Até onde vale o sonho de jogar na Premier League a todo custo?
Saída de meia colombiano levanta questão se vale a pena deixar um time competitivo do Brasileirão para qualquer clube inglês fora do Big Six
Não é uma novidade. A Premier League, o maior campeonato nacional do mundo, virou o sonho de quase todo jovem jogador brasileiro e também de atletas nascidos nos vizinhos sul-americanos. É o mais alto nível de futebol em termos de intensidade e fisicalidade e onde estão os maiores holofotes pela forma que o “produto” é vendido às TVs. Só a Champions League atrai mais atenção no mundo do futebol.
Isso não é, necessariamente, uma coisa ruim. Atualmente, Roberto Firmino, Alisson, Ederson, Willian e outros são lendas de clubes mais do que centenários — até o meio dos anos 2010, isso quase não existia. Gabriel Magalhães e Bruno Guimarães estão nesse caminho e hoje são a base da seleção brasileira.
Há alguns jogadores, porém, que vão para Inglaterra com o sonho de se tornarem como os citados, almejando a elevação de seu status de qualquer jeito, e acabam que voltam menores em vários níveis: de valor, de importância para seleção e ao seu país natal ou até em nível técnico.
Evolução do número de jogadores brasileiros na Premier League nas últimas cinco temporadas:
- 2025/26: 33 jogadores
- 2024/25: 35
- 2023/24: 34
- 2022/23: 36
- 2021/22: 29
¡Bienvenido, Jhon Arias! 🇨🇴
— SE Palmeiras (@Palmeiras) February 7, 2026
O atacante colombiano de 28 anos chega para reforçar o Verdão! Avanti, meu 𝑔𝓇𝑒𝑒𝓃𝑔𝑜! 🦾 ➤ https://t.co/JoEuSaAo3T pic.twitter.com/bKTvswVZlx
Casos de Arias e Jair acontecem aos montes na Premier League
No começo da atual temporada, Jhon Arias trocou o Fluminense, onde conquistou Libertadores, Recopa Sul-Americana e Campeonato Carioca e era amado pela torcida, pelo Wolverhampton, que se tornaria lanterna absoluto do futebol inglês, e passou um tempo na reserva até ter seu espaço. Sete meses depois, o clube nem fez questão de segurá-lo e o vendeu de volta ao futebol brasileiro, dessa vez rumo ao Palmeiras.
Segundo o “ge”, o meia tem receio de perder um lugar na seleção colombiana a meses da Copa do Mundo. Ou seja, viu seu status não se consolidar durante o “sonho” da Premier League.
Carlos Miguel, quando esteve no Nottingham Forest por uma temporada, nem sequer atuou pela Premier League, ficando como reserva de Matz Sels, que terminou como melhor goleiro da liga no último ano. Hoje, ele é o dono do gol do Palmeiras e pode almejar a seleção brasileira.
É um claro contraste: enquanto o arqueiro esteve no futebol inglês, mal tinha o nome falado no Brasil. Quando chegou ao Alviverde, apesar de algumas críticas recentes, teve boas atuações e chamou atenção.
O Forest, inclusive, já recebeu um “batalhão” de brasileiros recentemente e nem sempre eles têm uma sequência como tem tido o zagueiro Murillo, ex-Corinthians como Carlos Michel, que hoje é o dono da zaga e é especulado em times gigantes.

O zagueiro Jair Cunha, uma das maiores promessas brasileiras na defesa nos últimos anos, só jogou uma vez na atual temporada do Campeonato Inglês, ao mesmo tempo que passou 12 partidas como reserva durante todos os 90 minutos.
Aos 20 anos, é um processo natural de adaptação, mas, quando estava no Brasil, era titular absoluto do Santos e depois Botafogo. Nessa idade, quanto mais tempo em campo, melhor. A escolha do jovem já mostra um desafio porque o Forest, além de contar com uma dupla de zaga consolidada (Murillo e Milenkovic), tem um reserva que atua muito (Morato).
O Nottingham ainda teve Gustavo Scarpa em passagem que durou apenas seis meses no começo de 2023. O meia desembarcou na Europa como o craque do título brasileiro do Palmeiras e vinha como líder em assistências nas duas edições anteriores do Brasileirão para um time que disputava a primeira elite inglesa desde 1999.
Em campanha de luta contra o rebaixamento da equipe inglesa, Scarpa terminou com seis partidas no Campeonato Inglês e foi emprestado ao Olympiacos antes de retornar ao Brasil, já sem tanto brilho no Atlético Mineiro como teve no Palmeiras.
De perfil mais próximo de Jair, Gustavo Nunes também saiu garoto do Grêmio para chegar na Inglaterra no meio de 2024. Então com 19 anos, o ponta driblador teve de cara um grave problema nas costas na chegada ao Brentford, só retornando em abril do ano seguinte.
Desde então, no entanto, fez apenas três jogos de Premier League e passou mais vezes no banco de reservas. Também precisando de minutos para se desenvolver, o jovem está emprestado ao Swansea, da segunda divisão inglesa, até o fim da atual temporada para ter minutos.
São apenas alguns exemplos entre alguns jogadores que, direto do Brasil, foram para Inglaterra e enfrentaram dificuldades.
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Vitinho mostra que seleção brasileira pode ser mais fácil aqui do que na Inglaterra

