Zagueiros que viram atacantes e ‘maluquice’: Como Tottenham foi do conservador ao arriscado com novo técnico
Igor Tudor chega com ideias ousadas e promete virar os Spurs do avesso em comparação com Frank
Igor Tudor é o novo treinador do Tottenham. Depois de demitir Thomas Frank, que se mostrou pragmático e conservador, os Spurs apostam em um nome que pode mudar completamente a forma de jogar da equipe.
O ex-zagueiro croata teve passagens mistas com momentos positivos e negativos por onde passou nesta década. Recentemente na Juventus, onde durou apenas 24 jogos, solidificou seu estilo: com grande impacto nos zagueiros, mobilidade e agressividade com trocas de posições.
O que deve mudar no Tottenham de Tudor
O esquema principal do técnico é um 3-4-2-1 que conta com diferentes tipos de rotações nos posicionamentos originais dos jogadores. Mas os principais nomes são os zagueiros.
Os dois zagueiros mais abertos geralmente avançam com e sem bola, e geram problemas para a marcação adversária por dois principais motivos:
- Em uma era de pressão alta e individual, se um zagueiro avança e é acompanhado, há mais espaço para a construção;
- Se o opositor não acompanha o zagueiro, então criou-se um novo jogador livre para receber à frente.
Basta haver a dúvida na marcação para o efeito ter sucesso: frações de segundo de indecisões já são passíveis de serem punidas no alto nível, principalmente com uma construção veloz e zagueiros rápidos e técnicos para subirem no campo.
Muitas vezes, um dos zagueiros abre como lateral durante a construção e o ala deste lado avança, formando uma espécie de 3-4-3-1, contando com o goleiro na primeira linha de construção.

Essa abertura dos zagueiros faz com que eles arrastem seus marcadores para os lados e abram espaço para o passe do goleiro por dentro, para os volantes. Novamente, cria-se um efeito dominó de dúvida: se ninguém subir para marcar o volante, ele estará livre para girar e progredir; se ele for marcado, provavelmente um dos “camisas 10” entrelinhas terá espaço.
Esse estilo pode casar com o elenco atual dos Spurs. Principalmente pensando que Micky van de Ven é um zagueiro rápido e de boa condução, e volantes como Archie Gray e João Palhinha têm jogado como zagueiros na equipe, a ideia de avançar e ocupar diferentes posições pode não ser tão absurda.
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Rotações, interpretações e priorização do tempo e espaço
Para Tudor, as movimentações dos zagueiros abrem um leque para diferentes formas de construir. Na Juventus, era comum ver Bremer, por exemplo, avançar para o meio e Locatelli, o volante, abrir para a lateral. O brasileiro poderia ficar livre pelo meio, ou, caso o opositor de Locatelli preferisse proteger a região central, deixaria o volante livre pelo lado.
Com tempo e espaço, Locatelli então poderia fazer passes de ruptura para encontrar os meias entrelinhas ou passes longos para o centroavante em profundidade. O importante para o treinador é gerar a confusão da defesa — a partir disso, o jogo se torna interpretativo de onde haverá espaço.
O grande problema do Tottenham atual é justamente não ter alguém como Locatelli no meio-campo. Mesmo com diversos jogadores intensos, no estilo box-to-box e que pressionam bem, como Conor Gallagher, Pape Matar Sarr e Rodrigo Bentancur, falta um volante controlador, que consiga progredir em curto espaço e tenha uma variedade de passes.

O que pode ter sucesso, no entanto, é a dinâmica entre os alas e os camisas 10. Eles constantemente mudam de posição, com meias abrindo e alas atacando os meio-espaços. Isso gera confusão nos volantes adversários na hora de acompanhar os meias e criar vantagens em zonas de perigo.
Idealmente, é possível imaginar um cenário em que Xavi Simons e Mathys Tel ou Mohamed Kudus sejam esses jogadores por dentro. Pedro Porro seria um ala que se aproveitaria muito de situações entrelinhas, como aconteceu nos primeiros momentos de Ange Postecoglou, por ser criativo e ter boa chegada à área, assim como Destiny Udogie.
Djed Spence é outro lateral versátil que pode jogar de pé trocado e ter vantagem com as trocas de posição, e Souza, jovem brasileiro recém-chegado do Santos, pode ganhar espaço. Saudáveis, Lucas Bergvall, James Maddison e Dejan Kulusevski seriam ótimas opções para serem camisas 10 com grande mobilidade e liberdade para abrir e criar de diferentes áreas.
Thomas Frank transformou o Tottenham em um time previsível na construção e chegada ao último terço na atual temporada. Com Tudor, a tendência é que seja uma equipe com diferentes formas de agredir o adversário.
O risco defensivo da ousadia de Tudor
A ideia de ver van de Ven avançando pelo meio-espaço e atacando a área recebendo um passe de fora para dentro é algo que certamente deve acontecer com o Tottenham de Igor Tudor. E combina com as peças envolvidas.
Mas isso via exigir compensações defensivas complexas de diferentes jogadores. Da mesma forma que haverá a interpretação de espaços para atacar as melhores brechas criadas a partir da troca de posições, esse entendimento também precisa acontecer para proteger o espaço deixado livre — mesmo quando o time tem a bola.
Getting to work 💪 pic.twitter.com/EV9kKnLK8H
— Tottenham Hotspur (@SpursOfficial) February 17, 2026
Esse foi um dos pontos de maior dificuldade para o técnico na Juventus. A equipe sofria constantemente em transições defensivas e diversas vezes era pega com pouca proteção para defender contra-ataques, principalmente vindo de lançamentos longos.
Uma saída para isso é minimizar os espaços já no início da transição: ou seja, pressionar alto e forte. Tudor é adepto de uma pressão individual que procura sufocar adversários e impedi-los de construir por baixo.
A pressão intensa do croata também dá liberdade para que jogadores deixem seus opositores diretos para dobrar a marcação e aumentar as chances de sucesso nos duelos. É um estilo que também adota risco: caso o adversário passe pela pressão, definitivamente estará em vantagem numérica.
Apesar dos riscos no ataque e na defesa, e de um estilo muito intenso e com trocas complexas em um time que tem sido bombardeado por lesões, a chegada de Igor Tudor por não ser a mais certeira de sucesso. Ainda assim, leva ao Tottenham algo que a torcida parece clamar: deixar de lado um estilo pragmático, pouco “alegre” e que passou a ser previsível e encontrar muitas dificuldades com a bola com Thomas Frank.



