Depois de Kane, quem será o próximo a se tornar o maior artilheiro de um clube da Premier League? E no resto da Europa?
Ao marcar contra o Fulham, Kane igualou os 266 gols de Jimmy Greaves e deve se isolar como o maior artilheiro da história do Tottenham muito em breve
O Tottenham precisava dos três pontos contra o Fulham, mas o gol de Harry Kane que os garantiu foi muito mais importante do que isso. Foi o seu 266º com a camisa dos Spurs, o que o coloca em pé de igualdade com Jimmy Greaves na história dos artilheiros do clube. Um momento que a Premier League até viu com certa frequência ao longo dos últimos 20 anos, mas que talvez demore um pouco para acontecer de novo. E não apenas na Inglaterra: em outras ligas, há um ou outro time importante que pode começar a preparar as peças de homenagem para as redes sociais, mas muitos têm seus goleadores históricos bem consolidados.
Premier League
Não é muito provável que vejamos outro jogador quebrar o recorde de gols de um clube da Premier League em um futuro próximo. E por um motivo bem simples: a maioria foi recente. Contando o Tottenham, inevitável à esta altura, cinco dos seis integrantes do Big Six tiveram seus maiores artilheiros neste século. Projetando que o Newcastle em breve fará parte desse grupo de elite, a situação é a mesma: Alan Shearer chegou a 206 gols e bateu o recorde de Jackie Milburn (200) em sua última temporada, como profissional, em 2005/06.
Muitos dos recordes da Inglaterra foram estabelecidos entre as décadas de 1920 e 1930. Os gols saíam como água, não havia guerra para atrapalhar e a lei do impedimento mudou, exigindo um jogador a menos entre o atacante e a linha de fundo na hora do passe. Mas não é coincidência que as marcas mais recentes foram de jogadores de clubes ricos e poderosos. Se o Everton consegue alguém bom o bastante para visualizar os 383 gols de Dixie Dean (maior número entre os clubes da elite), como, por exemplo, Romelu Lukaku, ele não ficará muito tempo no Goodison Park.
Nesse cenário, o Newcastle talvez esteja suscetível a ter um novo maior artilheiro nos próximos dez anos. A marca de Shearer não é tão alta (a quinta menor entre os integrantes atuais da Premier League). E se tudo der certo, o clube se transformará em uma potência esportiva que ganha a maioria dos jogos, o que geralmente exige gols, e financeira que conseguirá segurar seus principais jogadores. A gente só não sabe quem é esse cara ainda. Provavelmente não será Callum Wilson, com 26 gols e 30 anos, o mais próximo do elenco atual.
Isso também pode acontecer no Manchester United. O seu maior artilheiro é Wayne Rooney, que ultrapassou os 249 gols de Bobby Charlton, em 2017. Ele tem 253. O retorno de Cristiano Ronaldo não chegou a ser uma ameaça real porque em sua primeira passagem o português não era a máquina de gols em que se transformou no Real Madrid. Despediu-se com 145. Mas Marcus Rashford existe. São 111 gols do atacante de 25 anos pelos Red Devils. Se a sua permanência em médio prazo pareceu ameaçada antes da chegada de Erik ten Hag, hoje em dia ele se tornou intocável e, na prática, o craque do time. Antes da temporada passada, cheia de problemas, ele emendou duas campanhas de 20 tentos e parece ter atingido um novo estágio de maturidade. Mantendo esse ritmo, precisaria de sete anos.

O Liverpool encontrou um fenômeno com Mohamed Salah. O cara entrou no top 10 de artilheiros dos Reds em aproximadamente cinco anos e é atualmente o sétimo colocado. O problema é que chegou um pouco tarde para alcançar Ian Rush. Salah tem exatamente a metade dos gols do galês (173 x 346), o que significa que precisaria manter o nível de rendimento de suas primeiras temporadas em Anfield pelas próximas cinco ou seis para ter uma chance. Pode fazer isso? Pode fazer isso. Até porque, se você olhar ano a ano, houve uma temporada sobrenatural: a primeira, com 44 gols. As outras foram ótimas, mas não inalcançáveis: 27, 23, 31 e 31. Mesmo na atual, em um Liverpool cheio de problemas que não está potencializando seu futebol, ele já fez 17. Talvez nem seja a sua pior vestido de vermelho em números brutos.
Mas passar Rush ainda depende de muita coisa. Primeiro, da velocidade com que Jürgen Klopp conduzirá o processo de renovação para montar o seu próximo grande time. Quanto tempo até o Liverpool voltar a amassar os seus adversários, com Salah como seu principal goleador? Se é que isso vai acontecer novamente. Também seria natural se ele desacelerasse um pouco entre seus 30 e 35 anos em relação aos seus 25 e 30 anos. Ele tem contrato até 2025. Provavelmente precisaria de mais um ou dois vínculos, em uma estrutura coletiva melhor que a atual, livre de lesões e mantendo uma regularidade incomum, para chegar aos 36 ou 37 anos perto de Rush.
No Arsenal, o líder da tabela é Thierry Henry, com 228 gols. Ele ultrapassou Ian Wright, com 186, também um jogador relativamente recente, em 2005. Dois atacantes em atividade passaram da marca centenária pelos Gunners, mas digamos que é improvável que Olivier Giroud (105) e Theo Walcott (108) retornem ao clube e dobrem suas contas nos anos que restam em suas carreiras. O elenco atual de Mikel Arteta é muito jovem e ninguém está nem na vizinhança de Henry. Mas Bukayo Saka não seria uma aposta tão ruim.
Ele tem 30 gols pelo Arsenal. Arredondando, precisaria de mais 200. Mais importante: ainda tem 21 anos. Como tudo nessa conversa, dependerá de algumas variáveis: evitar lesões, o clube, esportiva e financeiramente, continuar atrativo para que ele fique a maior parte da carreira lá e o seu próprio desenvolvimento. Mas não é totalmente absurdo um cenário em que Saka se transforme em um cara capaz de fazer 15 a 20 gols por temporada (ele já faz uns 10) e passe a próxima década no Emirates. Se isso acontecer, ele tem uma chance.