O lateral-direito Vitinho, mesmo que não tenha saído direto do Brasil para Inglaterra, entra nessa linha de reconhecimento nacional até maior que Carlos Miguel.
Por duas temporadas na Inglaterra, a primeira na segunda divisão e a seguinte na elite, foi titular absoluto no Burnley (rebaixado novamente no segundo ano), onde fez 80 jogos. Quando migrou ao Botafogo no meio de 2024, porém, sua carreira deu um salto que não teve na Europa.
Chegou ao Rio de Janeiro para ser campeão da América e do Brasileirão entre um dos melhores da posição no futebol brasileiro. Em 2025, foi convocado duas vezes por Carlo Ancelotti e é um dos que lutam por um lugar na lateral direita na lista da Copa do Mundo de 2026.
Sonho de atuar na Inglaterra não é o problema, a questão é escolher onde jogar
É natural que chegar na Premier League esteja no radar desses jogadores. Afinal, 12 dos 26 convocados por Tite para a seleção brasileira no último Mundial eram da maior liga do mundo. A questão está em escolher corretamente o destino, não apenas se aventurar porque é o Campeonato Inglês.
Para Arias, fazia sentido trocar o Fluminense pelo Wolverhampton, clube que vinha há temporadas vendendo seus melhores jogadores até chegar nesse status?
E Jair, vindo de grande destaque no Mundial de Clubes e tendo a “grife” de zagueiro brasileiro — talvez uma das posições mais concorridas na Seleção atualmente –, não valeria esperar mais em vez de ir para o Forest? Neste caso, vale lembrar, que o Botafogo de John Textor tem forte ligações com o Forest, mas o jogador tem o direito à escolha.
Qual o sentido para Scarpa, craque do Brasileirão 2022, ir para um time recém-promovido na elite? De quebra, ele teve seu bom momento interrompido pela pouca sequência e não conseguiu retomar essa fase até hoje.
Rayan, por exemplo, aponta ser uma escolha boa do jogador e de seu staff. Ele chega ao Bournemouth após a saída de Semenyo, melhor jogador do time que atuava em sua função, e suas características de força física e velocidade se encaixam na filosofia do técnico Andoni Iraola.
🏴 O Bournemouth só empatou, mas seu estilo de jogo traz o contexto perfeito para o desenvolvimento de Rayanhttps://t.co/93vJ6NVTMV
— Trivela (@trivela) January 19, 2026
Nem a ida ao Big Six é uma certeza, ainda mais se for ao Chelsea, que contrata jovens com objetivo maior de revenda do que ganho esportivo. Deivid Washington está há mais de dois anos nos Blues e até hoje só fez três jogos no time principal, enquanto acumula minutos no time sub-21 — também passou um período emprestado ao Santos.
Andrey Santos, atualmente uma peça importante na rotação do meio-campo do time londrino, chegou quase na mesma época que Deivid, teve início parecido e dava indícios que não teria continuidade. O empréstimo ao Forest terminou com duas partidas apenas. Sua consolidação só veio porque ele precisou sair da Inglaterra para brilhar na França, uma trajetória que deveria servir de exemplo a muitos jogadores brasileiros.
A importância de olhar para outros mercados
O exemplo de Andrey Santos, que se destacou no Strasbourg, não é solitário. Guimarães, Magalhães, Matheus Cunha, Igor Thiago, Joelinton e Alisson têm em comum mais do que estarem entre os principais jogadores da Premier League. Todos eles, quando saíram do Brasil, atuaram primeiro em outro país até chegar na liga mais difícil do mundo.
A menor concorrência do que os elencos super-ricos do futebol inglês em outras ligas, como a alemã de onde vieram Cunha e Joelinton, e a menor intensidade de campeonatos, por exemplo, o francês que Guimarães e Magalhães se destacaram antes, ajudam na adaptação ao futebol europeu e permitem que o salto para Premier League seja mais natural e mais fácil de adaptar.
Ocorre que o mercado de transferências mudou tanto recentemente que aqueles clubes “trampolins” de antes, como Benfica, Porto e Ajax, perderam a força com o poderio financeiro dos ingleses. Ainda, sim, há espaço para se aventurar em clubes menores das outras quatro ligas europeias antes da sonhada transferência à Inglaterra.

Claro que há exceções. Murillo, Gabriel Martinelli e Gabriel Jesus chegaram direto na elite e se consolidaram entre os melhores jogadores — apesar de, os dois últimos, irem direto ao Big Six, o que naturalmente faz mais sentido do que fechar com Forest, Wolverhampton ou clubes parecidos.
Rodrigo Muniz e João Pedro são outros exemplos, mas um tanto diferentes por se aventurem na segunda divisão inglesa antes de serem destaques na Premier League. Quem sabe Gustavo Nunes consiga trilhar caminho próximo ao deles com seu empréstimo ao Swansea.
Nenhum caminho é linear e, muitas vezes, o jogador não tem nível (ou ainda não o atingiu) para estar na PL. A reflexão que parece faltar a alguns dos jogadores é: vale a perna deixar um time competitivo do Brasileirão rumo a um clube que lute contra o rebaixamento ou nem ao menos tenha espaço para suas características?
Arias, Carlos Miguel e Scarpa mostraram que não. Murillo conseguiu furar isso. Jair e Nunes ainda têm tempo. Futebol sempre precisa levar em conta o contexto: o time que está se transferindo, o projeto, se as características se encaixam com a filosofia do clube, se o técnico conta com o jogador. Coisas necessárias a serem avaliadas antes de qualquer negociação.



