Histórias Olímpicas

Oribe Peralta, o homem que fez o México vencer como nunca em Londres-2012

“Jogou como nunca, perdeu como sempre”. A manchete que virou meme é atribuída ao jornal mexicano Excelsior no dia 17 de junho de 1997, um dia após a seleção do México ser derrotada por 3 a 2 pelo Brasil em jogo da primeira fase da Copa América disputada na Bolívia, em que La Tri chegou a abrir 2 a 0 e acabou levando a virada por 3 a 2. E foi novamente lembrada nesta quinta-feira, quando o Tigres deu algum trabalho ao Bayern na final do Mundial de Clubes.

Mas hoje vamos lembrar aqui o dia em que o México jogou e venceu como nunca, no templo de Wembley, conquistando a inédita medalha de ouro no futebol dos Jogos Olímpicos ao vencer o Brasil na decisão de 2012, e do centroavante responsável pela conquista, Oribe Peralta, então já um “veterano” de 28 anos em meio a garotos.

Para lembrar a primeira vez que os Jogos Olímpicos aconteceram em Londres, em 1908, aperte o play abaixo e escute o nosso episódio #4. Ou clique aqui para acessar o Medium do OlimpCast e ouvir todos os episódios.

Revelado pelo Morelia, o jovem Oribe tinha 21 anos, havia passado por León e Monterrey e defendia o Chivas em março de 2005, quando fez sua estreia pela seleção mexicana nos minutos finais de um empate por 1 a 1 com a Argentina, em Los Angeles. Ele havia sido emprestado pelo time de Guadalajara para disputar a Libertadores, mas teve poucos minutos na boa campanha da equipe, eliminada pelo Athlético Paranaense nas semifinais. Voltou ao Monterrey, mas continuou sendo pouco aproveitado e acabou perdendo a chance de disputar a Copa de 2006.

Jogando pelo Santos Laguna, Peralta se firmou como um dos bons centroavantes em ação da Liga MX e, em 2011, voltou a ser lembrado pela seleção, com a missão de ser um dos veteranos a reforçar a equipe sub-22 da casa na disputa dos Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara. Cumpriu a tarefa com louvor: marcou nas três partidas da primeira fase, vitórias sobre Equador e Uruguai e empate com Trinidad e Tobago, e fez os três na vitória por 3 a 0 sobre a Costa Rica, nas semifinais. Na decisão, a vitória por 1 a 0 sobre a Argentina teve gol de Jeronimo Amione.

Em abril de 2012, a Concacaf realizou seu Pré-Olímpico, apenas com jogadores de idade olímpica (até 23 anos, como sabemos). Peralta ficou de fora, e quem brilhou foi Marco Fabián jovem estrela do Chivas. Mas, na hora de ir a Londres, o técnico Luis Fernando Tena não quis desperdiçar a chance de aumentar a experiência do time, levando Oribe Peralta, o goleiro Jesus Corona e o zagueiro Carlos Salcido.

Na estreia, o México empatou com a Coreia do Sul por 0 a 0, e Peralta saiu no meio do segundo tempo para a entrada de Giovanni dos Santos, o astro precoce revelado pelo Barcelona que já tinha passado por Tottenham Hotspur, Ipswich, Galatasaray e Racing Santander, sem convencer. No jogo seguinte, Peralta passou em branco e Giovanni saiu do banco para substituir Hector Herrera e marcar os dois gols na vitória por 2 a 0 sobre o Gabão.

Peralta só foi marcar contra a Suíça, na vitória por 1 a 0 que selou a classificação mexicana em primeiro lugar no Grupo B, escapando do confronto contra a seleção britânica, dona da casa, e dando à equipe a chance de jogar em Wembley pela primeira vez. Mas o duelo contra Senegal foi tenso: La Tri abriu 2 a 0 com Enriquez e Aquino, mas levou o empate, com Konaté e Baldé. Na prorrogação, Giovanni e Herrera fizeram os gols que colocaram o México nas semifinais. Peralta foi substituído por José Jimenez no segundo tempo extra.

Vieram então as semifinais, com vitória por 3 a 1 sobre o Japão, que saiu na frente, com gol de Yuki Otsu. Mas os mexicanos empataram ainda no primeiro tempo, com o primeiro gol de Fabián nos Jogos, e viraram na etapa final: Peralta marcou o gol do desafogo, aos 20 minutos, e Javier Cortés liquidou a fatura nos acréscimos.

O feito já era histórico: pela primeira vez o México tinha uma medalha garantida no futebol. Naquela edição, o país já tinha conquistado sete medalhas: três nos saltos ornamentais, duas no tiro com arco, uma no taekowndô e outra no levantamento de peso, mas nenhuma de ouro. E o duelo pelo título do futebol, no dia 11 de agosto, em um dos estádios mais famosos do mundo, seria contra outra potência sedenta pelo ouro olímpico inédito até então: o Brasil, liderado por Neymar e que tinha o goleador do torneio, Leandro Damião, com seis gols.

E Peralta precisou de nem 30 segundos para abrir o placar. Depois de um chutão da defesa, o lateral brasileiro Rafael tentou dominar, se atrapalhou e deixou de lado com o volante Rômulo, mas Aquino foi mais esperto e tomou a bola, rolando de lado. O camisa 9 deu um toque na bola para ajeitar e outro para fuzilar o goleiro Gabriel, que havia acabado de se transferir do Cruzeiro para o Milan e hoje defende o Lecce.

O Brasil até pressionou, mas não conseguiu o empate, exagerando nas jogadas individuais. Do lado mexicano, Fabián perdeu duas chances claras de ampliar. E, aos 29 minutos, veio o gol do desafogo: Fabián cobrou falta da direita e Peralta, que esperava no segundo pau, correu em direção à bola para surpreender os zagueiros brasileiros, aparecer no vazio e cabecear livre para o gol.

Peralta saiu aos 41 minutos e viu do banco, aos 45, Hulk marcar o primeiro gol brasileiro; aos 46, Fabián perder mais uma chance cara a cara com Gabriel; e, aos 47, Oscar receber cruzamento de Hulk sozinho na pequena área e cabecear para fora. Após a cobrança do tiro de meta por Corona, o árbitro Mark Clattenburg apitou o fim do jogo e o início da festa mexicana. No vídeo abaixo, os melhores momentos na transmissão da TV Azteca. Neste link, o canal do COI tem a íntegra da partida.

Os gols de ouro enfim garantiram a Peralta a chance de se firmar na seleção principal do México. Foi decisivo na tensa campanha das Eliminatórias da Copa de 2014, marcando cinco gols no torneio da Concacaf e outros cinco nas duas vitórias da repescagem contra a Nova Zelândia – dois nos 5 a 1 em casa, três nos 4 a 2 em Wellington. Na Arena das Dunas, em Natal, marcou o gol da vitória da estreia mexicana no Mundial, 1 a 0 contra Camarões.

A essa altura, já havia se transferido para o América, onde somou mais três títulos nacionais aos dois que havia conquistado com o Santos Laguna e a outro vencido com o León, lá no início da carreira. Ganhou também duas Concachampions pelo América, e com a seleção venceu ainda a Copa Ouro e a Copa Concacaf, ambas em 2015. Na Copa de 2018, entrou apenas no jogo contra a Suécia, e anunciou sua despedida da seleção. Em 2019, transferiu-se para o Chivas. Aos 37 anos, Peralta segue mostrando que ainda tem alguma lenha para queimar. E sabe que será para sempre lembrado como o homem que levou o México a uma histórica e improvável vitória, o dia em que o México jogou como nunca… e venceu.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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