Como a infância do menino de sangue boleiro orientou o talento de Bobby Charlton
Bobby Charlton cresceu entre tios e primos jogadores profissionais, ao mesmo tempo em que frequentava arquibancadas em Newcastle e atraía olheiros de toda a Inglaterra por seu sucesso nas competições estudantis
Bobby Charlton nasceu para ser jogador de futebol. Quem o via, nas arquibancadas de Old Trafford ou de Wembley, corroborava a afirmação. O talento puro, a inteligência nos movimentos e a dedicação incansável transformavam o craque numa referência técnica em qualquer equipe. E a capacidade do inglês dentro de campo seria moldada desde muito cedo. Sua família reunia um clã de futebolistas profissionais, não só o irmão Jack Charlton, mas também tios e primos. A própria mãe, Cissie Milburn, era tão ávida pela bola que se juntava aos filhos nas brincadeiras em seu quintal. Bobby respirava futebol o dia inteiro.
A personalidade de Bobby Charlton, ainda assim, não era de alguém que se via como superior aos demais. Pelo contrário, ele entendeu ainda criança os anseios que um jogador precisava atender, tanto por conviver com eles quanto por acompanhá-los das arquibancadas. Por mais que o ambiente do futebol o deslumbrasse, ele não deixava de ter os pés no chão, para se dedicar ao máximo a fim de atingir seu máximo. Foram os ensinamentos vindos do avô materno que impulsionaram seu caráter como atleta. Um craque de primeira grandeza, mas, acima de tudo, um apaixonado pela bola.
A genética privilegiada também ajudou Bobby Charlton, a ponto de não sofrer qualquer tipo de lesão séria ou crônica ao longo de sua carreira, em tempos bem mais duros do futebol. Talvez essa mesma genética tenha facilitado sua recuperação milagrosa, para reaparecer nos gramados de imediato após sobreviver ao desastre aéreo de Munique quando tinha 20 anos. E essa mentalidade desenvolvida desde cedo, de tratar o esporte com a seriedade devida, o permitiu dar a volta por cima. Para liderar o Manchester United em sua reconstrução, rumo à conquista da Copa dos Campeões uma década depois. Para ser um diferencial na Inglaterra campeã do mundo em 1966.
Já depois de aposentado, Bobby Charlton foi nomeado como presidente honorário do Museu Nacional do Futebol. Uma honraria que aceitou não só porque tinha feito uma carreira sem igual no futebol inglês, mas também porque ele mesmo era frequentador do local e adorava rever os lances dos craques que embalaram sua infância na região de Newcastle. Charlton valorizava o futebol não só pela maneira como tratava a bola com seus pés, mas também pelo carinho que tinha por um mundo que foi seu desde sempre, desde muito antes de se mudar a Manchester como uma das promessas mais cobiçadas do Reino Unido, aos 15 anos.
Abaixo, reconstruímos a infância e parte da juventude de Charlton, em texto baseado na sua autobiografia “My Manchester United Years”, para mostrar como a trajetória grandiosa do craque se explica desde os primeiros anos de sua vida.
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O sangue boleiro

Bobby Charlton possui sua vida fortemente ligada a Manchester, mas nasceu e passou sua infância em outra região da Inglaterra aficionada por futebol. O garoto é natural de Ashington, Northumberland, cidadezinha no nordeste do país. A paixão local é o Newcastle, clube que representa sobretudo uma parcela trabalhadora da população e ligada ao serviço duro nas minas de carvão. A economia de Ashington girou ao redor da mineração durante boa parte do século passado, sobretudo durante a infância de Charlton. Suas memórias dos operários com os rostos sujos pela poeira preta, cantando ao final do expediente, eram bastante vivas. Seu pai era também um mineiro.
Robert Charlton tinha 28 anos quando Bobby veio ao mundo, em outubro de 1937. Era um homem conhecido na região por sua força, que a utilizava não apenas para trazer carvão mineral à superfície. O velho Bob também participava de lutas amadoras de boxe, comuns na época, que costumavam envolver apostas em dinheiro. Existia uma história que dizia inclusive que a aliança de seu casamento foi comprada após uma vitória nos ringues. Seu apelido, Boxer, não poderia ser mais sugestivo.
