Espanha

Por que os analistas estão obcecados pelo Racing Santander e o que isso tem a ver com Diniz

Estilo que foge do padrão no alto nível e escola 'popularizada' por Fernando Diniz chamam atenção

Às vezes, o futebol mais atraente e criativo não é jogado necessariamente pelos principais times do mundo. E o Racing Santander, que lidera a segunda divisão do futebol espanhol, é um exemplo disso.

O time de José Alberto tem 50 gols marcados em 23 jogos no campeonato, nove a mais do que o segundo melhor ataque e 14 em relação ao terceiro. E mesmo com a 5ª pior defesa de LaLiga 2, a equipe domina a divisão e chama atenção de analistas e torcedores neutros.

O motivo? O Racing joga um futebol que foge da tendência de estruturas fixas e ocupação racional dos espaços em campo. O estilo que encanta, confunde e atiça quem vê tem muito em comum com os conceitos de relacionismo e, claro, seu principal “expoente” no alto nível, Fernando Diniz.

Racing, relacionismo e os conceitos do futebol

A ideia de José Alberto leva ao time um estilo de alto risco e alta recompensa, reforçado pelo alto número de gols feitos e sofridos. O Racing pode não vencer todos os jogos, apesar de fazê-lo na maioria das vezes, mas entretém em todos eles.

Entretenimento no futebol, evidentemente, é subjetivo. Há quem goste mais do clássico “kick and rush“, enquanto outros preferem retrancas dignas de catenaccio. Mas fugir do padrão com ideias do relacionismo tem se mostrado uma forma popular de chamar a atenção no cenário atual.

O relacionismo é um conjunto de ideias que não foi alvo de estudos em universidade e nem rendeu pesquisas científicas, como o Jogo de Posição — seu principal “concorrente”. Mas se tornou um conceito popular entre analistas e entusiastas.

Racing jogou contra o Barcelona na Copa do Rei
Racing jogou contra o Barcelona na Copa do Rei (Foto: Imago)

O foco do relacionismo passa por um jogo de aglomerações propositais, rotações, trocas de posições e posse de bola com tabelas e valorização de aspectos “lúdicos” do jogo, com sistemas flexíveis e sem ocupação tão racional dos espaços.

Apesar das opiniões divididas sobre seus trabalhos, é uma filosofia que Fernando Diniz popularizou desde o Audax, em 2016: jogadores que se movimentam para o lado da construção, atacantes que recuam e trocas de posições em estilo carrossel.

Mesmo sendo um conceito crescente, no entanto, José Alberto já disse em entrevistas que não necessariamente pensa nessa definição ou sobre a nova escola que tem criado. Mas já explicou o que está por trás da sua filosofia:

“É um modelo divertido para o torcedor. Queremos ser corajosos tanto ofensivamente quanto defensivamente. Durante a fase ofensiva, tentamos focar nosso jogo nas relações e interações entre nossos jogadores. Somos o time com mais passes curtos no campeonato”, disse em entrevista ao “Total Football Analysis”, no início de 2025.

Todos esses modelos de jogo posicional que se tornaram tendências são muito bons, mas também tendem a ancorar o jogador para jogar de certas posições. Tentamos totalmente o oposto“.

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Como joga o Racing Santander de José Alberto

O Racing parte de um 4-2-3-1 na maioria dos seus jogos e a ideia principal é levar o maior número de jogadores à região central no ataque. Na prática, não há pontas no sistema de José Alberto.

Quando a bola vai aos lados, é o lateral quem dá a maior amplitude, mas é apoiado por um grande agrupamento de jogadores no setor. Diferente de times que ocupam espaços de maneira mais estrita, quase nunca haverá um jogador do outro lado do campo para alargar a defesa ou se tornar homem livre.

“Aproximamos nossos jogadores, atuando como facilitadores para que as interações entre eles não sejam percebidas como esforços individuais isolados, mas sim como associações que multiplicam as opções para marcar gols, progredir e criar o maior número possível de oportunidades de gol”, explicou o treinador, ao Total Football Analysis.

