Histórias Olímpicas

Kameni, o garoto prodígio de Camarões em Sydney-2000

A primeira vez que Idriss Carlos Kameni tocou na bola naquela tarde de 30 de setembro de 2000 foi para buscá-la no fundo do gol. A seleção de Camarões ainda não tinha tocado na bola quando Raúl Tamudo recebeu um passe longo vindo da defesa da Espanha e foi parado por um carrinho de Joel Epalle quase na risca da área, do lado direito da área. Kameni armou a barreira protegendo o lado direito do gol; não contava com a classe de Xavi Hernandez, que bateu no contrapé, acertando a lateral esquerda da rede. O relógio ainda não tinha chegado a um minuto e meio e a seleção espanhola estava na frente na final dos Jogos Olímpicos de Sydney.

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Camarões ainda equilibrou o jogo, mas não conseguiu chegar ao empate. E a Espanha aproveitou sua melhor chance, já nos acréscimos, para fazer 2 a 0 com Gabri. A sorte parecia ter deixado de sorrir para os jovens Leões Indomáveis, que já haviam feito alguns milagres e tomado algumas decisões ousadas para estar ali naquele momento. Uma delas, do técnico Jean-Paul Akono, se mostraria acertada: colocar Kameni, de apenas 16 anos, como titular para os jogos de mata-mata.

O garoto nascido na capital Douala havia acabado de acertar uma transferência para o Le Havre, da França, e nunca havia feito um jogo sequer como profissional. Mas as inseguras atuações de Daniel Bekono na fase de grupos por pouco não haviam comprometido a classificação, e era preciso arriscar.

Camarões chegou a Sydney após vencer com tranquilidade um mata-mata contra o Congo e de ficar em primeiro num grupo com África do Sul (que se classificou depois na repescagem), Gana e Guiné. A geração era promissora: com jovens como Samuel Eto’o, Lauren Etame-Mayer, Geremi Njitap e Pierre Wome à disposição, Akono levou apenas o atacante Patrick M’Boma, então com 29 anos, e o zagueiro Serge Mimpo, de 26, como jogadores acima de 23 anos.

Na estreia pelo Grupo C, uma vitória mais complicada que o esperado sobre o Kuwait, por 3 a 2, já deixou a comissão técnica ressabiada. Bekono saiu mal no escanteio que resultou no segundo gol do time árabe. No jogo seguinte, contra os Estados Unidos, os Leões venciam por 1 a 0 quando, no segundo tempo, o goleiro fez um pênalti bobo em Josh Wolff, que era acompanhado por um zagueiro; Vennegas bateu e empatou.

O duelo contra a República Tcheca valia a classificação e os africanos, que jogavam pelo empate, saíram na frente mais uma vez, com Lauren, na etapa inicial. No segundo tempo, após uma falta de longe, Bekono bateu roupa e Lukas Dosek empatou. Os europeus pressionaram, mas Camarões segurou a igualdade e garantiu a classificação em segundo lugar na chave, atrás dos norte-americanos.

O adversário das quartas só seria conhecido no dia seguinte, com a definição do embolado Grupo D. O Brasil, que vinha de vitória por 3 a 1 sobre a Eslováquia e derrota pelo mesmo placar para a África do Sul, suou sangue para vencer o Japão por 1 a 0, gol de Alex logo no começo, e garantiu o primeiro lugar, aparecendo no caminho dos africanos.

Era uma seleção forte no papel, com Alex, Ronaldinho Gaúcho, Athirson e Helton, mas que não se acertava. Para piorar, o técnico Vanderlei Luxemburgo chegava pressionado pela instabilidade do time principal nas Eliminatórias e ainda enfrentava investigações sobre uma adulteração de idade que corriam no Brasil em meio a CPIs que apuravam irregularidades na CBF. Ao mesmo tempo, Luxa se mostra tão confiante no time que abriu mão de levar os três jogadores acima de 23 anos, acreditando que os jovens dariam conta. O maior pedido, na época, era para levar Romário.