O jogador treinado por Pep Guardiola que está mais próximo dos 260 gols de Sergio Agüero é Kevin de Bruyne, com 89. Mas o Manchester City emprega um ponto fora da curva. Então não é absurdo projetar que alguém que chegou ao clube antes de ontem possa ultrapassar Agüero. Ainda mais se Erling Haaland mantiver essa média de mais de um gol por partida. Ele tem 31 em 26 jogos pelo City. Mantendo a proporção, precisaria de cerca de 220 jogos de azul para chegar ao recorde, o que ele pode atingir em cinco temporadas completas, ainda dentro do seu atual contrato. É um cenário realista para o norueguês de 22 anos, mesmo se realmente houver uma transferência para o Real Madrid em seu futuro. A questão é mesmo manter uma média sobrenatural durante esse período, e até agora Haaland nos deu poucos motivos para duvidar que ele consegue.
O cenário mais incerto do momento é o do Chelsea. Primeiro porque quem disser que sabe quais jogadores estarão no elenco na próxima temporada está mentindo. Chegam dois novos por semana. Mesmo Mason Mount – com 33 gols, o mais próximo dos 211 de Frank Lampard – começou a ser especulado no Liverpool. Ainda é mais provável que fique, mas ainda está muito longe e não é exatamente um meia-atacante tão artilheiro, embora sempre tenha atraído comparações com Lampard. Kai Havertz, com 29 gols, teria que encontrar uma veia artilheira ainda não vista, mas pelo menos tem a idade (23 anos). Mas, como no Newcastle, o mais provável é que o próximo maior artilheiro da história dos Blues ainda não tenha sido contratado.
A história fica mais difícil no resto da tabela. Alguns clubes como West Ham, Aston Villa e Everton têm potencial financeiro para serem estáveis e brigar por vaga em competições europeias. Ainda estariam suscetíveis a perder fenômenos e não estão exatamente usando o dinheiro da maneira mais eficiente possível. E os caras estão muito, muito longe. No Villa, por exemplo, o mais próximo de Billy Walker (244 gols) é Ashley Young, com 39. O Everton provavelmente nunca terá alguém para ultrapassar os 383 de Dixie Dean. A marca do West Ham também é bem difícil: Vic Watson, com 326.

Com 168 gols, Jamie Vardy é o terceiro maior artilheiro da história do Leicester, mas ainda está a cerca de 100 de Arthur Chandler e já tem 36 anos. Wilfried Zaha, 30 anos, tem 89 pelo Crystal Palace. Não seria impossível alcançar Peter Simpson, com 165, mas está chegando aos últimos meses do seu contrato, não deve permanecer e, mesmo se o fizesse, teria que aumentar a média ou jogar até quase 40 anos. Um cenário plausível seria o Brentford. Ivan Toney tem 60 gols e não está tão longe de Jim Towers, com 153. Mas aí entra a questão financeira: por quanto tempo as Abelhas conseguirão segurar o artilheiro?
O mais plausível mesmo é Aleksandr Mitrovic, no Fulham. Na melhor fase da sua carreira, o sérvio tem 107 gols, relativamente perto dos 178 de Gordon Davies. Os londrinos devem finalmente ficar na Premier League o que ao mesmo tempo impede que Mitrovic faça mais de 40 gols em um ano como na temporada passada na segunda divisão e aumenta as chances de que ele fique no clube por mais algum tempo. Ele parece no ponto certo: bom o bastante para marcar com frequência, mas não o suficiente para ser tão cobiçado pelo mercado.
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E na Europa?
Ampliando para os principais clubes do restante da Europa, a dinâmica é parecida com a de uma liga: existem os mais poderosos que terão atacantes prolíficos por muitos anos, e outros que precisam aproveitar bem o pouco tempo juntos. Por exemplo, o maior artilheiro da Internazionale é Giuseppe Meazza, com 287 gols. Mauro Icardi fez 124 e até tinha chance de alcançá-lo. No entanto, a ambição bateu mais forte, em um momento de baixa do clube nerazzurri, e ele saiu para o Paris Saint-Germain. O mais próximo agora é Lautaro Martínez, com 86 gols. Aos 25 anos, poderia fazer 20 por temporada durante a próxima década, mas qual a chance de ficar esse tempo todo na Inter? O futebol italiano ainda não está entre os mais ricos.

