Inglaterra

O Leicester estraçalha em seu início na Championship: são 33 pontos em 36 possíveis

O Leicester soma 11 vitórias em 12 rodadas, com 11 pontos de vantagem na zona de acesso direito, e exibe um futebol vistoso sob as ordens de Enzo Maresca, antigo assistente de Pep Guardiola no Manchester City

Não dá para dizer que o rebaixamento do Leicester City na última Premier League foi totalmente repentino. As Raposas já sinalizavam uma queda de desempenho e pagaram as consequências de erros de planejamento, bem como de uma crise econômica de seus proprietários. Ainda assim, não deixava de ser chocante o descenso de um clube que conquistou a memorável taça em 2015/16, bem como vinha de um título mais recente na Copa da Inglaterra e de presenças seguidas nas copas europeias. Já na Championship 2023/24, era de se esperar que o Leicester brigasse pelo acesso, independentemente das saídas de nomes importantes. O elenco mantinha vários jogadores com nível de primeira divisão. E o que se nota é uma campanha desde já histórica: são 33 pontos em 36 possíveis, no melhor início de um clube pela segundona em duas décadas.

O Leicester galopa nestas 12 primeiras rodadas da Championship. As Raposas conquistaram 11 vitórias, com a única derrota ocorrida diante do Hull City, dentro do Estádio King Power. Os números impressionantes ainda garantiram 26 gols marcados e apenas sete sofridos. É um time ofensivo, com média de quase três tentos por aparição fora de casa. Com isso, sustenta uma vantagem de cinco pontos na primeira colocação e de 11 pontos dentro da zona de acesso direto. Já dá para dizer que apenas um desastre tirará o Leicester da Premier League 2024/25, mesmo que faltem três quartos da campanha.

Desde a criação da segunda divisão inglesa no Século XIX, o Leicester é apenas o sétimo time a conquistar 11 vitórias nas 12 primeiras partidas. Entretanto, somente outros dois conseguiram tal feito nos últimos 100 anos: Bury (1894/95), Preston North End (1903/04), Bristol City (1905/06), Tottenham (1919/20), Newcastle (1992/93) e Fulham (2000/01). Em comum, todos não só faturaram o acesso, como também levaram o título.

O novo treinador

A grande aposta do Leicester neste recomeço acontece no banco de reservas. Enzo Maresca se tornou o novo treinador do clube. As Raposas vinham de uma passagem memorável sob as ordens de Brendan Rodgers, mas que não terminou bem. Dean Smith tentou evitar a derrocada na reta final da temporada passada, sem sucesso. Maresca é uma figura conhecida por seus tempos de jogador, especialmente com as camisas de Sevilla e Juventus. Já como treinador, dá seus primeiros passos. Quase sempre foi assistente: trabalhou no próprio Sevilla, no Ascoli e no West Ham como auxiliar. Isso até buscar um caminho maior no Manchester City.

Maresca treinou a base do City em 2020/21, à frente do time sub-23. Os bons resultados na categoria, com o título da Premier League 2, chamaram atenção de outros cantos e ele teve uma passagem curta pelo Parma em 2021. Já o retorno ao Estádio Etihad ocorreu na temporada passada. Maresca virou o auxiliar de Pep Guardiola e viveu uma experiência incrível, com a Tríplice Coroa. Foi parte integral da comissão técnica que, enfim, levou os Citizens ao topo da Champions. Encheu-se de moral, com boa relação com os jogadores e elogios do treinador. O Leicester então resolveu levá-lo. Se Mikel Arteta e Vincent Kompany eram discípulos bem sucedidos de Pep na Inglaterra, Maresca poderia ser mais um.

O que se nota no Leicester é exatamente um time com nova identidade. As Raposas confiaram não apenas num treinador que pudesse fazer o clube conquistar o acesso, mas que também oferecesse um novo ambiente para melhores ambições quando o retorno à Premier League ocorresse. Embora a Championship seja conhecida pelo futebol mais duro, nos últimos anos vários clubes conquistaram o acesso com um estilo mais solto – e alguns deram saltos maiores na primeira divisão, a partir da estabilidade. Por enquanto, Maresca realiza a primeira parte do processo e é inegável como cumpre as expectativas.

O Leicester é um time que atua com a bola no pé. Possui números altos de posse de bola e de passes. E joga de maneira agressiva. A presença no campo ofensivo é sufocante e a precisão das Raposas nos arremates também é alta. O que se nota é uma equipe tão dominante quanto fatal. Passa longe de toda a verticalidade dos tempos de Claudio Ranieri. Entretanto, alguns golaços construídos nessa campanha até lembram o entrosamento visto no mágico 2015/16.

