Inglaterra

Após temporada desastrosa, Liverpool precisa de reflexão sobre mercado e mudanças internas

Reds precisam entender as lições da temporada para não repetir os problemas no próximo ano

O maior investimento em uma janela de transferências terminará sem títulos. O Liverpool, após ter gasto 424 milhões de libras (R$ 2,8 bilhões), conseguiu ter uma temporada negativa, agravada com uma nova eliminação nesta terça-feira (14), dessa vez na Champions League.

Restará ao time de Anfield confirmar uma vaga direta na próxima Liga dos Campeões via Premier League, ocupando, a seis rodadas do fim, a quinta posição, último lugar que garante a vaga europeia, com quatro pontos de vantagem sobre o Chelsea e cinco de Brentford e Everton.

É estranho. As expectativas eram enormes após Arne Slot ser campeão inglês praticamente sem reforços logo na primeira temporada após a saída do ídolo Jürgen Klopp.

Foram sete novos jogadores, alguns deles entre os melhores do mundo em suas posições. O otimismo virou uma trajetória irregular de três eliminações e 17 derrotas em 51 jogos até aqui, que traz reflexões necessárias para que não se repita em 2026/27.

Liverpool, mesmo gastando tanto, viu elenco com poucas opções

Wirtz em partida do Liverpool
Wirtz em partida do Liverpool (Foto: IMAGO / Focus Images)

O mercado do Liverpool foi, no mínimo, impreciso. Com a saída de Darwin Núñez e a trágica morte de Diogo Jota, trouxe dois centroavantes por 200 milhões de libras para disputar pela mesma posição: Alexander Isak (maior reforço da história da Premier League) e Hugo Ekitiké. Ao mesmo tempo, ninguém veio para a lacuna deixada por Luis Díaz.

Florian Wirtz (segunda contratação mais cara da liga), mesmo com a promessa de atuar como meia centralizado, teve que ter momentos na ponta esquerda.

A chegada dos jogadores ofensivos representou quase que a totalidade do dinheiro investido e sobrou pouco para a zaga, que só teve a adição de Giovanni Leoni, jovem zagueiro que teve a má sorte de sofrer com uma grave lesão no joelho logo de cara.

Marc Guéhi, então no Crystal Palace, era o grande sonho. A negociação fracassou — e ele terminou no Manchester City meses depois. Então, os Reds ficaram apenas com Virgil van Dijk e Ibrahima Konaté como opções confiáveis na zaga.

A má fase da dupla, em especial de Konaté, expôs que o elenco não tinha alguém que pudesse fazer sombra ou até mesmo substituir o francês. Ele somou falhas na saída de bola e no jogo aéreo. Até Van Dijk viveu maus momentos.

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Reforços não se firmaram no campeão da Premier League

Jeremie Frimpong foi outra contratação para 2025/26, já com uma ideia contestável: apesar de poder jogar no ataque, chegou para ser o substituto de Trent Alexander-Arnold.

Um ala, típico de velocidade e mano a mano, seria o cara para substituir um lateral-direito que virava um meio-campista com a bola e tinha a capacidade de dar lançamentos como ninguém no time? A temporada provou que não.

Arnold já tinha um reserva: Conor Bradley. O jovem norte-irlandês, no entanto, tem uma carreira marcada por problemas físicos e sofreu duas questões musculares até passar por uma cirurgia no joelho esquerdo após o rompimento do ligamento cruzado.

A lateral direita, com lesões e inconsistências dos jogadores da função, fez Slot optar por improvisações. Foram os casos de Dominik Szoboszlai, o melhor jogador do time na temporada, ou Curtis Jones. Ambos são meio-campistas e faziam um movimento próximo ao de Arnold, só que sem a mesma naturalidade.

A chegada de Milos Kerkez para fazer a transição do ídolo Andrew Robertson — que já anunciou sua saída ao fim desta temporada — também teve momentos de altos e baixos. O húngaro, como quase todos os outros contratados, não manteve o desempenho que fez o Liverpool investir em sua contratação.

A adaptação pesou da mesma forma nos atacantes. Isak, pressionando o Newcastle por uma saída, ficou sem pré-temporada e chegou sem ritmo. O sueco sentiu o impacto disso por toda a temporada.

Wirtz, alternando entre jogar como 10 ou meia pelos lados, sofreu com a intensidade do futebol inglês. Aquele craque de dribles curtos e passes mágicos no Bayer Leverkusen só apareceu em breves momentos em Anfield. Entre os recém-chegados, Ekitiké foi o único que se firmou rápido, com gols e adaptação à liga. Recentemente, porém, seu desempenho caiu.