Por isso, é bom Victor Osimhen se apressar. A lista de artilheiros do Napoli é modesta – em termos de números, não de nomes, porque tem um Diego Maradona perto do topo -, tanto que os três primeiros colocados são jogadores recentes: Dries Mertens, com 148 gols, Lorenzo Insigne, com 122, e Marek Hamsik, com 121. Osimhen está há dois anos e meio no sul da Itália, sofreu com lesões, e já marcou 42. Está melhorando seu aproveitamento, perto de um gol por jogo, e se mantiver essa média, pode até chegar lá em umas três temporadas. Não é nem perto de ser certeza, porém, que ficará esse tempo todo no Napoli, por mais que o presidente Aurelio de Laurentiis seja famoso por fazer jogo duro para vender suas estrelas.
Paulo Dybala, com 115 gols, e Cristiano Ronaldo, com 101, ainda ficaram a cerca de um terço dos 290 de Alessandro Del Piero pela Juventus. Ronaldo fez isso em três anos, então, vá lá, poderia ter alcançado a lenda se ficasse mais cinco ou seis em Turim, mas a queda de rendimento recente deixa em dúvida se conseguiria impor o mesmo ritmo. Apenas por curiosidade, sabe qual o jogador do elenco atua com mais gols pela Velha Senhora? Leonardo Bonucci, com 37. Não será ele. O Milan também não deve passar por esse momento em breve. Gunnar Nordahl é seu artilheiro, com 221 gols. Andriy Shevchenko, com 175, chegou perto. Do elenco atual, muito jovem e com pouco tempo de casa, o mais próximo é Zlatan Ibrahimovic, com 84. Ele tem 41 anos. Também não vai rolar. A melhor aposta seria Rafael Leão, com 36, mas eu não faria essa aposta.

Na Lazio, Ciro Immobile bateu o recorde de Silvio Piola em novembro de 2021. E mais do que isso: segue jogando, fazendo gols e abriu uma boa vantagem. Está com 190. A lista da Roma tem uma configuração interessante. Não é tão difícil chegar nas primeiras posições. Edin Dzeko precisou de cinco anos para ser o terceiro colocado, com 119 gols. Mas quem alcançará os 307 de Francesco Totti? Provavelmente não será Stephen El Shaarawy, com 51. Nem Lorenzo Pellegrini (40) ou Tammy Abraham (33).
Entrando nas potências europeias, nem adianta gastar saliva com Bayern de Munique e Barcelona. Gerd Müller fez 523 gols pelos bávaros. Para se ter uma ideia, Robert Lewandowski, com tudo que fez, marcou “apenas” 344. E Lionel Messi tem 672 gols pelos catalães. Também esquece. Uma marca que será difícil de alcançar, embora nem tão impossível, é a de Cristiano Ronaldo pelo Real Madrid, com 451 gols. Curiosamente, o segundo colocado da lista está em atividade: Karim Benzema, com 336 gols. Não é uma diferença tão grande, mas o francês teria que jogar até mais ou menos 40 anos em altíssimo nível, o que é bastante raro.

Uma marca possível é no Atlético de Madrid. Antoine Griezmann tem 148 gols e está com o recorde de 172 de Luis Aragonés no horizonte. Daria para tirar essa diferença ao longo da próxima temporada, mas o meia-atacante francês não está em uma fase particularmente goleadora, e o futuro do clube, em um clima de fim de feira danado, ficará bem incerto se Diego Simeone for embora.
O maior artilheiro da era pós-Bundesliga do Borussia Dortmund é Michael Zorc, com 159 gols, ex-chefe de Marco Reus, que tem 156 e pode muito bem ultrapassá-lo. À frente dos dois, está a lenda Adi Preissler, um notável atacante do pós-Segunda Guerra Mundial. Um perfil no site do Dortmund credita 202 gols a ele durante a sua segunda passagem pelo clube e não especifica quantos marcou na primeira. De qualquer maneira, Reus, com 33 anos, histórico de lesão e a meses do fim do seu contrato, não deve se aproximar o bastante para uma conta precisa se tornar mais relevante.
Ah, o PSG? Volte neste espaço semana que vem porque Kylian Mbappé está a apenas quatro gols de superar os 200 de Edinson Cavani.



