Argentina

Como a infância do menino-craque de Villa Fiorito moldou o talento e a personalidade do gênio Maradona

Há um par de imagens famosas, em preto e branco, que mostram o menino Diego Maradona fazendo embaixadinhas num campo maltratado e falando sobre seus sonhos. “Meu primeiro sonho é jogar uma Copa e o segundo é sair campeão”, contava. A edição foi um bocado sensacionalista com o garoto, cortando o trecho em que ele complementava dizendo que desejava ser campeão com a ‘oitava’, a equipe sub-15 do Argentinos Juniors. Em compensação, tão pequeno, Diego também ganhou ares premonitórios. E aquele quadro, exibido num popular programa de TV argentino durante o início dos anos 1970, serviu para apresentar um fenômeno a todo o país. Um menino humilde e habilidoso. Um menino que, de fato, tinha personalidade para levar não só ele, mas toda a Argentina, ao topo do mundo.

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Diego nasceu na Policlínica Evita, um hospital de Lanús, filho de Dona Tota e Don Diego. A família vivia em Villa Fiorito, uma comunidade pobre no sul da Grande Buenos Aires. Por lá moravam muitos imigrantes, sobretudo de origem italiana e espanhola. A própria família Maradona fazia parte deste contingente, saída da província de Corrientes, com ascendência galega e croata. Foi num casebre humilde que o menino gênio cresceu, quinto de oito filhos, o primeiro homem entre eles.

O pouco que os Maradona tinham era garantido por Don Diego, um homem que acordava às quatro da manhã para a labuta e trabalhava numa fábrica que moía ossos. Comida não chegou a faltar para os filhos, embora não houvesse tanta fartura e Dona Tota muitas vezes deixasse de se alimentar para garantir a barriga cheia dos pequenos. Todos estudavam. A casa da família, de três cômodos, nunca teve água encanada. Apegado especialmente à mãe, Diego tinha a bola como sua grande amiga, presente que ganhou pela primeira vez aos dois anos.

“Jogar bola me dava uma paz única. E essa sensação é a mesma que sempre tive, até hoje: me dê uma bola e me divirto e protesto e quero ganhar e quero jogar bem. Me dê uma bola e deixe fazer o que sei, em qualquer parte”, diria o craque, em sua autobiografia ‘Yo soy Diego’. “Eu me bancava na escola porque tinha que bancar, para não decepcionar meus pais, que me compravam o uniforme e me levavam. Eu suspeitava que lá ia ter a oportunidade de poder ir a um clube ou jogar bola. Tudo o que eu fazia, cada passo que dava, tinha a ver com isso, com a bola. Se Tota me mandava buscar algo, eu levava qualquer coisa que se parecesse com uma bola para ir jogando com o pé: podia ser uma laranja, bolinhas de papel ou trapos. Assim subia as escadas da ponte, pulando em uma perna e chutando o que fosse com a canhota. Assim ia até o colégio. As pessoas cruzavam comigo e me olhavam, não entendiam nada. Os que me conheciam já não se surpreendiam”.

Ouça o podcast da Trivela em homenagem a Maradona

O primeiro palco de Maradona se chamava ‘Las Sete Canchitas’. No meio da Villa Fiorito havia uma série de campinhos de terra, como em tantas favelas. Era naqueles ‘potreros’ que o menino Diego se deslumbrava e deslumbrava muitos outros com sua habilidade ímpar. Ganhava a permissão de Dona Tota e ficava por lá com os amigos jogando até o anoitecer. Além disso, o pai Don Diego tinha uma equipe de garotos, o Estrella Roja, que costumava participar dos campeonatinhos de Fiorito. O pequeno camisa 10, obviamente, era a estrela da companhia. Personalidade forte, não se escondia do desafio.

“Graças a meu velho, nunca me faltou de comer. Por isso tinha boas pernas, ainda que fosse magrinho. Em outras casas por lá os meninos não comiam todos os dias e então se cansavam antes que eu. Isso me fazia um pouco diferente aos demais. Nunca pensei, nunca, que havia nascido para jogar futebol, que ia me passar tudo o que me passou depois. […] Meu sonho era o mesmo de todos os meninos. O que senti foi que com a bola eu era diferente dos demais, que em qualquer pelada eu resolvia, ganhava sempre”, afirma Diego, em sua autobiografia.

