Inglaterra

A mensagem de Klopp é cristalina: o futebol está esgotando os profissionais

Treinador alemão surpreendeu o mundo do futebol ao anunciar que encerrará passagem histórica pelo Liverpool ao fim desta temporada

Causou espanto no mundo do futebol o anúncio do excelente treinador alemão Jurgen Klopp de que deixará o comando técnico do Liverpool ao final da temporada. Infelizmente, para o público em geral e em especial para os torcedores mais fanáticos, profissionais bem-sucedidos do futebol parecem ser pessoas livres de problemas, de dúvidas, de medos e fragilidades. O simples fato de serem muitíssimo bem remunerados não significa que estejam imunes aos problemas e conflitos que afligem aqueles que não contam com a sorte de receber fortunas pelo seu trabalho.

Até mesmo em sociedades desenvolvidas como a europeia há um forte ranço em relação à remuneração dos profissionais de futebol de excelência. No caso da América do Sul e do Brasil, onde resistem opiniões e comportamentos retrógrados em relação à profissão de atleta ou treinador profissional de futebol, vemos situações abomináveis como agressões, ameaças de morte e perseguições.

Klopp não explicou o motivo de sua decisão e, para mim, nem precisa. Suas declarações dão pistas claras do que está acontecendo. Quando ele fala em falta de energia é preciso contextualizar e levar o problema adiante. A falta de energia para um treinador que venceu todos os títulos possíveis em nível de futebol de clubes é acomodação, falta de objetivos maiores, cansaço, esgotamento mental?

Nível de exigência pessoal para técnicos e atletas é absurdo

Algumas declarações feitas pelo treinador alemão no passado ajudam a montar o quebra-cabeças. Klopp faz o tipo sincerão e muitas vezes seu estilo direto e reto pode soar agressivo. Como quando ficou irritado com um apresentador de TV que fez piada com os jogos no horário do almoço e disse que “se ele fazia piada sobre esse assunto era um ignorante”. Mais de uma vez fez críticas ao calendário do futebol e reclamou do pouco tempo de férias que jogadores que atuam por seleções nacionais têm. O treinador do Liverpool também atacou as Datas FIFA, argumentando que os clubes pagam os salários dos jogadores e não deveriam cedê-los tanto para as seleções.

O nível de exigência pessoal para um esportista do mais alto nível no futebol é absurdo. Klopp tem quase dez anos à frente de um dos maiores e mais ricos clubes do mundo. O futebol europeu de primeira linha, como o da Premier League e o da Champions League, é tão bem envelopado e entregue como produto que vende a imagem de imunidade total a problemas extracampo.

Oferecidos ao mercado como exemplos de perfeição em planejamento, execução e liderança, treinadores como Klopp, Guardiola e outras estrelas quase nunca são percebidos como pais, filhos, avós, maridos, como pessoas. O mesmo vale para superatletas de qualquer esporte. Não é raro ouvir aqui no Brasil que atleta com problema de depressão “está com frescura”, por exemplo. A visão geral canhestra é de que quem ganha o salário de grandes atletas não pode reclamar de nada e deve estar pronto a dedicar sua existência a satisfazer as necessidades emocionais dos torcedores e comerciais do negócio esporte.

Posso estar enganado e ser desmentido por informações posteriores, mas minha leitura do anúncio de Klopp passa por essa perspectiva do cansaço pelos excessos e pela roda viva da atividade. Até mesmo os excessos financeiros. Por ter uma imagem do tipo de cara que mora na casa ao lado, o alemão talvez esteja cansado desse meio de vida. Ou simplesmente quer dar um tempo, aceitar outro desafio. Mas seu discurso nos últimos tempos parece ser o de alguém que se incomoda com os rumos que o esporte de sua paixão está tomando.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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