O que explica ‘ninguém’ querer o Newcastle na janela de transferências
Parte do fundo soberano saudita, clube inglês tem dificuldade em convencer jogadores alvos de times maiores
No mundo, nenhum clube tem um dono mais rico do que o Newcastle, adquirido pelo Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês) da Arábia Saudita, em 2021. Segundo o Instituto Sovereign Wealth Fund (SWFI), o PIF administra US$ 941 bilhões (R$ 5 trilhões) em ativos. Todo esse dinheiro, porém, não tem significado de garantia de reforços badalados para os Magpies.
Até hoje, a maior contratação da história do clube foi Aleksander Isak, reforço de três anos atrás por 70 milhões de euros (à época R$ 357 milhões). A segunda mais cara aconteceu na atual janela de transferências, Anthony Elanga, contratado por 61,4 milhões de euros (R$ 397,9 milhões na cotação atual), sendo a primeira chegada após um mês de tentativas frustradas que expõe a realidade atual da equipe treinada por Eddie Howe.
A dupla João Pedro e Liam Delap preferiu o Chelsea. Hugo Ekitiké escolheu o Liverpool, enquanto Dean Huijsen foi para o Real Madrid. Todos os citados eram alvos do time do nordeste da Inglaterra. Até Bryan Mbeumo preteriu os Magpies, que vão disputar a Champions League na próxima temporada, para fechar com o Manchester United, sem competições europeias em 2025/26.
O segundo reforço do Newcastle para temporada que inicia em agosto é Aaron Ramsdale, goleiro rebaixado três vezes na Premier League, por empréstimo. O inglês só virou uma opção porque James Trafford, agora do Manchester City, preferiu disputar posição com Ederson e Ortega do que atuar no time de Howe.
— Claro, não estamos iludidos. Sabemos que precisamos trazer jogadores, já sabemos disso há bastante tempo. No fim da última temporada, fizemos todo o trabalho que queríamos. Tem sido uma janela de transferências desafiadora, vamos ver o que conseguimos fazer — assumiu o técnico dias atrás.

Por que ‘ninguém’ quer jogar no Newcastle?
Não há só uma razão específica para, até agora, os Magpies terem sido recusados por seis jogadores diferentes. Começando pela história do clube, muito tradicional no país, mas que pode não ser o destino para um atleta que sonha em vencer títulos — mesmo que a Copa da Liga Inglesa conquistada em março, quebrando tabu de 70 anos, pode indicar uma ascensão.
A raridade de taças (o último Campeonato Inglês foi em 1927 e a Copa da Inglaterra 1955) torna a marca do clube muito menor em comparação ao Big Six. Todo o dinheiro saudita não consegue fazê-los serem mais do que a oitava folha salarial da Inglaterra.
O time, ainda que com resultados acima de alguns membros do grupo dos maiores do país (chegou à Champions duas vezes recentemente), fatura muito menos, atingindo 371,8 milhões de euros em 2023/24, o que não é nem metade de United e City e quase 200 milhões a menos que o Chelsea, o pior do sexteto inglês no período.
E mesmo tendo a Liga dos Campeões a disputar, consegue perder jogadores a concorrentes que nem terão calendário europeu também pelo fator regional. Apesar de considerada interessante por sua vida noturna agitada e arquitetura, a cidade de Newcastle ainda é um destino pouco atrativo se comparado a Londres, Manchester ou Liverpool.
Se no passado eles convenceram os jovens Bruno Guimarães, Isak, Gordon, Botman, Livramento e Tonali, pilares do time atual e contratados com menos de 25 anos, agora não conseguem seduzir atletas mais valorizados no mercado e alvo de clubes maiores.

