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Menos badalado que os companheiros, Van de Beek sublinhou seu talento com uma atuação grandiosa

Quando se mencionam os principais talentos deste Ajax que faz história na Liga dos Campeões, o nome de Donny van de Beek dificilmente é colocado entre os primeiros. De Jong cavou uma grande transação, De Ligt é o próximo da lista, David Neres arrebenta na competição continental, Ziyech assume a responsabilidade seguidamente. Até mesmo Dusan Tadic, longe de ser um novato, recebe os louros por sua reinvenção em Amsterdã. Van de Beek é um mero coadjuvante na faixa central, apesar do que constrói aos 21 anos. No entanto, o jogo contra a Juventus em Turim foi a oportunidade perfeita para o meio-campista chamar os holofotes para si. Comandou a reação dos Godenzonen e foi a chave perfeita para ligar a ignição da máquina de Erik ten Hag. Outro que pode mirar grandes voos na carreira, assim como ganhar a idolatria dos torcedores holandeses.

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O Ajax corre pelas veias de Van de Beek desde cedo. O garoto começou a frequentar a Amsterdam Arena quando tinha apenas cinco anos, levado pelo pai. E o sonho que se alimentava em seu peito o conduziu para dentro do clube seis anos depois, aos 11, trazido às categorias de base após dar os seus primeiros passos com o Veensche Boys. Tratado como uma grande promessa pelos Ajacieden, foi lapidado a cada nível rumo aos profissionais. Ganhou sua primeira oportunidade na equipe principal em 2015, aos 17 anos, aproveitado por Frank de Boer. Naquele mesmo ano, recebeu do clube o Prêmio Sjaak Swart, dedicado ao jovem da base que mais se destacou. Uma prova incontestável do que se esperava do meio-campista.

Van de Beek ganhou sequência no Ajax a partir de 2016/17. Naquela temporada, era um frequente substituto na Eredivisie e também participou da campanha até a decisão da Liga Europa, um feito e tanto aos garotos que impulsionavam a equipe de Peter Bosz. O meio-campista, porém, seria desafiado por uma imensa dor meses depois. Um de seus melhores amigos nas categorias de base era Abdelhak Nouri, com quem ascendeu passo a passo até o elenco principal. Van de Beek nunca escondeu seu vazio pelo incidente ocorrido com o colega, limitado a uma cama de hospital. Passaria a dedicar seus gols e suas conquistas não apenas a Appie, mas também à sua família, com quem manteve uma relação próxima.

A afirmação de Van de Beek como titular no Ajax aconteceu em 2017/18. Não foi uma boa temporada ao clube, mas o garoto contribuiu bastante com gols e assistências. Até que as esperanças voltassem a florescer nos últimos meses, sob as ordens de Erik ten Hag. A concorrência é vasta, considerando a qualidade dos jogadores que os Godenzonen possuem no setor ofensivo. Da mesma maneira, o camisa 6 não é o exímio passador que se espera no meio-campo desta equipe, de ritmo ditado por seus volantes e seus zagueiros. Não à toa, algumas partidas mais apagadas do jovem recebem as devidas críticas. Em compensação, é um meia agudo que se aproxima da área e participa bastante da definição. Algo que funcionou contra a Juventus, de maneira primordial.

Se a dinâmica do trio ofensivo do Ajax costuma bagunçar as defesas, com trocas de posição e muita movimentação, Van de Beek aproveita esses espaços. É um jogador que produz muito ofensivamente, por seus gols e suas assistências. Embora trabalhe incansavelmente sem a bola, auxiliando muito na pressão exercida pela marcação, gosta de partir para cima quando o time recupera a posse. Nesta terça, os juventinos não souberam como acompanhar o camisa 6. Ele viveu uma noite muito mais participativa que seu costume, tão influente quanto qualquer outro do trio de ataque. E mais decisivo. Poderia ter aberto o placar aos 21 minutos, mas exagerou na força. Já aos 34, estava no lugar certo para aproveitar o chute mascado de Ziyech e empatar a partida. Não sentiu o peso da ocasião e, talvez por estar abaixo do radar em relação aos seus companheiros, teve liberdade. Assim, indicou o tamanho do erro da Velha Senhora ao se descuidar.

No início do segundo tempo, Van de Beek se saiu ainda melhor. O meia se transformou em um fio condutor ao Ajax, que passou a dominar a partida. Os Godenzonen aceleravam no ataque e contavam com a conexão providenciada pelo camisa 6, bastante ativo nas tabelas envolventes criadas ao lado de seus companheiros. Wojciech Szczesny negaria um protagonismo maior ao garoto, evitando sua assistência a Ziyech e operando um milagre no tiro caprichoso em que o holandês buscou o ângulo. Mas não evitaria o sorriso do oponente, quando o vareio aplicado pelos Ajacieden enfim concedeu a virada. Se alguém merece o prêmio de melhor em campo, este é Van de Beek.

Na saída do estádio, Van de Beek expressou sua emoção e também seu caráter. Não se esqueceu da motivação que possui, de honrar a expectativas que recaem sobre si desde a base e também as de Nouri, fazendo uma relação entre o minuto em que o gol saiu e o número da camisa de seu amigo. “Você vê a emoção em todo mundo, eu também estou emocionado. Fantástico que tenhamos conseguido. Todo mundo enlouqueceu. Ir com o Ajax para as semifinais, quem pensaria? Todo mundo riria da gente se apostássemos nisso”, declarou à televisão local. “De Sciglio me dava condição, Bonucci disse imediatamente que estava valendo a jogada. Marquei o gol no minuto 34. Não pode ser coincidência, nunca mais me esquecerei”.

O estilo de jogo de Van de Beek pode reluzir menos que o de seus companheiros. Não é mágico como os homens de frente, não é consistente como os que atuam mais atrás. Em compensação, combina eficiência e objetividade, algo que vale bastante ao Ajax. Aos 21 anos, também possui uma longa estrada para amadurecer e ver seu futebol evoluir. Mas o presente já se faz um tanto quanto generoso ao meia, na semana de seu aniversário. O presente é ser um nome inescapável quando os torcedores holandeses se vangloriarem e recontarem a vitória histórica na Itália. O camisa 6 começou a tornar possível a difícil virada em Turim.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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