“A herança de meu pai aos seus filhos foi a energia, a coragem e o senso de responsabilidade a todos ao seu redor, que moldaram cada dia de sua idade até sua morte no começo dos anos 1970. No futebol, meu pai parecia fora de seu território. Ele nunca se sentiu atraído e muitas vezes ficava constrangido pela atenção recebida por meu sucesso e de Jack, mas, se você o pegasse desprevenido, poderia vê-lo com o peito estufado”, recontaria Bobby Charlton, em sua autobiografia. “Às vezes ele dizia aquilo que todo mundo falava, mas não era um conhecimento real, mas sim para demonstrar interesse. Ele não conhecia muito sobre futebol, mas sabia como um homem deveria encarar a vida”.
As minas de carvão não eram o único caminho a Bobby Charlton – como acontecia com a maior parte dos homens em Ashington. O futebol corria pelas veias dos Milburn, sua família pelo lado materno. Quatro tios, todos irmãos de sua mãe, foram jogadores profissionais. George atuava pelo Chesterfield. Jack vestiu a camisa do Leeds United. Jimmy era atleta do Bradford City. Já Stan perambulou por Chesterfield e Leicester. O mais famoso dos Milburn, ainda assim, era um primo de sua mãe: o lendário Jackie, considerado por muitos como o maior ídolo da história do Newcastle – a ponto de ter uma estátua em St. James Park, bem como de nomear um dos setores das arquibancadas.
Treze anos mais velho que Bobby Charlton, Jackie Milburn vestiu a camisa do Newcastle de 1943 a 1957. Era um atacante veloz e prolífico, que raros defensores conseguiam parar. Anotou 177 gols em 353 partidas pelo Campeonato Inglês, além de ter conquistado três vezes a Copa da Inglaterra pelo clube. O centroavante também fez parte da seleção da Inglaterra na Copa de 1950, com a respeitável marca de 10 gols em 13 aparições pelos Three Lions. Até pela idolatria nos Magpies, é ele quem tem uma estátua em Ashington, não o primo de segundo grau que depois seria campeão do mundo com a equipe nacional. Era um norte ao jovem Bobby e dava conselhos não somente sobre o jogo, mas também sobre a mentalidade que o garoto deveria ter em campo. Também o levava para eventos relacionados à carreira profissional.
Há uma outra figura da família Milburn que também era bastante conhecida por seu gosto pelo futebol: a própria mãe de Bobby Charlton. Ainda que o esporte fosse banido às mulheres naquela época, Cissie Milburn não podia ignorar a bola, pela forma como todos em sua casa adoravam o jogo. A mãe também se tornou uma enorme apoiadora do filho em seu amor pelos gramados. Se o marido Robert não gostava tanto assim de jogar, era ela quem ia para o quintal brincar com os filhos. Chegou ao ponto de treinar equipes escolares. “Minha mãe era apaixonada pelo desejo de tornar nossos talentos melhores, por mais que algumas das histórias sobre ela nos treinando sejam exageradas”, contaria Bobby Charlton, em sua autobiografia.
Cissie seria fundamental para guiar os caminhos de Bobby Charlton entre o futebol e os estudos. Irmã de tantos jogadores profissionais, ela sabia como uma lesão poderia arruinar a carreira de seu garoto. Por isso, insistia tanto para que ele se dedicasse aos livros. Porém, também não queria que, de alguma maneira, a escola colocasse impeditivos diante de seu talento natural. Quando menino, Bobby ganhou vaga num bom colégio local, mas que era voltado à prática do rúgbi. Cissie intercedeu junto à instituição para que seu filho seguisse ligado ao futebol e, assim, ele conseguiu vaga em outra escola que privilegiava a bola redonda: Bedlington, onde virou desde cedo uma lenda dos torneios estudantis.
