minha carreira nunca será esquecido, e eu sempre terei uma conexão especial com todos vocês. Obrigado aos meus incríveis companheiros, treinadores e funcionários dos clubes, por terem uma parte integral na minha carreira. Por último, queria dizer obrigado à minha mãe. Você me deu uma bola quando eu tinha dois anos e me fez acreditar que meu sonho poderia acontecer. Tudo o que sou é por sua causa, e devo tudo a você e a Deus”, concluiu.

Nascido na região metropolitana de Londres, Defoe passou pela base do Charlton, antes de assinar com o West Ham e se profissionalizar em Upton Park. Seria uma cara aposta dos Hammers, que no total desembolsaram £1,4 milhão ainda em 1997 para um garoto de 16 anos. O atacante se integrou primeiro à base, até fazer sua estreia em setembro de 2000. Marcou o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Walsall na Copa da Liga. Antes de deslanchar com o clube, Defoe teve um bem-sucedido empréstimo pelo Bournemouth, com direito a 18 gols em 29 partidas pela terceira divisão. Chegou a marcar em dez rodadas consecutivas. Isso até ser pinçado de volta pelo West Ham e iniciar sua fama de artilheiro na Premier League. Foram 18 gols em duas temporadas na elite, até que os Hammers fossem rebaixados em 2003. O jovem ainda disputou parte da Championship, antes de assinar com o Tottenham em janeiro de 2004 por £6 milhões.

Defoe criou grande identificação com o Tottenham, mesmo em tempos de campanhas no meio da tabela. Chegou a ser eleito o Jogador do Ano logo em 2004 e registrava bons números com os Spurs. Foi vendido para o endinheirado Portsmouth para uma curta passagem entre 2008 e 2009. Fez parte do elenco campeão da FA Cup em 2007/08, embora não tenha participado da campanha por já ter atuado no torneio pelos Spurs. Em compensação, ganharia a medalha de campeão da Copa da Liga com o Tottenham, mesmo ficando de fora da reta final. E a ligação com White Hart Lane permitiu um retorno em janeiro de 2009. Foi quando atravessou a melhor fase de sua carreira e se consolidou como ídolo. Chegaria a marcar 18 gols na Premier League 2009/10, além de cinco gols num mesmo duelo com o Wigan em 2009. Num momento em que o clube restabelecia sua força, o centroavante servia como um símbolo.

O rendimento de Defoe caía em 2013/14. Foi quando ele deixou o Tottenham para se aventurar no Toronto FC, da MLS. Teria uma curta, mas bem sucedida passagem pelo clube canadense. Porém, não demorou a voltar para a Premier League e assinou com o Sunderland em janeiro de 2015. O veterano também seria adorado no Stadium of Light, mesmo em tempos claudicantes no qual a equipe flertava com o rebaixamento. O laço mais forte seria construído com Bradley Lowery, pequeno torcedor que enfrentava um câncer raro e que criou uma relação muito bonita de amizade com o artilheiro. Pelo carinho com o garoto, Defoe passou a receber mais consideração dos torcedores dos Black Cats. Apesar da história tocante, contudo, o centroavante não evitou o rebaixamento da equipe em 2016/17, mesmo com 15 gols na Premier League. Bradley faleceria pouco depois, em julho de 2017.

Defoe escreveu uma bonita mensagem de despedida ao menino, além de tatuar o apelido ‘Brads’ no braço: “Adeus, meu amigo, eu vou sentir muito a sua falta. Eu me sinto muito abençoado por Deus tê-lo trazido para minha vida e tive alguns momentos incríveis com você e sou grato por isso. Eu nunca vou esquecer a maneira como você olhou para mim quando nos conhecemos pela primeira vez, o amor genuíno naqueles olhos doces. Estou realmente tendo dificuldades para encontrar as palavras para expressar o que você significa para mim. O jeito como você dizia meu nome, seus pequenos sorrisos quando as câmeras apareciam, como se fosse uma superestrela, e o amor que eu sentia quando estava com você. Sua coragem e bravura continuarão a me inspirar pelo resto da vida. Você nunca vai saber a diferença que fez para mim, como pessoa. Que Deus o tenha em seus braços e vou sempre carregá-lo em meu coração. Durma bem, pequenininho. Meu melhor amigo”.

Defoe retornou ao Bournemouth em 2017/18, mas não teria o impacto de sua adolescência. Neste momento, sua carreira entrava em declínio e o rendimento caiu. O jeito seria se mudar a uma liga menos competitiva. Em 2018/19, o centroavante assinou com o Rangers, graças à relação com Steven Gerrard. Redescobriu sua fome de gols e teria ótimos números no Campeonato Escocês. Foi importante na reconstrução da equipe, mesmo perdendo espaço na temporada do título. Já em 2021/22, o medalhão atuou pouco, mas ajudou como treinador interino após a saída de Gerrard. Despediu-se dos Teddy Bears em janeiro, antes do breve retorno ao Sunderland nas últimas semanas. O melhor na curta passagem foi mais uma ação solidária, agora para ajudar a fundação de Bradley Lowery.

Defoe ainda teve seu prestígio na seleção inglesa. Atuou nas equipes de base, até fazer sua estreia em 2004, quando ainda estava no West Ham. Apesar da importância na classificação à Copa de 2006, todavia, não disputou o torneio na Alemanha. A redenção aconteceria depois, especialmente em 2010, quando finalmente jogou o Mundial. Seria autor do gol contra a Eslovênia, que classificou os Three Lions às oitavas de final. O centroavante também fez parte do elenco na Euro 2012, mas perderia espaço rumo à Copa de 2014. Seu sucesso no Sunderland concedeu as últimas convocações em 2017. Não teria gás para disputar outra Copa do Mundo, mas teve o gosto de entrar em campo com o amigo Bradley Lowery num jogo contra a Lituânia pelas Eliminatórias. O centroavante marcou um dos gols no triunfo por 2 a 0, o último de seus 20 pela equipe nacional.

Por seu papel na comissão técnica do Rangers nos últimos meses, Defoe deve seguir envolvido com o futebol durante os próximos anos. Independentemente disso, seu nome está marcado. São 162 gols na Premier League e momentos relevantes com cinco clubes importantes da Inglaterra, além de outro gigante da Escócia. Pelo Tottenham, com 143 gols, figura em sexto na lista de maiores artilheiros. Disputou as principais competições com a seleção, manteve-se na elite de goleadores da principal liga do mundo. E honrou também os torcedores, como o carinho com Bradley Lowery sempre enfatizou. Foi um jogador que respeitou o futebol e também valorizou a face mais bonita do esporte. Sai sob muitos aplausos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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