Para chegar à sua ideia central, o Racing constrói de forma ousada e diferente de muitos outros times. No tiro de meta, por exemplo, um dos volantes fica literalmente ao lado do goleiro, no meio dos zagueiros, enquanto os laterais avançam e os demais jogadores ocupam espaços na faixa central do campo.

A partir disso, o volante pode abrir o jogo com um dos laterais e já se aproximar do lado, ou, quando a bola sai pelo zagueiro, o volante tende a fazer uma ultrapassagem por trás para estar livre pelo lado deste zagueiro.

Exemplo de saída de bola do Racing, com volante atrás e todos pendendo ao lado da bola
Exemplo de saída de bola do Racing, com volante atrás e todos pendendo ao lado da bola (Foto: Tactical Board)

Esse estilo de construção, inclusive, é muito efetivo contra sistemas de pressão alta e individual. Como o opositor do volante não pode acompanhá-lo dentro da área, ele vira um novo jogador livre, para além do goleiro — e, na maioria das vezes, o Racing estará em vantagem numérica.

Por conta disso, e também por não enfrentarem equipes do mais alto escalão que poderiam ter defesas mais coordenadas, geralmente os adversários do Racing não os pressionam tão ferozmente. Isso permite que a equipe comece sua construção, em diversas ocasiões, já mais próxima ao círculo central.

Chegada ao ataque em grupo e com passes curtos

Mesmo que não seja o líder em posse de bola, o time de José Alberto é o último colocado na tabela em passes longos por partida. Isso ilustra a ideia do treinador: progredir com passes curtos, tabelas e jogadores muito próximos uns dos outros.

O foco no corredor central também é visto no baixo número de entradas na área pelas laterais (apenas o 15º time em cruzamentos por jogo). Tanto que seu principal jogador, Inigo Vicente, é um meia armador que atua como “ponta-esquerda” — e tem os melhores números de LaLiga 2 em criação de chances e assistências.

A criação pode iniciar com a bola pela lateral, como nos exemplos de saída de bola que buscam o lado para criar superioridade numérica. Mas, a partir daí, o ataque é diagonal e busca sempre o meio.

José Alberto, técnico do Racing
José Alberto, técnico do Racing (Foto: Imago)

É comum ver o centroavante e os dois pontas ocupando o mesmo espaço entrelinhas. E isso acontece porque, desta forma, é mais fácil de criar contramovimentos entre esses jogadores e manipular defensores. O centroavante pode se movimentar para a esquerda e abrir espaço para um dos pontas atacá-lo com vantagem cinética e sem um marcador à sua frente.

Problemas já conhecidos na defesa

Mesmo liderando a segunda divisão espanhola, o Racing está muito longe das melhores defesas da liga. E os problemas são os já conhecidos dos times adeptos ao relacionismo: contra-ataques.

Como muitos jogadores estão agrupados próximos uns aos outros, é fácil para o adversário, quando recupera a bola, ter vantagem numérica e cinética para contra-atacar. Isso é ainda mais grave quando se lembra que o time está sempre pendendo para um lado: é fácil de ser pego com inversões de jogo.

O fato de seus pontas serem, na verdade, meias, também é um fator de preocupação. Eles geralmente não ocupam os lados do campo para defender, e José Alberto tenta rebater isso com um 4-5-1 defensivo, fazendo a linha do meio mais espaçada para ocupar toda a extensão do campo. Mas, ainda assim, o tempo de deslocamento do meio para o lado é crucial para equipes aproveitarem e progredirem.

Ainda assim, é um risco calculado. O fato dos pontas estarem mais próximos ao meio é uma forma de, caso recupere a bola, o Racing terá vantagem para sair em contra-ataques, além de facilitar nos momentos de pressão quando houver gatilhos.

O sucesso dos espanhóis é, justamente, saber usar com grande eficácia um sistema de alto risco e alta recompensa. Claro que os riscos também resultam em gols sofridos e derrotas, mas a recompensa já se mostrou boa o suficiente para arriscar.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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