Ainda assim, a grande influência familiar era o patriarca, Tanner Milburn, avô materno de Bobby Charlton. O veterano chegou a tentar a sorte nos gramados, mas não foi além das divisões de acesso com o AFC Ashington. Era considerado um homem severo e não muito popular na cidade, que treinava atletas profissionais em provas de velocidade. No entanto, como avô, era um homem doce e inspirador a Bobby. “Ele parecia estar sempre ao meu lado, me encorajando e apontando coisas que eu deveria saber se quisesse ir além da mera promessa”, rememorou Charlton, em sua autobiografia. “Seu papel como um tutor na minha vida, um protetor, foi estabelecido muito cedo”.
Bobby Charlton, afinal, viveu numa Grã-Bretanha que era bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. A região de Newcastle era visada pelos nazistas por causa de sua importância estratégica, com as minas de carvão e a indústria local. Quando as sirenes tocavam, Bobby e sua família iam se refugiar na casa do avô materno, descendo a rua. Por sorte, os danos a Ashington foram bastante limitados, com uma bomba que caiu numa pista de patinação no gelo. Ainda assim, o menino via na imagem de Tanner um porto seguro. E que seria também um incentivador em sua carreira esportiva.
Tanner Milburn levava Bobby Charlton aos treinos de atletismo. Um dos pupilos do treinador era seu próprio filho, Stan, tio da futura lenda do futebol. Charlton costumava participar de algumas brincadeiras e apostava com o tio, ganhando uma colher de chá. Com quatro filhos e um sobrinho futebolistas, é claro que Tanner também conhecia do riscado. O avô acompanhava as partidas de Bobby Charlton nos tempos em que o menino começava a desenvolver seu talento na escola. Depois dos jogos, dava conselhos ao guri para que aprimorasse suas virtudes. O próprio craque dizia que tal cuidado de seu avô motivou seu comprometimento a buscar sempre o máximo dentro de campo. Fez o garoto confiar que, de fato, ele tinha qualidade para chegar onde quisesse, embora precisasse trabalhar duro para isso.
À medida que ficou com a saúde debilitada, Tanner deixou de acompanhar Bobby Charlton em suas partidas. Porém, o garoto tinha outro ritual ao lado do avô acamado, que girava ao redor do futebol. Aos finais de semana, Charlton ia até o quarto do idoso para levar o caderno de esportes do Newcastle Evening Chronicle. Relatava os resultados e lia o noticiário, em especial para reconstruir os feitos do parente Jackie Milburn. O Newcastle fortalecia o elo entre avô e neto. Por mais que Tanner perdesse a visão em razão de suas doenças, Bobby adorava absorver seu conhecimento sobre futebol. Aquele costume ainda criou uma ideia alternativa ao garoto sobre seu futuro: se não desse certo como jogador, poderia viver como cronista esportivo e ainda assim não se apartar daquele ambiente.
“Tanner plantou em mim as sementes da minha ambição com tanta dedicação que um dos meus arrependimentos, quando comecei a ter sucesso no futebol, foi nunca ter conseguido levá-lo a um grande jogo, ter uma boa atuação e depois dizer: ‘Obrigado por tudo o que você me ensinou, hoje joguei para você'”, escreveu Charlton, em sua autobiografia. “Algumas de suas últimas palavras para mim, que eu nunca me esquecerei, foram sobre nunca se deixar abalar quando não estivesse preparado para dar um passo a mais, também para me esforçar e ser tão bom quanto o dom que recebi”.
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Os irmãos de arquibancada

O grande parceiro de Bobby Charlton dentro de campo, ainda assim, era o seu irmão mais velho. Jack Charlton nasceu dois anos antes e costumava acompanhar Bobby nos campinhos de Ashington. Até pelas condições financeiras limitadas da família, que dependia da renda do pai nas minas de carvão, os irmãos precisavam dividir tudo – incluindo ainda os dois mais novos, Gordon e Tommy, que não fizeram carreira nos gramados. O talento se concentrou mesmo em Jack e Bobby, ainda que de maneiras distintas. Enquanto o segundo filho dos Charlton era um meia-atacante cerebral, o primogênito era um zagueiro duro, que puxou bem mais o lado boxeador do pai.