Os melhores duelos do Estrella Roja aconteciam contra o Tres Banderas, time no qual brilhava o pequeno Goyo Carrizo, também treinado por seu pai. Os jogos valiam dinheiro e carregavam uma pesada pressão, com gente até armada exigindo a vitória. Era nesse clima que Maradona começava a corresponder, logo fazendo a festa de seus vizinhos. Nove dias mais velho, Carrizo frequentava a mesma escola de Diego em Lomas de Zamora e virou um de seus melhores amigos. Por tabela, mudou sua história.

Quando tinha oito anos, Goyo Carrizo se juntou às equipes de base do Argentinos Juniors. O garoto impressionava Francisco Cornejo, bancário e treinador das canteras coloradas. Ainda assim, deu um conselho ao novo professor: avisou que em Villa Fiorito havia outro menino ainda melhor que ele, mas que não poderia se testar porque não tinha dinheiro para a condução. Cornejo deu o dinheiro para que Goyo trouxesse seu amigo e assim aconteceu, depois que Don Diego e Dona Tota concederam a permissão. Após uma longa viagem de ônibus, Dieguito apareceu para se provar.

Por conta de uma chuva pesada, o teste quase não ocorreu, já que o campo de Las Malvinas (o lugar de nome tão sugestivo onde o Argentinos Juniors treinava) estava sem condições de jogo. Então, Francis Cornejo botou os meninos na caçamba da caminhonete de um dos pais que acompanhavam o treino e os levou ao Parque Saavedra, onde o tal rapazinho poderia ser observado. Foi onde a mágica aconteceu.

Maradona precisou de um gesto para impressionar Francis Cornejo. Apenas um. Em sua primeira jogada, canhota aparou a bola no ar e logo emendou um chapéu no adversário. Sem deixar a bola cair, Diego acelerou e mandou ao gol. A aprovação, obviamente, seria instantânea. “No primeiro treino que fizemos, estive bastante bem. Fiz um par de gols, me diverti…”, contou Maradona, aos risos, durante depoimento ao documentário D10s.

O próprio Cornejo escreveu um livro sobre aqueles tempos, chamado ‘Cebollita Maradona’. Assim descrevia o momento em que viu a luz, em tradução de Douglas Ceconello no Impedimento: “Dizem que pelo menos uma vez na vida todos os homens assistem a um milagre, mas a maioria não se dá conta disso. Eu, sim. O meu aconteceu numa tarde de um sábado de março de 1969 sobre a grama molhada do Parque Saavedra quando um garoto baixinho, que me disse que tinha oito anos — e eu não botei fé — fez maravilhas com a bola. Coisas que eu nunca vi ninguém fazer. Tem uma que nunca vou esquecer porque fecho os olhos e continuo vendo como se fosse ontem. Ontem, eu disse? Não, ontem, não. É como se estivesse vendo agora mesmo. Quando a bola chega a um jogador vindo alta no ar, o que ele faz é baixá-la com o pé e depois a deixa cair no chão, então ele chuta ou toca. Isso é o que todos fazem. Mas aquele menino, não, aquele menino fez outra coisa; dominou-a com a canhota no ar e, sem a deixar tocar no chão e com o pé ainda no ar, voltou a pegá-la para dar um chapeuzinho num adversário e disparar rumo à meta contrária”.

“A jogada prosseguiu, mas eu continuei olhando para ele. ‘É um anão’, pensei. Não podia ter oito anos, com certeza. Foi uma bobagem pensar isso. A idade não tinha nada a ver com o que esse menino havia feito. Se era mais velho ou mais novo, não tinha importância: essa jogada não tinha idade. Um jogador normal, mesmo um muito habilidoso, pode passar a vida sem fazer algo assim, mesmo que a ensaie uma, duas, mil ou um milhão de vezes. Para fazer uma jogada dessas – e ele fez, como se fosse a coisa mais normal do mundo -, aquele menino tinha que ser diferente, muito diferente dos demais, e eu me dei conta disso. Ali mesmo me dei conta. Por isso posso dizer, sem ficar vermelho e sem medo de que me acusem de exagerado, que eu descobri Diego Armando Maradona, um milagre do futebol. E também meu milagre particular”, complementava o treinador.