— A velocidade [na janela] é fundamental e já reiterei isso muitas vezes internamente. Temos que ser dinâmicos, temos que estar prontos para concluir as coisas rapidamente, porque bons jogadores não ficam por muito tempo. Esse sempre foi meu pensamento e minha mensagem sobre recrutamento — avisou Howe ao fim da última temporada.
Há ainda um erro de cálculo no planejamento esportivo dos Magpies.
Nesta janela, em que eles tem sido ousados para tentar reforços valorizados, estão sem diretor esportivo pela saída em comum acordo, em maio, de Paul Mitchell após menos de 12 meses no cargo, o que pode estar afetando as negociações. Até o CEO Darren Eales está deixando o clube por motivos de saúde, à espera de anunciarem um substituto.
Tudo isso mostra a grande dificuldade atual na Inglaterra para quebrar a hierarquia dos gigantes ingleses — algo que o Aston Villa também enfrenta, mas com dono bem menos rico. Chelsea e Manchester City conseguiram furar essa bolha no passado graças ao investimento estrangeiro sem regras financeiras para impedi-los. Na vez da Arábia Saudita com o Newcastle, a gestão do futebol inglês endureceu a fiscalização.
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Sauditas foram freados de investirem pesado
Meses após a compra dos Magpies, a Premier League instituiu regras chamadas Transações entre Partes Associadas (APT) para fiscalizar e impedir que empresas que sejam dos mesmos proprietários que os clubes inflem contratos de patrocínios (como a Etihad, dos Emirados Árabes Unidos, no Manchester City). Isso era uma forma de “driblar” o fair play e a Arábia Saudita poderia fazer isso para aumentar a receita do seu novo time.
Ao mesmo tempo dessa mudança, as Regras de Lucro e Sustentabilidade (PSR na sigla em inglês), firmadas em 2015/16, passaram a ser um grande problema recente por impedir prejuízo financeiro de 105 milhões de libras em três temporadas. Nos últimos anos, Everton e Nottingham Forest foram punidos em pontos por infringirem a regra.
Os sauditas do Newcastle, por investir muito logo de cara (Bruno Guimarães, Isak, Gordon e Botman em 2022 e Tonali e Barnes em 2023), precisaram segurar as pontas na janela de transferências de 2024/25 para evitar punições do PSR, não fizeram grandes investimentos e foram praticamente obrigados a venderem os jovens Elliot Anderson e Yankuba Minteh.
— A violação do fair play financeiro foi algo contra o qual lutamos muito no verão europeu para não ficarmos nessa posição – e é por isso que as saídas daqueles que não queríamos que acontecessem tiveram que acontecer — disse Eddie Howe no ano passado sobre as vendas.
Os investimentos do Newcastle em cada janela sob comando do PIF:
- 21/22 (apenas janela de janeiro): 101,1 milhões de euros
- 22/23: 185 milhões de euros
- 23/24: 148,1 milhões de euros
- 24/25: 68,20 milhões de euros
- 25/26: 61,4 milhões de euros

Ao menos agora, clube inglês está com folga no fair play financeiro
Nenhuma contratação bombástica no último ano e as vendas de Anderson e Minteh deram ao Newcastle cerca de 60 milhões de libras de lucro no PSR, evitando uma punição ao clube. Agora, eles podem finalmente investir com mais peso — a chegada de Elanga já faz parte disso.
O site “The Athletic” calculou que os Magpies poderiam ficar “negativos” em 83 milhões de libras (esse valor não quer dizer o que está disponível para gastar em transferências) até o final de junho passado, quando fechou o ano fiscal e o fair play da Inglaterra pegou como recorte as três temporadas anteriores, 22/23, 23/24 e 24/25.
No próximo ciclo (23/24, 24/25 e 25/26), eles terão ainda mais liberdade, já que só o ano de 22/23 representou prejuízo de 71,8 milhões.
— A capacidade financeira de competir nos últimos anos foi prejudicada pelo PSR, mas esses problemas não existirão na próxima janela. Então, não vejo razão para que não possamos nos fortalecer, em vez de nos enfraquecer — previu Howe no fim da última temporada.
Com isso, preenchendo as lacunas no gol e na ponta direita com Ramsdale e Elanga, podem focar na contratação de um zagueiro e um centroavante. O ataque é um problema já que o reserva Callum Wilson saiu em fim de contrato e Isak sinalizou que gostaria de deixar o clube.
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— Trivela (@trivela) July 28, 2025
Liverpool tem acordo com Isak e reunião marcada para quebrar recorde na janela, diz jornalistahttps://t.co/65Z41CAAJ2
O caso do sueco também é marcante e de certa forma negativo. Apesar de não se movimentar tanto na janela, o Newcastle sempre conseguiu superar o assédio por seus craques (além do centroavante, Guimarães, Tonali e outros já foram alvos de outras equipes) por ter muito dinheiro e não se interessar por nenhuma proposta.
Isak, no entanto, não se importa com a postura de seu time e quer sair de qualquer jeito, ficando fora até da pré-temporada. Isso passa uma mensagem aos adversários e até os jogadores do próprio time de que nem os bilionários sauditas conseguem segurar um atleta que esteja insatisfeito.
— Nós, até certo ponto, controlamos o que vem a seguir para Isak. Gostaria de acreditar que todas as possibilidades ainda estão abertas para nós. Meu desejo é que ele fique, mas isso não está totalmente sob meu controle. Não recebemos nenhuma proposta formal pelo Alex, de nenhum clube — disse o técnico recentemente.
Enquanto não se define o futuro do atacante, sonho do Liverpool, Eddie Howe e a diretoria trabalham para trazer Bejamin Sesko, do RB Leipzig, e Yoane Wissa, do Brentford. A ver se, nesses nomes, o clube terá sorte melhor do que nas seis negativas anteriores.