O novo elenco

Bons jogadores deixaram o Leicester depois do rebaixamento. James Maddison fazia hora extra no clube e foi vendido por €46,3 milhões ao Tottenham, logo se tornando protagonista em Londres. Harvey Barnes ganhou a chance de disputar a Champions League pelo Newcastle, cedido por €44 milhões. Outros destaques em momentos anteriores preferiram não renovar seus contratos, a exemplo de Youri Tielemans, Çaglar Söyüncü, Daniel Amartey, Ayoze Pérez e Jonny Evans. A reconstrução das Raposas veio a partir das chegadas de alguns futebolistas renomados, mas nada tão espantoso para a Championship. O volante Harry Winks e o zagueiro Conor Coady trazem boas bagagens da Premier League. Também vieram atletas da Europa continental, como o ponta Stephy Mavididi e o goleiro Mads Hermansen. Isso sem falar em promessas emprestadas, a exemplo de Cesare Casadei (Chelsea), Callum Doyle (Manchester City) e Issahaku Fatawu (Sporting).

O mais importante para o Leicester, de qualquer maneira, é como o elenco não necessariamente sofreu uma limpa. Vários jogadores da Premier League mantiveram seus compromissos com o clube. Jamie Vardy é uma referência óbvia, com a braçadeira de capitão e único dos campeões em 2015/16 que permanece como titular. O ataque também preservou bons talentos como Kelechi Iheanacho e Patson Daka. No meio-campo, Kiernan Dewsbury-Hall cresceu bastante nos últimos anos e Wilfred Ndidi segue por lá, mesmo com um mercado bem maior que a Championship. Já na defesa, Ricardo Pereira e Jannik Vestergaard são dois nomes grandes para a segundona do Campeonato Inglês.

Como se não bastasse, o Leicester faz nos últimos anos um trabalho excepcional em suas categorias de base. O time de 2015/16 pode ter se consagrado com contratações que deram muito certo, mas vários destaques das temporadas mais recentes foram lançados das equipes inferiores das Raposas. Além de Dewsbury-Hall, outro bom prata da casa que contribui à arrancada na Championship é Kasey McAteer. O ponta de 21 anos já foi emprestado antes a Forest Green Rovers e AFC Wimbledon, mas só agora ganha sequência no time de cima do Leicester. São quatro gols em sete aparições na segunda divisão, ao lado de Vardy e só atrás de Iheanacho na artilharia do time.

A arrancada inicial

A lista de partidas do Leicester neste início de temporada não inclui tantos confrontos diretos com os virtuais favoritos ao acesso. Mesmo assim, a equipe goleou o Southampton por 4 a 1 em St. Mary’s e também anotou 2 a 0 no Norwich City em Carrow Road. Outro resultado importante ocorreu contra o Preston North End no início de outubro, com os 3 a 0 sobre os então concorrentes na terceira colocação. No último final de semana, as Raposas aplicaram 3 a 1 sobre o Swansea na visita a Gales. O único asterisco na temporada, além da derrota para o Hull City, é mesmo a eliminação na Copa da Liga Inglesa, embora a queda diante do Liverpool seja mais do que compreensível.

O Leicester apresenta os melhores números da Championship em basicamente todos os critérios. Tudo bem que o dinheiro de tantos anos na Premier League, reforçado por aparições nas copas continentais, garantem as condições de acesso. Mesmo assim, o aproveitamento das Raposas é fora da curva, com seus 33 pontos em 36 possíveis. Outro rebaixado recente com uma sequência longa na elite, o Southampton tem 20 pontos, na quinta posição. Já o Leeds United soma 22, em terceiro, depois de ganhar novos donos no último verão. A surpresa positiva na vice-liderança e, consequentemente, na zona de acesso, é o Ipswich Town. Os Tractor Boys vieram da terceirona e somam 28 pontos, já seis de vantagem no G-2. Uma queda abrupta, porém, é mais provável do que com o Leicester.

Neste momento, o Leicester pode mirar a história. Durante os últimos 20 anos, desde que passou por sua reformulação, a segunda divisão inglesa teve campanhas ótimas. Os 106 pontos do Reading marcam o recorde do período em 2005/06, mas o Newcastle de 2009/10 e o próprio Leicester de 2013/14 superaram as marcas centenárias. Ao longo da última década, foi normal ver os campeões acima dos 90 pontos: Bournemouth, Burnley, Wolverhampton, Norwich, Leeds e Fulham conseguiram isso, parte deles se sustentando bem na primeira divisão. Já em 2022/23, o Burnley de Vincent Kompany voltou a superar os 100 pontos. O que o Leicester faz, todavia, permite uma projeção de 126 pontos se o aproveitamento for mantido – 20 a mais que o recorde das últimas duas décadas. É improvável que a toada se mantenha desta forma, mas não será surpreendente se as Raposas voltarem à Premier League com o pé na porta. É o que já fazem neste momento.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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