Um dos maiores jogos de Maradona no Napoli aconteceu num campo enlameado, para ajudar um menino doente
A história de Maradona no futebol não se resume ao que jogou. Diego é também o sentimento que suscitava, extremamente carnal. Em Nápoles, a veneração prevalece, mesmo que a relação apaixonada tenha atravessado altos e baixos. E a consideração dos napolitanos não se limita aos títulos inéditos que o camisa 10 proporcionou ao Napoli, aos grandes embates, aos golaços. Essa relação tem muito a ver com identidade, pela maneira como o argentino abraçou uma população tantas vezes discriminada e vista como periférica dentro da própria Itália. Assim, uma das maiores exibições de Diego não aconteceu no San Siro, no Olímpico ou em qualquer outro estádio monumental da Serie A. Ela veio num campinho de terra, logo em seus primeiros meses com os celestes, para ajudar um menino.
Maradona vivia sua primeira temporada pelo Napoli em 1984/85. O impacto do craque no rendimento da equipe não foi instantâneo e, durante o primeiro turno da Serie A, os partenopei eram ameaçados pelo rebaixamento. A afirmação de Diego no San Paolo começou a se ampliar em janeiro de 1985. Com dois gols, o camisa 10 comandou os napolitanos numa suada vitória por 4 a 3 sobre a Udinese. Já na partida seguinte, uma prova de força, Maradona garantiu o triunfo por 1 a 0 sobre a Fiorentina de Daniel Passarella, Claudio Gentile, Sócrates e Daniele Massaro, dentro do Artemio Franchi. Na sequência do inverno, o time ainda empataria sem gols com o líder (e futuro campeão) Verona e com a ascendente Sampdoria, antes de derrotar o terceiro colocado Torino por 2 a 1. Maradona fez o primeiro no San Paolo contra os grenás, que tinham Júnior e Aldo Serena. O meia vinha com moral.
Há divergências sobre o momento exato em que esta história aconteceu. Certo é que, depois de uma destas vitórias pela Serie A, contra Fiorentina ou Torino, Maradona tinha um novo compromisso contra adversários bem menos badalados. Reserva do Napoli, Pietro Puzone nasceu em Acerra, uma cidadezinha periférica no norte da região metropolitana de Nápoles. O meio-campista ficou sabendo da história de um conterrâneo, cujo filho tinha uma doença grave e precisava de dinheiro para passar por uma delicada cirurgia na França. Puzone, então, convidou Maradona para um jogo beneficente contra um time local. Com o craque em campo, os vizinhos teriam mais motivos para doar à operação do garoto doente.
Presidente do Napoli, Corrado Ferlaino vetou a presença de Maradona. A preocupação do dirigente era óbvia: seu melhor jogador, que havia custado uma fortuna recorde meses antes, poderia se machucar no campo acidentado de Acerra. Diego, entretanto, também mostrava sua personalidade naquele momento. Não deixaria de ajudar o menino por causa do ‘não’ dado pelo cartola. Mesmo contatado diretamente por Ferlaino, o camisa 10 preferiu não dar ouvidos e seguir ao amistoso beneficente.
Se o problema era o risco de lesão, Maradona resolveu pagar do próprio bolso a cláusula de seu seguro – e em tempos nos quais não vivia uma situação financeira tão abastada, após problemas enfrentados em Barcelona. O argentino desembolsou 12 milhões de liras, para confirmar sua presença e dar uma garantia a Ferlaino. “Que se foda o Lloyd’s de Londres [a companhia de seguros]. Eu preciso jogar essa partida por causa daquele menino”, teriam sido as palavras de Diego na época, conforme a imprensa napolitana.
Assim, um dia depois de vencer pela poderosa Serie A, Maradona acompanhava Puzone e outros jogadores reservas do Napoli no terrão de Acerra. Por conta da chuva e do inverno rigoroso, o campo se via completamente enlameado. Não foi isso que impediu Diego de apresentar sua genialidade àquela gente humilde. O estádio modesto se via apinhado, com as pessoas se esgueirando pelos muros e se amontoando nas arquibancadas. O local, com capacidade para 5 mil espectadores, reuniu mais de 10 mil. Tudo por aquele ídolo nascente.
O placar do jogo é o de menos, com os 4 a 0 para o combinado de reservas do Napoli. A canhotinha de Maradona funcionou naquele barro. Rendeu inclusive um golaço, daqueles que Diego era tão capaz, amontoando adversários pelo chão com seus dribles até bater às redes vazias. O camisa 10, além do mais, não deixou de lutar por cada bola. Dividiu, se esforçou, se sujou completamente na lama. Não jogava por um troféu, afinal. Jogava por um menino doente e por todas aquelas pessoas que estavam ali, sob chuva, para aplaudi-lo. Maradona em sua mais pura essência.
O menino precisava de 20 milhões de liras para viajar à França e ser operado. Maradona tirou 15 milhões do próprio bolso e o restante a bilheteria deu conta. Diego não se machucou por ter se arriscado no amistoso. Disputou todas as 15 rodadas restantes da Serie A, marcou oito gols e permitiu que o Napoli encerrasse a campanha na oitava colocação, a salvo do risco de rebaixamento. Pouco mais de um ano depois, Diego se consagrava como campeão do mundo no México. Já a partir de 1986/87, viriam os dois Scudetti do Napoli, bem como os títulos na Copa da Uefa e na Copa da Itália. A muitos, no entanto, a história gloriosa do camisa 10 em Nápoles começa naquele lamaçal de Acerra.
Este texto tinha sido escrito no fim de outubro, durante a ocasião dos 60 anos de Diego Maradona, e ficou guardado depois que nossos parceiros da Calciopédia coincidentemente publicaram a mesma história na data. Assim, vale conferir também o artigo assinado pelo ótimo Caio Bitencourt, com outros detalhes do mesmo episódio. Fica aqui o agradecimento à gentileza do amigo.