A direção dos Reds, sob a administração da dupla Michael Edwards e Richard Hughes, responsáveis pelas contratações, parece ter ignorado o contexto de que um time precisa de tempo para integrar novos jogadores a um elenco consolidado.

Eles deveriam ter avaliado se seria possível Wirtz, Ekitiké, Isak e Mohamed Salah atuarem juntos. O que seria do time se desfizesse o meio-campo com Alexis MacAllister, Ryan Gravenberch e Szoboszlai por conta da chegada de Wirtz e como isso impactaria na pressão sem bola do time?

Por outro lado, é verdade que, quando Slot tentou repetir a estrutura da temporada vencedora de 2024/25 — sem Luis Díaz –, a formação já não tinha a mesma magia. E aqui entra outra questão decisiva para o desastre em 25/26.

Ekitiké e Isak ouvem instruções de Slot em jogo do Liverpool
Ekitiké e Isak ouvem instruções de Slot em jogo do Liverpool (Foto: IMAGO / Kessler-Sportfotografie)

Arne Slot deveria ser a primeira mudança com o fim da temporada

O técnico holandês pareceu errar tudo que tentou na atual temporada.

O técnico fez entrevistas infelizes, reclamou do estilo de jogo de adversários, questionou a lealdade da torcida e implementou mudanças de formações ao longo do ano, incluindo uma inédita linha de cinco para tentar frear o campeão europeu PSG — falhando miseravelmente. Tudo isso impactou o desempenho individual dos jogadores.

Além de Konaté, Mac Allister, Van Dijk e muitos outros, até Salah viu seu nível, pela primeira vez desde que chegou a Anfield, cair drasticamente. Ele até antecipará o fim do seu contrato e é mais um ídolo a deixar o clube no meio do ano.

Claro que há a questão pessoal de cada um, seja física ou o impacto mental no grupo pela perda de Jota. Dentro de campo, porém, o time foi pobre taticamente e só teve um grande momento na temporada, a vitória por 4 a 0 sobre o Galatasaray em uma noite europeia típica em Liverpool.

Tudo isso é motivo para a saída de Slot, apesar de o clube ter um histórico de respeito ao trabalho de treinadores, com apenas 21 técnicos em 133 anos de história. O holandês mostrou que aproveitou muito do legado de Klopp em seu primeiro ano e, quando precisou colocar ainda mais seu DNA no time, não teve o mesmo sucesso.

Arne Slot após jogo do Liverpool
Arne Slot após jogo do Liverpool (Foto: IMAGO / Propaganda Photo)

No entanto, é importante destacar que o holandês garantiu sentir o apoio da gestão da Fenway Sports Group, dona do time, após ter perdido a ida das quartas de final da Champions. Segundo o “Telegraph”, a tendência é Slot continuar para a próxima temporada. Seria um movimento questionável sua permanência, ainda mais com um nome como Xabi Alonso no mercado.

O espanhol já se provou nos tempos de Leverkusen, é identificado com os Reds e sua passagem negativa no Real Madrid teve muito a ver com o contexto diferenciado do gigante espanhol. A torcida do Liverpool até gritou seu nome em alguns jogos, enquanto vaiou Slot em alguns dos vários momentos de crise.

O departamento médico, com lesões de longo prazo de Isak, Leoni, Wataru Endo e Bradley e mais leves com Alisson, Mac Allister e Frimpong, deveria também ser alvo de intensa revisão. Os problemas físicos tornaram as coisas ainda mais difíceis na temporada.

Com ajustes, futuro do Liverpool tem tudo para promissor

O Liverpool não será uma terra arrasada para a próxima temporada. Óbvio, o primeiro foco no mercado deve ser um substituto à altura de Salah e algum nome confiável para ser o reserva de Kerkez com a saída de Robertson. Na sequência, opções para o lado esquerdo do ataque e, principalmente, o centro da defesa.

Mesmo desequilibrado, ainda é um elenco estrelado como poucos na Inglaterra. Uma pré-temporada completa para Wirtz, Isak e Frimpong deve deixar o trio nas condições físicas necessárias para uma Premier League cada vez mais pautada em jogo direto e menos associativo — Ekitiké também poderia se aproveitar, mas sofreu uma lesão no tendão de Aquiles e pode ser ausência até o próximo ano.

O entendimento da gestão da FSG sobre as lacunas no elenco, diferente do que ocorreu na última temporada, será decisivo para que os Reds entrem em 26/27 como favoritos aos títulos. A presença na Champions, após tanto dinheiro gasto, é um objetivo decisivo.

Para garantir sua posição no G5, o Liverpool ainda enfrenta Everton, Palace, Manchester United, Chelsea, Aston Villa e Brentford até o fechamento da Premier League.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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