Ainda desconfiado da idade do menino, Cornejo chegou a visitar a casa da família Maradona em Villa Fiorito. Foi quando Dona Tota mostrou a certidão de nascimento, apontando 30 de outubro de 1960. Convencido, o representante do Argentinos Juniors contou as boas novas aos pais de Dieguito e convidou o menino para seguir treinando. Francis daria condução, chuteiras, comida e o que mais precisasse para que o prodígio não deixasse sua equipe. Assim, ganhava o reforço estratosférico de ‘Pelusa’ – o apelido de infância de Dios.

Naquela época, os clubes argentinos não podiam manter em suas categorias de base garotos abaixo dos 14 anos. Desta forma, acabavam sendo responsáveis por equipes paralelas, que depois se integrariam às canteras assim que os meninos completassem a idade mínima. Francisco Cornejo era o responsável pelos nascidos em 1960 e 1961. Batizou-os de ‘Cebollitas’, uma referência à baixa estatura daqueles guris. Maradona logo começou a ganhar fama e a transformar o Cebollitas em sensação do futebol amador. Dava seu show particular, mas não se cansava de consagrar os companheiros, todos seus amigos.

Muita gente queria assistir ao tal ‘novo craque’ que surgia no Parque Sarmiento. Os jogos do Cebollitas começaram a ter público, especialmente alguns aposentados, que transmitiam no boca a boca como havia um menino fora de série vestindo a camisa 10. Diego jogava para ganhar sanduíches e refrigerantes de Cornejo por seus gols. Certa vez, um senhor italiano resolveu fazer mais: entregou uma bicicleta a Maradona. Queria retribuir ao garoto pela alegria que havia proporcionado por aqueles lances mágicos. Pelusa recusou.

Maradona começou a atrair mais e mais gente. As pessoas em La Paternal, o bairro do Argentinos Juniors, se reuniam para ver o Cebollitas jogar e faziam festa àqueles meninos. A própria imprensa começou a se interessar pela história do camisa 10 tão pequeno quanto genial e passou a acompanhá-lo. Um tal de ‘Caradona’, “com porte e classe de craque”, seria elogiado em nota do jornal Clarín às vésperas de completar 11 anos. A revista El Gráfico faria uma matéria para detalhar as aventuras do Cebollitas, demolindo os adversários e apresentando um futebol de sonho nos potreros da capital. Diego, enquanto comia uma maçã, fazia embaixadinhas com a outra e conversava com os jornalistas maravilhados.

Desde seus primórdios, a própria El Gráfico defendia um ideal de futebol argentino, ‘criollo’, que se diferenciasse do europeu. À publicação, a autenticidade do estilo de jogo na Argentina passava pelo potrero, onde se concentrava o talento na crescente realidade urbana do país. Era por lá que se encontravam os meninos pobres, os pibes, que desenvolviam a habilidade com bolas de trapo. À medida que cresciam, se tornavam símbolos de sua comunidade, sem perder a sua humildade e sua impulsividade com a bola nos pés. Então, surgiu Maradona. Como explicou Ubiratan Leal em um texto aqui na Trivela em 2017, Diego encaixava-se perfeitamente nesta alegoria, como o autêntico jogador argentino. Era o ‘pibe dos pibes’, o Pibe de Oro.

“Com o correr dos anos, toda a influência saxã do futebol foi desaparecendo para dar espaço ao espírito menos fleumático e mais inquieto do latino. Inspirados na mesma escola dos britânicos, rapidamente os latinos foram mudando a ciência do jogo e fizeram uma própria, hoje amplamente reconhecida. Ela se diferencia da inglesa por ser menos monocórdica, menos disciplinada e metódica, pois não sacrifica o individualismo em homenagem à soma coletiva dos valores. […] O futebol rioplatense, no entanto, não sacrifica inteiramente a ação pessoal e utiliza mais o drible, o esforço pessoal generoso, tanto nos homens de ataque como nos de defesa. Por consequência, é um futebol mais ágil e vistoso”, refletia a El Gráfico, ainda em 1928. Maradona era a materialização perfeita desse pensamento, mais de quatro décadas depois.