Aos domingos, a diversão favorita dos irmãos Jack e Bobby era ir aos campinhos nas cercanias do Parque Hirst. Costumavam jogar por seis, até sete horas consecutivas, até voltarem para casa. Os irmãos puxaram também a genética privilegiada da família e resistiam bem durante as longas jornadas, mesmo que seus tipos físicos fossem bastante diferentes. Só deixavam as peladas quando estavam mesmo exaustos ou quando algum policial chegava para cortar o barato.
Nem tudo era amizade entre os irmãos Charlton, vale dizer. Embora companheiros na seleção da Inglaterra até em título mundial, Jack e Bobby fariam carreiras bem diferentes por clubes. O beque virou lenda num Leeds United reconhecido pelo jogo viril. O meia é uma santidade num Manchester United artístico que abriu fronteiras aos clubes ingleses. E os astros também tiveram seus entreveros, alguns que se tornaram públicos, como uma briga que os deixou por anos sem se falarem. Isso também se vivia desde antes na casa em Ashington, durante os anos 1940 e 1950. Jack gostava de se embrenhar no mato e não curtia muito a ideia de ter que cuidar de Bobby, bem mais caseiro. Certa feita, quando Bobby foi assistir a um jogo de Jack no futebol amador e o viu cometer um erro, disse que o primogênito tinha sido “estúpido”. Péssima ideia: tomou um safanão inesquecível.
O futebol, de qualquer forma, era motivo suficiente para colocar Jack e Bobby tantas vezes na mesma página. Juntos também se aventuravam por arquibancadas no nordeste da Inglaterra. “Existia pelo menos um assunto no qual Jack e eu sempre fomos unidos: a importância de conseguir dinheiro suficiente para ir a Newcastle e Sunderland a fim de ver os craques do futebol. Estava no nosso sangue trabalhar por algo, e também jogar futebol, então nada fazia mais sentido que trocar um pouco de esforço pela chance de ver os melhores do esporte que nós amávamos”, recontava Bobby. O mais comum aos garotos eram os bicos como entregadores numa vendinha da cidade.
Embora fosse mais ligado ao Newcastle, a camisa laranja do Blackpool alimentou os sonhos de Bobby Charlton. Impressionou-se desde cedo com os dribles mágicos de Sir Stanley Matthews pelos flancos de St. James’ Park ou de Roker Park: “Ele tirou meu fôlego, criou uma aura que eu sabia, instantaneamente, que nunca morreria enquanto eu pensasse sobre futebol”. Bobby gostava de pegar lugares próximos à bandeirinha de escanteio só para vê-lo mais de perto. E a lista de lendas observadas pelos irmãos Charlton era ampla, dos goleiros Bert Trautmann e Bert Williams aos goleadores Tommy Lawton e Nat Lofthouse. Já do ponto de vista coletivo, quem agradava era um Tottenham na época estrelado por Alf Ramsey – que em alguns anos se tornaria conhecido dos irmãos, como técnico de ambos na seleção campeã do mundo. Obviamente, os garotos também veneravam Jackie Milburn, o primo que também era ídolo.
“Nestas primeiras visitas a St. James’ e Roker, Jack e eu fizemos um curso de graduação no nosso futuro trabalho. Foi em vários níveis. Pudemos entender mais facilmente o que o futebol significava para as pessoas – e o que certos jogadores poderiam contribuir, de acordo com seus talentos e a vontade de se esforçar. Pudemos ver a diferença entre os bons e os craques. Acima de tudo, vimos quem se importava e quem não se importava”, rememorou Bobby. “Por causa da nossa situação econômica, podíamos ir a Newcastle ou Sunderland de três a quatro vezes por ano – mas cada vez era um banquete, algo que você poderia guardar para os dias mais vazios”. Outra alternativa eram os cinemas, com os melhores momentos dos jogos oferecidos pelo British Pathé. Foi assim que os irmãos viram a estreia de Jackie Milburn pela seleção, em 1948, contra a Irlanda do Norte em Belfast.
