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O futebol da Holanda está diante de uma encruzilhada

Ibrahim Kargbo é um jogador de Serra Leoa. Capitão da seleção, 32 anos, o volante atua hoje no Atlético Clube de Portugal, da segunda divisão lusa. Fez toda a carreira em clubes pequenos. A United Wansheng (Vansen, na versão ocidental) International Sports Development Limited é uma companhia chinesa de marketing esportivo, fundada em 2008, que ajudou na organização de eventos como as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim, e nas três vezes que o estádio nacional de Pequim, o popular “Ninho do Pássaro”, sediou a final da Supercopa da Itália. Ambos, jogador e empresa, não se sobressaíram no futebol mundial. Todavia, são fatores que podem ter aberto brechas para que o futebol holandês trave contato próximo com problemas sérios na modalidade.

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Kargbo, por ser acusado de liderar um grupo de jogadores que aceitou dinheiro de apostadores de Cingapura, para contribuir com duas derrotas do Willem II (clube que defendeu entre 2006 e 2010), na temporada 2009/10 do Campeonato Holandês. E a United Wansheng, por ter dado fim a uma negociação arrastada nesta semana, tornando-se o maior acionista do ADO Den Haag.

A situação é um pouco mais séria no caso de Kargbo. Primeiramente, porque o leonês tem histórico de ser suscetível a pagamentos de apostadores. Basta lembrar que, em junho do ano passado, ele foi suspenso com mais três jogadores de seu país, por terem recebido dinheiro de manipuladores com relação a um jogo da seleção de Serra Leoa contra a África do Sul, em 2008, pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações. Mas a situação é séria principalmente porque a federação holandesa trombeteara em 2013 que uma comissão criada especialmente para averiguar a existência de manipulação de jogos na Holanda não encontrara nada de especial.

Até a reportagem do diário “De Volkskrant”, redigida pelos jornalistas Willem Feenstra e Menno van Dongen, e publicada no sábado passado. Ela noticiava que Kargbo e alguns colegas de time, cujos nomes não foram revelados, receberam 100 mil euros dos apostadores cingapurianos para que se “esforçassem” por derrotas do Willem II contra Ajax (17 de outubro de 2009, na 10ª rodada daquela Eredivisie) e Feyenoord (19 de dezembro de 2009, pela 18ª rodada).

Apontado como o líder do grupo e interlocutor dos apostadores, Kargbo teria atraído alguns colegas com uma frase: “Os asiáticos são homens de palavra. Se você cumpre o que eles pedem, eles sempre lhe pagam”. Contra os Ajacieden, a coisa até “deu certo”: 4 a 0. Como os cingapurianos apostavam numa derrota por no mínimo três gols de diferença, ganharam cerca de um milhão de euros, segundo o jornal. Já contra o Stadionclub, a derrota dos Tricolores ficou em 1 a 0, e a aposta era em derrota por dois gols. Ou seja, ninguém levou nada.

Obviamente, a denúncia ecoou forte num país que não está acostumado, pelo menos abertamente, a tais acontecimentos. Em nota divulgada no seu site, a federação holandesa informou que iria trabalhar em duas frentes, denunciando a eventual manipulação ao Ministério Público holandês e fazendo sua própria investigação, por meio de depoimentos de jogadores, técnicos e árbitros que estiveram na partida, e pelas imagens dos dois jogos onde havia atletas “comprados”.

Mas esta segunda frente já começou a se mover para que logo a denúncia fosse esquecida. Capitão do Willem II então, o zagueiro Arjan Swinkels se inocentou à revista “Voetbal International”: “Posso dizer uma coisa: não sei de nada. Nada mesmo. Eu surgi da base do clube. Não se prejudica seu clube nem seus companheiros pelas costas”. Hoje no Vitesse, outro zagueiro, Jan-Arie van der Heijden, desconversou à FOX Sports holandesa: “Sei tanto quanto vocês. Acho que a história é um pouquinho estranha. Nunca vi ninguém jogar para perder”. O lateral direito Marlon Pereira, no Cambuur, até acrescentou: “Nem sabia que tinha jogado aquela partida”. Finalmente, Kargbo jurou: “Não devo nada a ninguém, sempre fiz o meu melhor”.