E a badalação se provava em campo. O Cebollitas experimentou seus grandes momentos no Torneio Evita, que reunia as melhores equipes infantis da Argentina. O time chegou a emendar uma sequência de 136 partidas de invencibilidade, quase sempre empilhando goleadas. Criava expectativas sobre o que aqueles garotos poderiam aprontar quando realmente deslanchassem no Argentinos Juniors, mas também ensinava os pequenos a lidarem com as derrotas, como aconteceu nas fases finais do Torneio Evita em 1973.

Maradona fez três gols na final regional, 5 a 4 sobre o Banda Roja – os meninos da base do River Plate. O Cebollitas, então viajou a Córdoba para disputar a fase decisiva contra os campeões das demais províncias. Contra Santiago del Estero, o empate por 2 a 2 forçou uma disputa por pênaltis. Diego se encarregou da quarta cobrança e errou. Saiu às lágrimas com a derrota e, como consolo, ouviu do filho do treinador adversário que não precisava chorar porque “seria o melhor do mundo”. Aquilo ficou em sua mente.

Um ano depois, o Cebollitas voltou à fase final do Torneio Evita e levou o troféu ao derrotar o San Telmo por 7 a 2. Quando se juntou à base do Argentinos Juniors, aquela geração ainda levou os títulos em duas categorias distintas, no sub-14 e no sub-15. Algo bastante incomum a infantis na época, o time realizou excursões internacionais, por países como Uruguai e Peru. Muitos queriam presenciar o fenômeno chamado Diego Armando Maradona, que não parecia ter idade ou tamanho para fazer tudo aquilo que conseguia com a bola.

Obviamente, a história do Cebollitas não se concentra apenas em troféus. O mais delicioso são as anedotas. Certa feita, a equipe já goleava seu adversário quando Maradona e um companheiro passaram a insistentemente perder gols. Batiam por cima do travessão, sempre, de maneira parecida. Aquilo incomodou Francisco Cornejo e os próprios companheiros, que não entendiam o porquê daquela pirraça. Depois souberam: como a partida estava muito fácil, Diego e o amigo visualizaram uma vaca descansando sob uma árvore atrás da meta. Apostaram e queria ver quem conseguiria acertá-la primeiro.

Como um prenúncio, a mão do menino Deus também ajudou o Cebollitas. “No Parque Saavedra, marquei um gol com a mão, os adversários me viram e partiram para cima do árbitro. Ao final, ele deu o gol e se armou uma confusão bárbara. Eu sei que não é certo, mas uma coisa é dizer friamente e outra muito distinta é tomar a decisão na quentura do jogo: você quer chegar na bola e a mão vai sozinha. Sempre me lembro de um árbitro que me anulou um gol que fiz com a mão contra o Vélez, muitos anos depois dos Cebollitas e muito anos antes do México. Ele me aconselhou que não fizesse mais. Eu agradeci, mas também disse que não poderia prometer nada. Não sei se ele comemorou a vitória sobre a Inglaterra”, rememorou Maradona, em sua autobiografia.

Maradona chegava a atuar inclusive nos principais estádios do país enquanto estava na base do Argentinos Juniors. Quando tinha 12 anos, visitou a mítica Bombonera. Não deixaria de brilhar na cancha, casa do clube de seu coração. Num momento em que o placar era confortável o suficiente, Francisco Cornejo chamou Diego para tirá-lo e poupá-lo. Os xeneizes não deixaram. “De repente, os torcedores do Boca começaram a gritar o nome dele e a pedir para que o deixassem ficar em campo. Ficou, claro”, recontou Ricardo Lombardi, um dos companheiros de Cebollitas, ao Mais Futebol.

Maradona muitas vezes ficava no banco, por não ter idade mínima para ser inscrito nas competições. Apesar dos riscos, Francisco Cornejo costumava colocá-lo se fosse necessário buscar a vitória. Isso aconteceu certa vez contra os meninos do Boca, em La Candela. O Cebollitas perdia por 2 a 0 e Diego protagonizou a virada depois de entrar. Na saída do campo, o treinador adversário (Ernesto Grillo, antigo jogador da seleção) se aproximou para parabenizar o camisa 10 e comentou com Cornejo: “Você não me engana, ele não está inscrito. De onde tirou esse monstro? Nunca vi nada igual. Mas, tranquilo, não vou roubá-lo de vocês”. Cornejo também inscrevia Diego com o nome errado, só para que não fosse descoberto de antemão pelos adversários.