Pelas conexões familiares, os Charlton sabiam desde cedo que o futebol poderia ser um caminho além das minas de carvão. Jack ainda tentou seguir os passos do pai. O zagueiro recebeu um convite para se testar no Leeds United, time de um de seus tios, mas desistiu para trabalhar como mineiro. A experiência não durou muito, sem que o garoto se acostumasse à labuta árdua. Ele então tentou ser policial. No entanto, também resolveu se abrir ao Leeds e, no dia em que teria uma entrevista na polícia, optou por ir a uma peneira dos Whites. Passou e encontrou seu futuro, como recordista em partidas pelo clube de Elland Road.
Bobby, por sua vez, sequer cogitou trabalhar nas minas de carvão. Via como o pai precisava dar muito duro para oferecer condições mínimas à família. Ainda que sentisse orgulho de Robert, também via outras possibilidades a partir dos tios maternos. O próprio pai incentivou que Bobby, ainda menino, frequentasse algumas atividades do tio George no Chesterfield. O garoto via de perto o ambiente competitivo do futebol e se apaixonava por isso, bem diferente da estafa presente no cotidiano dos mineiros. “Minhas visitas anuais ao Chesterfield eram um tipo de curso pré-universitário sobre o jogo que me fascinava. Elas também me ofereciam um sinal sobre outra vida em que o futebol não era um escape de fim de semana, mas sempre parecia um presente inacreditável, o centro de sua existência”, rememorou Bobby.
Durante os verões, Bobby Charlton também costumava encher os tios maternos de perguntas sobre a temporada e o cenário do futebol inglês. O garoto era ávido por aprender, e não necessariamente como se tirasse isso de lição para o futuro. Ele amava o jogo acima de tudo. Outro tio fundamental ao seu desenvolvimento foi Tommy, irmão de seu pai. Embora a influência boleira fosse menor daquele lado da família, foi através de Tommy que Bobby ganhou seu primeiro par de chuteiras. “Ele me levou à loja para comprar, e eu nunca me esquecerei de calçar as chuteiras e pensar que era o melhor dia da minha vida”, rememorou.
Curiosamente, o sucesso dos dois irmãos Charlton mais velhos dificultou a eclosão dos dois mais novos. Gordon, sete anos mais novo que Bobby, passou um período nas categorias de base do Leeds United com Jack e não vingou. Já o caçula Tommy, dez anos mais jovem que Bobby, sequer tentou a sorte. Fez sua vida trabalhando com resgate nas minas de carvão, o que pelo menos o levava a aproveitar a genética da família de esportistas. Disputava semanalmente dois jogos de futebol para manter a forma. E era bom, a ponto de impressionar Bobby. “Tommy era fantástico, um jogador naturalmente refinado. Ele fazia tudo com facilidade: passar, controlar o jogo, ler a defesa e o ataque. Ele tinha um grande equilíbrio, uma força natural e batia na bola confortavelmente. Perguntei para ele por que nunca tentou ser jogador. Ele me disse: ‘Bem, Bobby, você sabe, tentar seguir você e Jack teria sido um pouco demais'”, escreveu Charlton. Aos 71 anos, Tommy ao menos chegaria à seleção inglesa de walking football, uma modalidade adaptada à terceira idade.
O compromisso inabalável com o United

Por mais que o futebol nos campinhos de Ashington tomasse os domingos de Jack e Bobby Charlton, a dedicação ao esporte se tornou mesmo uma coisa séria na escola. O irmão mais talentoso era um craque nas competições estudantis do nordeste da Inglaterra. O professor de Bedlington, onde ele estudava, chegava a pedir para Bobby se segurar dentro das quatro linhas, à medida em que seu time goleava os oponentes. Porém, foi depois de uma vitória apertada contra os duros rivais de St. Aloysius que o futuro astro percebeu como poderia fazer a diferença. Foi um marco em suas lembranças, carregado nos ombros pelos amigos após anotar o gol decisivo para um triunfo de virada.
