Inglaterra

Despedida de Kane era o momento que o Tottenham sonhou que nunca precisasse chegar

Tottenham e Kane cresceram lado a lado, mas um deles estagnou e os caminhos precisaram se separar

O sábado começou com Harry Kane segurando outra camisa. Branca também, mas com o vermelho do Bayern de Munique. É claro que o Tottenham, como qualquer clube, nunca quis que um dos melhores jogadores da sua história fosse embora. Mas, principalmente, esperava que ele nunca precisasse ir embora. Que atingiria um estágio em que Kane se contentaria com a vida no norte de Londres. Chegou perto. Bem perto. Até perto o suficiente. Não chegou lá, porém.

No fim, a relação entre Kane e Tottenham foi uma história de jogador e clube que evoluíram juntos até o momento em que um deles não conseguiu mais fazê-lo. Não é uma questão de Kane ser maior que os Spurs, com uma histórica rica, mesmo que errática em títulos, e uma torcida apaixonada. É que ele se transformou em um dos melhores jogadores do mundo, e o Tottenham simplesmente não conseguiu mais fornecer uma plataforma adequada para satisfazê-lo.

Kane pagou para ver. Mais de uma vez. Aquela coisa de que um título pelo clube da sua vida vale mais que cinco em outro lugar. Poderia ter chegado tranquilamente durante a era Mauricio Pochettino. Quando um time chega à final da Champions League, ele está na elite do continente, está na briga, é candidato a qualquer troféu. A tragédia é que o ápice chegou exatamente no fim do ciclo do argentino. O Tottenham tentou manter a competitividade contratando dois técnicos de curto prazo, mas não era apenas o ciclo de Pochettino que havia terminado.

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Um momento decisivo foi o começo da temporada 2021/22. O Tottenham havia saída da Champions League e não conseguiu retornar com o trabalho fraco de José Mourinho. Depois de quase ser campeão pela Inglaterra na Eurocopa, Kane decidiu que era hora de ir embora. Nem se apresentou à pré-temporada para forçar a saída ao Manchester City, que havia colocado uma mala de dinheiro na mesa. O presidente Daniel Levy fez jogo duro. Especulava-se que pedia £ 150 milhões. A novela se arrastou até 25 de agosto, quando confirmou que continuaria nos Spurs.

Se esperava que o City retornasse no ano seguinte, a decepção foi grande. Guardiola foi com tudo para cima de Erling Haaland e deve ter sido grande a sensação de que deixou o cavalo selado passar. O alento é que o Tottenham havia contratado Antonio Conte, uma garantia de título em todos os clubes que passou. Conseguiu classificação à Champions Laeague, mas seu trabalho implodiu antes que pudesse conquistar alguma coisa no norte de Londres. A última temporada dos Spurs foi deprimente. Terminou com um oitavo lugar, com clara necessidade de uma renovação profunda.

Ela foi colocada em ação com a contratação de Ange Postecoglou, encarando uma grande liga pela primeira vez, tentando propor um futebol ofensivo construído em torno de um time jovem. A questão era se seria com ou sem Harry Kane. A posição do Tottenham era muito mais frágil para rechaçar propostas. Havia oferecido uma renovação para o jogador, que tinha apenas um ano de contrato e poderia sair de graça em 2024.

Kane não quis renovar e, equilibrando a probabilidade quase certa de perdê-lo de graça com uma proposta que pode chegar a £ 120 milhões, o Tottenham finalmente decidiu vendê-lo ao Bayern de Munique. Se a melhor opção, mantê-lo para sempre, não era mais possível, a segunda não é tão ruim porque a reformulação pode seguir com cofres reforçados e sem a pressão de montar um time competitivo imediatamente para não desperdiçar os últimos melhores anos de Harry Kane.

A transferência foi iminente a semana inteira. Atrasou um pouco porque, na última hora, parece que Kane balançou. Teve dúvidas. Não é fácil deixar tanta coisa para trás, por mais que tenha tomado a decisão correta para sua carreira e para o seu legado como jogador. O Tottenham não é pequeno. Kane que se tornou grande demais.

– Eu queria ser o primeiro a dizer aos torcedores do Tottenham que deixarei o clube hoje (sábado). É triste ir embora do clube em que passei quase 20 anos da minha vida. De um garoto de 11 anos a um homem de 30 anos. Houve tantos grandes momentos e memórias especiais. Obrigado a vocês, torcedores do Tottenham. Desde o momento em que comecei a jogar, fui um dos seus e fiz tudo que poderia para deixá-los orgulhosos, dar momentos especiais e memórias que espero que durem para sempre – disse Kane, em um vídeo de despedida publicado em suas redes sociais.