Outro episódio simbólico aconteceu no Estádio do Barracas Central, contra o Huracán. Diante da vitória ampla dos garotos do Argentinos Juniors, os torcedores adversários passaram a insultá-los, em especial Maradona. ‘Favelado’ era o xingamento mais repetido ao menino, que incomodava principalmente Don Diego. O pai, quase sempre controlado, ameaçou sair no braço com um dos detratores nas tribunas. Foi quando a resposta saiu em campo, segundo contava o próprio Francis Cornejo em seu livro. Dieguito pegou a bola e fez fila entre os adversários, com um golaço que parecia antever o que ocorreria contra a Inglaterra. Enquanto os meninos vibravam, as arquibancadas ficaram em silêncio.

“Foram apenas alguns segundos, mas era um silêncio pesado, enorme, e no meio desse silêncio, Diego se levantou do chão, onde havia caído quase amassado pelos companheiros para festejar seu gol, e começou a caminhar, cabisbaixo, até o meio-campo. Pude ver que sorria. Então começaram a aplaudir; primeiro uns poucos, depois mais outros e, no fim, nos quatro cantos do campo. Um aplauso interminável em homenagem ao gol de outro mundo que o menino tinha feito. Até a bola voltar a rolar, não pararam de aplaudir. E, nesse jogo, não se ouviu mais nenhum insulto”, relatava Cornejo, conforme a tradução do Impedimento.

Cornejo atuava como uma figura paternal a Maradona, dentro do Cebollitas e mesmo depois no Argentinos Juniors. Era um homem firme, que procurava ensinar e proteger o craque que tinha em mãos. Evitava que Diego fosse caçado em campo pelos adversários, o que acontecia desde os primórdios, mas sem limitar sua capacidade de expressão. Tentava guiar o menino. Seria ele também a levar o guri mirrado a Roberto Paladino, médico que ajudou em seu desenvolvimento físico com uma série de vitaminas e injeções, além de regrar a alimentação do projeto de craque. Desta maneira, o camisa 10 se fortaleceria para aguentar as pancadas e evoluir mais rápido.

“O jogador nasceu, já vem com a embalagem. O técnico trabalha sobre o que a natureza traz. Mas quando aparece alguém com seu talento, tudo se torna mais fácil. Ainda mais com o comportamento que tinha Diego. Era um menino bárbaro, dócil… um garoto maravilhoso”, contaria Cornejo, ao jornal Página 12. “Ele era apegado a mim. Não era rebelde de forma alguma. Quando tinha que enfrentar algo, ficava com raiva. Era um grande companheiro. Os meninos dos Cebollitas se gostavam muito e tinham um grande respeito por mim. Eu era duro, mas sempre tratando de ser justo. Não perdoava os caprichosos, e Diego não era caprichoso, era um jogador de equipe”.

A família Maradona também reconhecia o esforço realizado por Cornejo e os cuidados empreendidos pelo Argentinos Juniors. Não foram poucas as ofertas desde os tempos de Cebollitas para que o menino abandonasse os colorados, um clube modesto de Buenos Aires. Um representante do River Plate chegou com dinheiro à Villa Fiorito, onde tentou convencer os pais de Dieguito a cedê-lo às categorias de base millonarias. Don Diego ainda tinha dificuldades para sustentar seus filhos, mas disse não, pois considerou que uma transferência seria como uma traição à chance garantida pelo Argentinos Juniors. Também temia que o prodígio virasse mais um em Núñez, sem as atenções que recebia em La Paternal. Francis Cornejo o bancava.

Foi nessa época também que Diego conheceu Jorge Cyterszpiller. Com uma paralisia na perna, Jorge apenas podia acompanhar do lado de fora a base do Argentinos Juniors. Via os jogos do irmão, Juan Eduardo, que despontava. Porém, Juan Eduardo faleceria com uma enfermidade avassaladora e Jorge ficou recluso. Voltou a sair quando descobriu que no Cebollitas havia um rapazinho que atazanava os marcadores. Assim, Maradona virou seu novo irmãozinho. Cyterszpiller seria uma espécie de coordenador da equipe, cuidando dos meninos, um pouco mais novos que ele. Também se transformaria em representante do camisa 10 e fecharia seus primeiros contratos.