“Eles tinham alguns garotos grandes e fortes, que sabiam jogar. Vieram duro contra a gente e estavam vencendo por alguns gols quando eu percebi, talvez de forma mais clara do que antes, que eu poderia realmente influenciar o jogo, moldá-lo de acordo com minha vontade. Quanto mais os jogadores de St. Aloysius prestavam atenção em mim, mais eu crescia sob pressão. Eu senti que melhorava a cada chute. Quando marquei de voleio o gol da vitória foi o clímax perfeito”, relembrava Bobby Charlton. “Cada jogo era um desafio para mim, eu desesperadamente queria ganhar cada vez que jogava, e seria falsa modéstia dizer que eu não tinha percebido muito cedo na minha vida que o futebol era mais fácil para mim do que para a maioria dos meus amigos. Quando dois garotos mais velhos montavam os times no Parque Hirst, quase sempre eu era o primeiro a ser escolhido. Era algo natural, eu esperava por isso, mas o que aconteceu em St. Aloysius parecia pertencer a outra categoria. Foi uma sensação maravilhosa do alvorecer do poder da minha habilidade”.
A escalada de Bobby Charlton aconteceu bastante rápido. Olheiros de toda a Inglaterra vinham observá-lo em Ashington. O prodígio chegou à equipe escolar de East Northumberland, sua região. Depois, ao time de juniores de Northumberland. Isso até compor a seleção nacional estudantil, com a qual atuou até em Wembley. Os rumos estavam abertos para se tornar profissional em pouco tempo e honrar a vocação de sua família materna – mesmo que isso não significasse abandonar os estudos. Por insistência da mãe Cissie, Bobby ainda se formou como técnico em engenharia elétrica.
Não era apenas a chance de se tornar jogador profissional que empolgava Bobby Charlton em seus tempos de estudante. Eram também as viagens constantes, que o permitiram conhecer o país desde muito cedo. Com a seleção inglesa escolar, o prodígio viajava para Londres, Cardiff, Leicester, Manchester. E o seu futuro logo ficaria comprometido com uma outra cidade, mais distante de Ashington do que Newcastle ou Sunderland. O Manchester United se transformou no destino de Bobby em fevereiro de 1953, quando o novato tinha apenas 15 anos e quatro meses.
Joe Armstrong era o célebre chefe dos olheiros do Manchester United, um homem de confiança de Matt Busby que passou a recrutar alguns dos melhores talentos da Grã-Bretanha. Ele viajou ao nordeste do país e assistiu a uma partida do time escolar de East Northumberland. Num campo congelado, Bobby Charlton arrebentou. Armstrong sequer quis esperar a avaliação de Busby sobre seu relatório: foi direto falar com Bobby depois da partida. Ofereceu uma vaga nas categorias de base do United assim que o adolescente terminasse seus estudos naquele ano. Depois, estudaria num colégio de Manchester. Ele aceitou. Os Red Devils vinham numa fase imponente, com o título da Copa da Inglaterra em 1947/48 e do Campeonato Inglês em 1951/52, além de quatro vices na liga desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Mais importante, Bobby Charlton manteve sua palavra. O Chesterfield, que o menino costumava visitar no verão para assistir ao tio, também fez uma proposta. Ele preferiu recusar, diante do vínculo estabelecido com o Manchester United. E depois que anotou dois gols contra Gales em Wembley, pela seleção inglesa estudantil, nada menos que 18 clubes diferentes do país fizeram propostas ao projeto de craque. Chegou ao ponto de um olheiro conversar com o pai Robert na sala e de outro falar com a mãe Cissie na cozinha. Algumas ofertas foram bem tentadoras, como as de Wolverhampton e Arsenal. E, sim, o próprio Manchester City tentou atravessar o rival United na jogada.
Tudo aconteceu em Maine Road, estádio do City, onde Bobby Charlton atuou pela seleção estudantil da Inglaterra em certa feita. Quando o jovem craque descia para os vestiários, foi abordado por um astro celeste, também um de seus jogadores favoritos na época: ninguém menos que Don Revie, que anos depois se tornaria um treinador célebre tendo o irmão Jack Charlton exatamente como um de seus pilares no Leeds United. Naquele momento, o então atacante dos Citizens fez o papel de agenciador.