– Não queria entrar na temporada com o futuro no ar. Acho que é importante para o novo treinador e para os jogadores se concentrarem em colocar o Tottenham de volta na ponta da tabela. Boa sorte para eles, assistirei à temporada como torcedor agora. Não é um adeus porque você nunca sabe o que acontecerá no futuro. É um obrigado e os vejo em breve – completou.

Da desconfiança a maior artilheiro do Tottenham

Harry Kane teve que rodar a Inglaterra até convencer o Tottenham a lhe dar uma chance. O primeiro empréstimo foi ao Leyton Orient, da terceira divisão, em 2010/11. Ficou no elenco para a temporada seguinte e fez sua estreia na Liga Europa, contra o Hearts, mas não foi aproveitado por Harry Redknapp na Premier League. Repassado ao Millwall, marcou sete vezes em 22 rodadas na Championship. Teria outros dois empréstimos, ao Norwich e ao Leicester, sendo coadjuvante daquela semifinal de playoffs insana contra o Watford em 2013.

A história na Premier League havia começado com cinco minutos contra o Newcastle em agosto de 2012, antes de defender os Canários. A primeira sequência de verdade, porém, chegou apenas em abril de 2014, sob o comando de Tim Sherwood. Foi quando finalmente começou a dar sinais do que se tornaria. Como parceiro de ataque de Adebayor, marcou em três rodadas seguidas – os primeiros gols na liga inglesa do centroavante que ameaçou o recorde de Alan Shearer – contra Sunderland, West Bom e Fulham. Tudo mudou com a chegada de Mauricio Pochettino.

O argentino não elevou apenas a história recente do Tottenham, mas, com ele, Kane se transformou em um atacante de primeira linha. Foi quase do ponto a zero a um atacante que entregou 31 gols, 21 pela Premier Legue, em um ano ano. Uma evolução tão grande que levou até ao questionamento se seria um one-hit-wonder: aquela banda que consegue emplacar apenas uma música de sucesso. Teria a chance, no fim das contas, talvez a melhor, de ser campeão na Copa da Liga Inglesa, mas o Tottenham foi derrotado na final pelo Chelsea.

No fim, Kane compôs outros hits, sim. Após receber a companhia de Heung-min Son, com o qual formaria uma dupla letal, marcou 28 gols na temporada 2015/16, ajudando o Tottenham a retornar à Champions League, e pulou para 35 na campanha seguinte, na qual os Spurs foram vice-campeões pela primeira vez desde 1962/63. Nesses dois anos, liderou a tabela de artilharia do Campeonato Inglês.

Falando nisso, em 2017, teve um encontro simbólico com Jimmy Greaves, um dos craques do clube londrino naquele período, e expressou o seu desejo de nunca mais defender outra camisa. “Isso depende de como a equipe se desenvolve, dos técnicos e do que mais for, mas eu tenho dito que quero permanecer aqui. Tento não pensar tão longe sobre o futuro, já que é algo que você não pode controlar, mas apenas quero seguir melhorando como jogador”, disse.

E melhorando como jogador ele seguiu, inclusive se firmando como uma das estrelas da seleção inglesa. A temporada 2017/18 foi a sua mais produtiva, com 41 gols, e culminou com a Copa do Mundo da Rússia, da qual foi artilheiro. A sequência seria amarga. Enquanto construía seu novo estádio, o Tottenham não trouxe reforços, mas conseguiu chegar à final da Champions League. Kane não conseguiu ajudar muito porque terminou a campanha lesionado. Fez todo o possível para se recuperar a tempo de disputar a final, mas não foi mais do que uma sombra contra o Liverpool em Madri.

Ele ficaria mais quatro anos no Tottenham, mas foi dali para baixo. Continuou excepcionalmente produtivo, colecionando mais uma artilharia da Premier League em 2020/21, mas o projeto esportivo se deteriorou. A melhor campanha desse período foi um quarto lugar. Técnicos do calibre de José Mourinho e Antonio Conte chegaram e foram embora sem conseguir reviver a mágica de Pochettino. Mourinho até levou os Spurs a mais uma final de Copa da Liga, demitido na semana em que a disputaria. A derrota para o Manchester City foi a última chance real de Kane conquistar um título pelo Tottenham.

E se ele fez falta, sua ausência também enfatiza como Kane conseguiu marcar a passagem pelo clube mesmo sem nunca ter gritado campeão. Em fevereiro, superou os 266 gols de Jimmy Greaves e se tornou o maior artilheiro da história dos Spurs. Feito gigantesco de um jogador que esticou a lealdade ao máximo do que era razoável. Não há dúvida de que entregou tudo que podia e foi a bandeira do melhor momento do Tottenham desde os anos 1980. Não foi campeão simplesmente porque não deu, mas durante uma década foi o principal motivo que levou os torcedores a acreditar que dava. Isso não é pouca coisa.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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