Antes que o dinheiro jorrasse, para ajudar um pouco mais a família, Maradona trabalhava na sede do Argentinos Juniors enquanto conciliava os estudos. Assim como os demais garotos da base, também servia de gandula nos jogos em La Paternal. Quando a bola saía pela linha de fundo, brincava como mais gostava, fazendo embaixadinhas. Aquilo começou a cativar a torcida e, durante o intervalo, Diego passou a ser uma atração a mais com seus malabarismos.

“Nós, jogadores da equipe profissional, começamos a admirar o canhotinho que vinha aos nossos vestiários, se aquecia e entrava nos intervalos junto com seus companheiros para deleitar o público com sua habilidade”, recontou José Pekerman, que defendia o Bicho Colorado na época, ao jornal El País. “Aos sábados, quando terminávamos o treinamento, nós ficávamos para ver o Cebollitas. ‘Isso não é possível! Não tem menisco e nem cartilagem’, dizíamos. Estávamos diante de algo que ninguém havia visto e sabíamos. Era divertido ver como os rivais desfilavam um a um sem poder tirar a bola. O menino sempre escolhia a jogada oportuna, sabia quando devia passar, driblar, chutar… Sempre marcava sete, oito gols. Conhecia todos os segredos do futebol como se estivesse terminando a carreira”.

Num jogo contra o Boca Juniors, no campo do Vélez, Maradona chegou a atravessar o campo de área a área sem deixar a bola cair. A torcida começou a ovacioná-lo e, quando os profissionais saíram dos vestiários, o público não queria que o menino parasse sua arte para a peleja recomeçar. Cantavam para que ficasse. Por causa dessa habilidade, Pelusa seria convidado para participar do Sábados Circulares, um popular programa da TV argentina. Então, disse pela primeira vez diante das câmeras que sonhava com o Mundial.

Curioso é que o Boca Juniors não ocupava a mente de Maradona naqueles tempos. O garoto era vidrado nos jogos do Independiente, que dominava a Copa Libertadores no início dos anos 1970. Sobretudo, por causa de Ricardo Bochini, o maestro dos rojos naquele momento histórico. “Naquele tempo em que eu me formava como jogador, estava apaixonado por Bochini. Eu me apaixonei terrivelmente e confesso que era torcedor do Independiente na Libertadores, quando estava para dar o salto do Cebollitas à base do Argentinos Juniors, porque Bochini me seduziu tanto! Bochini e Bertoni. […] Também gostava de Beto Alonso, porque era canhoto como eu e me parece que os canhotos somos mais vistosos. É o caso de Rivellino, o melhor exemplo”, contaria Diego, em sua autobiografia.

Maradona ganhou seu primeiro contrato profissional em 1976. Assinou com o Argentinos Juniors que o acompanhou de perto desde os primórdios. E depois o clube também ofereceria uma casa à família do prodígio, nos arredores de La Paternal, onde o adolescente passaria a viver com os pais e os irmãos. Naquele momento, a ascensão acontecia de maneira muito rápida a Diego. Não demoraria a dar saltos cada vez mais altos, rumo à equipe principal do Bicho Colorado.

“Vejo que fiz tudo muito rápido: todos do Cebollitas saímos campeões com a nona (o sub-14) do Argentinos Juniors. No ano seguinte, passei à oitava (sub-15) com a mesma equipe e, quando tínhamos dez pontos de vantagem, me mandaram à sétima (sub-16). Lá joguei duas partidas e me subiram à quinta (sub-18). Quatro partidas ali e, em seguida à terceira (sub-21); estreei contra Los Andes, no campo deles, com um gol. Duas partidas e, pum, à primeira equipe. Tudo, tudo, tudo isso e nada mais que em dois anos e meio”.