“Fiquei tremendamente lisonjeado porque Revie era um dos meus heróis. Eu o assistia jogar e era fascinado pela maneira como ele trabalhava com o goleiro, Bert Trautmann. Revie sempre ficava livre para receber a bola do goleiro e Trautmann sempre o procurava. Revie tinha uma habilidade tremenda e você podia ver sua inteligência para o futebol em tudo o que fazia. Ele me perguntou: ‘Você gostaria de jogar conosco? Sei que talvez você esteja prometido ao Manchester United, mas você viu nosso grande estádio e temos grandes planos para o futuro. Você pode ser uma grande parte disso'”, recontou Charlton. Apesar da tentação, ele declinou.
Por fim, o Newcastle também tentou a sorte com seu jovem torcedor. Mandou Jackie Milburn à casa dos primos, para tentar fazer o sangue da família ferver outra vez com a camisa alvinegra. Entretanto, Wor Jackie não agiu como um ídolo dos Magpies e sim como um conselheiro, tal qual fazia o seu tio Tanner Milburn. O craque da seleção confessou que não tinha muita convicção, porque o Newcastle não oferecia os cuidados devidos às categorias de base e um plano de desenvolvimento. A carta na manga dos Magpies era garantir também um emprego paralelo no Newcastle Evening Chronicle, o que voltava a alimentar a ideia de Charlton em se tornar jornalista esportivo. Entretanto, do ponto de vista de carreira, deixar o nordeste da Inglaterra era a escolha acertada. O Manchester United era mesmo seu clube.
Joe Armstrong foi excepcional não apenas para convencer Bobby Charlton, mas também para nutrir os cuidados pelo garoto. O olheiro do Manchester United fazia visitas regulares à família, especialmente quando o assédio de outros times aumentou. Além disso, os argumentos também se notavam em campo. Old Trafford era um dos melhores estádios da Inglaterra. Os Red Devils tinham acabado de ser campeões nacionais, e com um time no qual alguns dos melhores jovens do país começavam a eclodir. Antes disso, o título da FA Cup em 1948 já tinha mexido com Bobby. Os mancunianos foram capazes de derrotar o Blackpool de seu ídolo Stanley Matthews, afinal. Matt Busby ponha seu time para praticar um futebol vistoso, algo simbólico em meio à reconstrução da Inglaterra após a grande guerra.
O Manchester United exerceu um deslumbramento ainda maior quando, depois de uma partida com a seleção estudantil em março de 1953, Bobby Charlton viu a multidão empolgada a caminho de Old Trafford para uma partida do clube. Era um dia especial, com a estreia de Tommy Taylor, seu futuro companheiro e uma das vítimas do desastre em Munique. Naquele momento, o jovem de 21 anos se tornava o primeiro jogador do futebol inglês a custar £30 mil libras – ou, especificamente, £29.999, preço colocado por Matt Busby para evitar a pressão. “Queria pular do ônibus e me juntar àquela empolgação. Entretanto, percebi que eu tinha algum tempo para saborear a perspectiva. Tudo o que eu precisava era um pouco de paciência, porque eu seria parte dessa cena a partir do verão”, relembrou.
Por acompanhar muito futebol, Bobby Charlton sabia que Matt Busby não tinha receios de lançar jovens na equipe principal do Manchester United. Essa noção se reforçou especialmente depois que deu sua palavra aos Red Devils, enquanto os Busby Babes ampliavam sua fama. Bobby seria mais um dos pupilos do treinador. Um nome em especial chamava atenção entre os destaques dos jornais: Duncan Edwards, somente um ano e dez dias mais velho que Charlton, mas já um fenômeno entre os profissionais. Era mais uma inspiração, enquanto o craque da seleção estudantil se perguntava se poderia alcançar aquele mesmo nível.
Quando chegou o verão, Bobby Charlton pegou o trem rumo a Manchester, para não mais voltar a Ashington. “Eu estava deixando meus irmãos e meus tios, meus amigos e tudo o que me era familiar, incluindo uma namorada em Bedlington. Era uma boa garota, mas eu não era uma vítima de amor juvenil. Éramos bons amigos, mas eu era um homem do futebol e precisava seguir no meu negócio. Naquele período da minha juventude, nenhuma garota poderia competir com o futebol. Era meu grande amor e minha obsessão”, escreveu Charlton. E, assim, o United começou a ganhar uma lenda.