Claro, houve quem pedisse investigações sérias. Como Danny Hesp, o presidente da federação holandesa de atletas profissionais: “Aparentemente, é uma história concreta. Todos esperamos que isso não tenha acontecido na Holanda. Mas os sinais são tais que os passos certos devem ser dados com base nessas informações”. E Alfons Groenendijk, o treinador do Willem II na época, lamentou: “Com minha comissão, eu ficava todos os dias inacreditavelmente empenhado em manter o time na Eredivisie, e punha a mão no fogo por meus jogadores. Sabe-se que isso ocorre na Europa, mas espera-se que fique longe de você. Agora se vê que não é assim, e isso me arrasa”.

De fato, como bem disse Groenendijk, a manipulação de jogos é um fenômeno tristemente frequente no futebol europeu. E se a comissão investigadora montada pela própria federação holandesa dizia notar indícios de manipulação em jogos na Bélgica e na Alemanha, é preciso ser muito ingênuo para achar que os grupos de apostas não estenderiam seus tentáculos a um país que faz fronteira com ambos. Aí, a responsabilidade é das partes que não se preocuparam em investigar. Nem em noticiar.

Autores de um livro bem vendido na Holanda (“Voetbal & Maffia”, ou “Futebol e máfia”), os jornalistas Iwan van Duren e Tom Knipping, ambos da “Voetbal International” lembraram num texto: no meio de 2014, o “NOS Jornaal”, telejornal da emissora pública holandesa, entrevistou um promotor alemão. Este disse que tinha indícios de manipulação em alguns jogos profissionais na Holanda. Ninguém foi atrás da história. E nem é preciso ir longe: na intertemporada recém-encerrada, ADO Den Haag e Heerenveen estranharam resultados e decisões dos árbitros em alguns amistosos. A ponto dos frísios terem deixado o campo, na partida contra o Standard Liège.

E o outro grande fenômeno que se consumou no futebol holandês foi a compra do ADO Den Haag pela United Wansheng. Uma compra arrastada: desde 2014 a empresa chinesa de marketing esportivo vinha travando negociações com os outros acionistas do clube. Pelo menos quatro datas foram fixadas como limite antes da última segunda, quando o negócio foi aparentemente fechado. O principal acionista do clube de Haia, Mark van der Kallen, enfim recebeu a quantia (não revelada) para que Hui Wang, presidente da empresa, passasse a ser o principal proprietário.

E tal demora já foi um bom motivo para que as desconfianças crescessem sobre Hui Wang e seu braço-direito, Chun Li (óbvio, não é AQUELA). Só que o diretor técnico do Den Haag, Maarten Fontein, esforçou-se para que a negociação tivesse êxito, fazendo várias viagens entre Haia e Pequim ao longo dos últimos meses. Por fim, Fontein explicou a excessiva demora: “Eu acredito neste diretor, e sei que ele se preocupa com o assunto todo dia”.

Há razões para a vontade do ADO Den Haag em fechar negócio: o clube pretendia reforçar o elenco ainda durante a atual janela de transferências, e pretendia celebrar o acordo com a United Wansheng como o grande “presente” dos 110 anos, a serem completados em 1º de fevereiro. Mas também existiam motivos para desconfiança: Van der Kallen e seu parceiro, Paul Beijersbergen, preferiram conversar pessoalmente com Hui Wang antes de fecharem o acordo. A explicação? “Nossa confiança não é ingênua”, alertou o principal acionista do Den Haag.

Claro, é bom saber que o clube auriverde terá oito milhões de euros para ainda tentar gastar em transferências. Mas é bom olhar o exemplo do Vitesse, que sonhava alcançar o título holandês exatamente na atual temporada quando Merab Jordania comprou o clube, mas viu o sonho naufragar nas turbulências internas com a diretoria. E será útil notar se o clube viverá um sonho de “novo rico” nos próximos meses – e com qual peso a conta chegará, algum tempo depois.

Manipulações e chegadas de empresas obscuras para comprarem agremiações tradicionais, mas sem muitos sonhos. Muito se ouviu sobre isso no futebol de outras nações europeias. E agora, essa realidade bate à porta do futebol holandês. E o país, a federação, os clubes, os jogadores, a imprensa, nenhuma dessas partes poderá afundar a cabeça no chão e deixar de encarar todas as consequências, boas e más, desse cenário. Será necessária muita fiscalização. E muito sangue frio para ninguém se deixar levar por um cenário atraente, mas extremamente artificial, cuja conta costuma ser salgada.

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