Em 20 de outubro de 1976, dez dias antes de completar 16 anos, Diego Armando Maradona fez sua primeira aparição pelo Campeonato Argentino. O garoto havia sido recomendado ao técnico Juan Carlos Montes por Ricardo Pellerano, capitão do Argentinos Juniors, que o observava na base. O comandante aproveitou um momento menos conturbado do time, sem riscos de rebaixamento, para levá-lo aos treinos com os profissionais. O camisa 10 fazia miséria contra os adultos e assim ganhou uma chance de ficar no banco naquele 20 de outubro. O mero fato de Maradona ser relacionado atraiu uma multidão de curiosos a La Paternal. Diego entrou no segundo tempo de uma derrota para o Talleres, vestindo a 16. No primeiro toque na bola, seguindo o conselho do treinador, aplicou uma caneta no marcador. Nascia o gênio – como bem conta o Futebol Portenho. Três semanas depois, viria o primeiro gol, fazendo fila na zaga do San Lorenzo de Mar del Plata.

Nem todos os garotos do Cebollitas chegaram à equipe principal do Argentinos Juniors. Apesar do desempenho avassalador nos potreros, muitos ficaram pelo caminho. O próprio Goyo Carrizo teria a trajetória interrompida em 1977, quando estava prestes a estrear como profissional. O atacante sofreu uma séria lesão no joelho e precisou passar por uma cirurgia. Maradona ajudou com as despesas, mas Goyo não se empenhou tanto no tratamento e sofreria outra contusão depois. Rodaria por equipes menores, deixaria o futebol, enfrentaria a depressão. Ainda morando em Villa Fiorito, seria personagem de um documentário recentemente. O esporte permanecia em sua vida através das crianças que ele ensinava nos potreros da comunidade.

“Em todos os anos que jogaram juntos no Cebollitas, Goyo foi o que melhor acompanhou Diego dentro de campo. Existia entre eles uma compreensão que os permitia fazer jogadas que jamais vi fazerem, nem sequer jogadores profissionais. Eram a dupla ideal. Pareciam adultos, sabiam tudo: como dominar, como passar, como fazer uma tabela. Mas, além disso, se divertiam como loucos jogando. Nunca vi uma coisa igual. Dava alegria só de olhá-los”, avaliaria Francis Cornejo, em Cebollita Maradona.

Maradona precisou crescer rápido. Não apenas para lidar com o futebol profissional, mas também para encarar todos os holofotes que o rodeavam. Aos 16 anos, estrearia na seleção argentina. Aos 17, chorou quando não foi à Copa do Mundo. Aos 18, liderou a Albiceleste na conquista do Mundial Sub-20 de 1979. E isso elevando o nível do Argentinos Juniors como nunca se imaginava até então, fazendo o Bicho Colorado ambicionar títulos. Enquanto esteve em La Paternal, Diego foi cinco vezes artilheiro do Campeonato Argentino. Mas a segunda metade de sua adolescência havia se transformado em vida adulta. E, nesse amadurecimento abrupto, ficou o resquício do pibe.

Ao longo de sua carreira, Maradona nunca se esqueceu das crianças. A elas dedicou os melhores momentos, inclusive a conquista da Copa de 1986. Permanecia viva nele a chama do menino que surgiu no potrero de Villa Fiorito, que virou xodó no Cebollitas, que todo mundo quis acompanhar no Argentinos Juniors. O menino humilde, o menino solidário, o menino apaixonado pela bola. O menino que assumiu tão cedo o papel de símbolo da paixão de um país. De messias sentimental do futebol argentino.

Depois de conquistar a Copa de 1986 e de ser recebido como um herói nacional na Casa Rosada, Diego retornou à casa dos pais em Villa Devoto, onde viveram as últimas décadas de suas vidas. Uma multidão se reuniu por lá e passou dias em vigília. Certa feita, o camisa 10 levou para dentro dois meninos, porque ficou com pena. “Outra coisa não podia fazer, porque se deixava todos entrarem, derrubavam a casa. Mas fazer entrar esses dois foi como um símbolo, como se entrassem os demais”, contaria Maradona no livro ‘México 86: meu Mundial, minha verdade’. Os garotinhos não representavam só a massa de argentinos, extasiada pela conquista. Eram também aquele rapazinho de anos antes, El Pelusa, transfigurado. O pequeno gênio de personalidade forte que virou um dos melhores da história sem perder os ares de garoto. E fazendo cumprir todas as profecias, de Villa Fiorito a Parque Saavedra, de La Paternal a Bombonera, de Barcelona a Nápoles, do Azteca ao cosmos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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