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Os 24 anos do dia mais triste da história do futebol inglês

O fim de semana na Inglaterra foi triste. Houve brigas de torcedores depois do clássico “Tyne-Wear” entre Newcastle e Sunderland, pela Premier League, no domingo, quando 27 pessoas foram presas. No sábado, 14 pessoas foram presas após confrontos entre torcedores na semifinal da Copa da Inglaterra entre Millwall e Wigan. Foram presos também torcedores de Chelsea e Manchester City em um confronto no metrô de Londres, também no dia que os dois times se encontraram pela semifinal da Copa da Inglaterra. As punições são graves e o Newcastle disse que irá banir para sempre os torcedores que participaram da briga. Isso significa que esses torcedores não poderão entrar no estádio do seu clube de coração. Nunca mais. Tudo isso no fim de semana e um dia antes do aniversário de um dos mais tristes dias do futebol inglês.

Um dos times mais tradicionais e vitoriosos da Inglaterra. Uma torcida conhecida por sua paixão. Um grupo de hooligans com um histórico de violência. Um clima de terror nos estádios ingleses, chamados de “armadilhas mortais” pelo péssimo estado de conservação. Uma tragédia cinco anos antes, Heysel, que tinha abalado o futebol do país e tinha deixado como herança 39 torcedores da Juventus mortos e outros 600 feridos. Autoridades displicentes e sem dar a devida importância ao futebol. Um estádio pequeno. Um irresponsável que abriu os portões. Era esse o cenário de um dia que o Reino Unido jamais irá esquecer. Uma combinação de fatores que transformariam esse dia em uma data trágica.

O dia 15 de abril de 1989 marcou a história do futebol do país. Foi o dia da tragédia que matou 96 pessoas e deixou 766 feridos. São os 96 torcedores que foram ao estádio de Hillsborough para ver a semifinal da FA Cup, a Copa da Inglaterra, entre o gigante Liverpool e o então ainda forte Nottingham Forest. O jogo em si durou seis minutos. E nunca acabou.

Naquela época, os times disputavam os jogos semifinais em estádios neutros, mas que variavam de lugar. Atualmente, os jogos semifinais e final são jogados em Wembley.  O local reservado para a torcida do Liverpool tinha um acesso lento pelas más condições do estádio de Hillsborough. Comoçou a se formar uma enorme multidão do lado de fora do estádio, no local onde os torcedores entravam. O chefe de polícia David Duckenfield resolveu então abrir o portão para conter o tumulto do lado de fora. Um erro que seria mortal.

O fluxo de pessoas aumentou muito e um túnel de acesso foi usado por torcedores para chegar a outros setores. Este túnel normalmente era fechado quando os setores aos quais ele dá acesso estavam lotados, mas neste dia estavam abertos. O próprio setor do Liverpool ficou superlotado. As pessoas começaram a ser esmagadas contra as grades, à medida que o estádio enchia cada vez mais. O jogo foi interrompido aos seis minutos, quando torcedores já caíam das arquibancadas superlotadas e outros eram esmagados. Algumas pessoas escalaram as grandes para escapar do esmagamento, mas muitas outras não conseguiram. Só 14 dessas 96 pessoas mortas ainda foram levadas aos hospitais para serem atendidas antes de darem o seu suspiro final. A negligência e o atendimento de emergência ruim, além do acesso difícil para que os torcedores saíssem do estádio em segurança e as equipes de emergência entrassem tornaram tudo ainda pior.

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Em depoimentos sobre o acidente, o chefe de polícia David Duckenfield contou que os torcedores arrebentaram o portão de acesso e, por isso, houve superlotação. Uma mentira terrível de alguém que tinha aberto o portão para os torcedores e não queria encarar as consequências. Esse foi apenas o começo de uma série de mentiras que viriam a seguir e jogariam toda a culpa pela tragédia nos torcedores bêbados, os hooligans e sua irresponsabilidade. Uma história contada pelo governo da primeira ministra Margaret Thatcher culpando os torcedores pela tragédia. Algo que nós mostramos que foi muito conveniente para ela. Uma versão que jamais foi comprada pelos torcedores. E que gerou repercussão.

O Painel Independente de Hillsborough conseguiu reverter a condenação dos torcedores no caso no final de 2012 e fez com que o caso fosse reaberto. Foram descobertas diversas mentiras no caso, como os depoimentos de policiais que contaram terem visto torcedores bêbados urinando e até abusando sexualmente de pessoas mortas dentro do estádio – novamente, versão comprada e divulgada pelo jornal The Sun, que era um apoiador de Thatcher.

Não por acaso, diga-se: Rupert Murdoch, magnata de mídia e dono do The Sun, ganhou muito espaço no governo Thatcher. Conseguiu concessões e transformou-se em uma potência no país, o que daria a ele poder para conseguir criar redes de TV por assinatura que, poucos anos depois, compraria por muitos milhões de libras os direitos de transmissão do Campeonato Inglês, dando recursos para uma transformação que se consolidaria com a criação da Premier League, um sistema de distribuição do dinheiro de maneira mais igualitária e a reformulação total dos estádios. Uma reformulação que seguiu muito do que dizia o Relatório Taylor, consequência direta da tragédia de Hillsborough.

O Relatório Taylor talvez seja o documento mais importante do futebol inglês. Foi a partir dele que se elaborou um plano para mudar a cara do futebol inglês, então violento e com estádios pouco seguros. O preço pago pela irresponsabilidade e a omissão das autoridades por anos foram dezenas de mortos. Os 96 mortos em Hillsborough jamais serão esquecidos. Os torcedores e as famílias lembram todos os anos da tragédia que abalou para sempre os envolvidos em futebol. O Liverpool organizou um funeral para que as pessoas lembrem da tragédia e façam homenagens às pessoas mortas.

As prisões e as duas consequências que os torcedores brigões irão encarar tem completa relação com o que aconteceu naquele dia 15 de abril, há 24 anos. A mudança que o futebol inglês passou desde então fez com que esses torcedores, os hooligans, perdessem espaço e passassem a cumprir penas longas nas prisões e, em casos mais leves, prestando serviços comunitários. Que as punições continuem sendo duras para aqueles que usam o futebol como uma desculpa para violência.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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