André Onana: “É incrível como uma pastilha de 40 miligramas pode destruir sua vida e sua carreira”
O goleiro de 25 anos retornou em novembro de uma suspensão de nove meses por doping - que ele afirma ter sido involuntário
André Onana afirmou que voltar a jogar após nove meses suspenso por doping foi como nascer de novo, criticou a rigidez da sua punição ao mesmo tempo em que admitiu que cometeu um erro “tonto”, embora diga que não teve a intenção de melhorar o seu desempenho com o uso de substâncias ilícitas.
Em entrevista ao Marca, o goleiro camaronês de 25 anos, que após defender Camarões também voltou a atuar pelo Ajax em 24 de novembro contra o Besiktas pela Champions League, abriu o coração sobre o período em que ficou afastado por doping.
Um teste antidoping realizado em 30 de outubro de 2020 encontrou a substância furosemida em sua urina. Em fevereiro, ele recebeu suspensão de um ano, depois reduzida para nove meses em apelação junto à Corte Arbitral do Esporte. Foi reintegrado ao elenco do Ajax como reserva de Remko Pasveer, mas está na reta final do seu contrato e já anunciou que irá buscar um novo clube.
Segundo Onana, após jogar contra a Atalanta pela fase de grupos da Champions League, chegou em casa de madrugada com dor de cabeça e decidiu tomar um remédio que lhe havia sido receitado chamado Litacol. Mas se confundiu e acabou ingerindo uma pastilha parecida, Lasimac, de sua mulher, que havia acabado de dar à luz, usada para a retenção de líquidos.
Ele afirma que a Uefa reconheceu que foi um erro involuntário porque “essa pastilha não ajuda a melhorar o rendimento”, acha que a punição foi muito rígida, mas que “é a lei e tive que cumprir a sentença”. Alertou os colegas de profissão para sempre estarem cientes do que ingerem porque “você é responsável por tudo que entra em seu corpo”.
“É incrível como uma pastilha de 40 miligramas pode destruir sua vida, sua carreira, manchar a sua imagem. Psicologicamente, é muito duro. Eu pensava: ‘Como digo a meus pais que dei positivo no doping, se eu nunca fumei nem bebi na minha vida?’. Fala-se de doping, mas o que eu tomei, repito, foi uma pastilha de retenção de líquidos. Cometi um erro humano. Foi tão duro que até eu às vezes duvidava de mim. Você aprende com isso e fica mais forte. Percebe que no futebol não há humanidade. Para alguns, somos robôs e não temos direito a errar”, disse.
Onana criticou a extensão da sua punição e a redução em apenas três meses. “Achei uma barbaridade. Um goleiro não corre e dei positivo para uma pastilha de perder peso quando não tinha líquido retido. A CAS rebaixou a sanção porque percebeu que era um tanto injusta. Era tempo demais para uma pastilha que não ajuda em nada”, disse. “O futebol e a vida não são fáceis. Esses erros são punidos e tive que pagar. É difícil, mas é a lei”.
O goleiro montou uma equipe com 17 pessoas, incluindo preparador físico, treinador de goleiros e psicólogo, para se manter em forma durante a punição porque não podia trabalhar com técnico certificados. Parece ter dado certo porque ele retornou aos gramados em novembro pela seleção camaronesa e fez defesas importantes para ajudar o time a chegar à fase final das Eliminatórias Africanas para a Copa do Mundo.
“Voltar a jogar foi como voltar a nascer. Em Camarões, me apoiaram desde o primeiro minuto e, quando voltei, não esperava jogar, mas o técnico (Toni Conceição) disse: ‘André, você é meu guerreiro e sei que vai me classificar’. E eu pensei: ‘Não jogo há nove meses! Espero poder retribuir a confiança que ele está me dando’. Tudo correu bem”, contou.
No Ajax, a situação é diferente. Ele perdeu espaço para Pasveer e deixará o clube ao fim do seu contrato, quando a atual temporada do futebol europeu terminar. São muitas as especulações. As mais fortes o colocam na Internazionale ou no Barcelona, clube que defendeu na base e que ainda considera a sua casa.
“Voltar a me sentir jogador de elite é o máximo. Se jogar, perfeito. Se não jogar, estarei apoiando e darei o meu melhor. Fala-se muito. Colocaram-me no Barcelona, na Internazionale, no Arsenal, Lyon, Nice, Monaco… enquanto estava em casa punido. Não sei. O certo é que fizemos um acordo com o Ajax e estou grato pela oportunidade que o clube me deu. Agora, após quase sete anos, acredito que é o momento para dar um passo à frente, dar lugar a outros. O Ajax sempre dá oportunidade a jovens e há muitos goleiros na base esperando essa oportunidade”, disse.
“Tenho que sair. Para onde não sei, mas preciso de algo novo para me medir com os goleiros de primeiro escalão”, encerrou.