Camarões, claro, não tinha nada a ver com os problemas do adversário. E naquela noite de sábado, 23 de setembro, em Brisbane, apareceu em campo com uma surpresa: Carlos Kameni em campo. O garoto de 16 anos vestia calça comprida da Adidas que não combinava com os uniformes da Puma e camisa cinza com o número 18. E não se impressionou: já tinha feito duas defesas, em chutes de Athirson e Fabiano, antes dos 16 minutos, quando M’Boma acertou um canhotaço de falta para abrir o placar.

Seguro, o time de Camarões poderia ter segurado sem muitos problemas um Brasil nervoso e confuso, que quase não criou chances reais e deu pouco trabalho a Kameni no segundo tempo. Mas Geremi foi expulso por fazer cera numa cobrança de lateral a dez minutos do fim, a pressão dos canarinhos se acentuou e, aos 45, Nguimbat agarrou Alex quase na linha da área. Falta, mais um cartão vermelho e, na cobrança, Ronaldinho acertou o canto alto esquerdo, sem chance para Kameni: 1 a 1.

Com 11 contra 9, a vitória brasileira na prorrogação com gol de ouro parecia questão de tempo, uma chance de vingar a derrota sofrida para outra seleção africana quatro anos antes em Atlanta, nas semifinais, diante da Nigéria. E o time amarelo começou mesmo voando: aos 10 segundos, Geovanni cruzou da direita e Kameni bateu roupa, mas conseguiu se recuperar antes que Ronaldinho chegasse para a cabeçada. Depois de outras ameaças, o Brasil chegou a marcar, com Fabiano, mas o gol foi anulado num impedimento pessimamente marcado.

As chances perdidas foram enervando o Brasil e, aos sete minutos do segundo tempo extra, na primeira chegada sólida de Camarões, Modeste M’Bami bateu de fora da área e definiu a vitória dos Leões. Vanderlei Luxemburgo foi demitido na volta ao Brasil e Ronaldinho teve sua redenção em 2002 na Copa do Mundo, mas essas são outras histórias.

O fato é que Kameni convenceu o técnico e se manteve como titular na semifinal, contra o Chile. O empate sem gols seguiu até os 32 minutos do segundo tempo, quando os chilenos puxaram um contra-ataque, Gonzalez chutou, Kameni defendeu e a bola bateu no zagueiro Patrice Abanda, encobrindo o goleiro. Mas os africanos conseguiram a virada de forma expressa, com gols de M’Boma, aos 38, e Lauren, de pênalti, aos 42.

Veio então a já citada final contra a Espanha, aquela de péssimo começo para os camaroneses que citamos no início do texto. A Fúria começava a formar sua geração vencedora da década seguinte, e além de Xavi tinha Puyol e Capdevilla os nomes que ali iniciavam uma trajetória na seleção. E, como dizíamos, a decisão parecia sob controle – mas aquela ainda não era a Espanha vencedora, senhora dos jogos via tiki taka; e o castelo começou a ruir cedo. Aos sete minutos, Kome deu um passe em profundidade para o canhoto M’Boma, que bateu leve, de direita. Um meio chute meio cruzamento que parecia destinado ao nada – mas a bola desviou em Ivan Amaya e foi morrer nas redes. Cinco minutos depois, após rápido contra-ataque, Samuel Eto’o desencantou e empatou, com seu primeiro e único gol na Olimpíada.

O jogo seguiu equilibrado, com chances para os dois times, e os espanhóis visivelmente nervosos – e desta vez foi Camarões que viu o rival terminar com nove, após as expulsões de Gabri e José Mari, mas sem conseguir aproveitar a superioridade numérica, o que levou a decisão da medalha de ouro aos pênaltis pela primeira vez.

Kameni só acertou o canto em uma das cobranças espanholas, mas nem precisava: o chute de Amaya, o vilão da tarde, saiu alto demais e acertou o travessão. Foi o único a errar. Wome fechou a série em 5 a 3, e Kameni, aos 16 anos, se tornava o mais jovem jogador de futebol a ser campeão olímpico.

Abaixo, o vídeo com todos os gols da campanha, e é curioso ver as diferentes combinações de cores usadas por Camarões durante a campanha. Neste link do Olympic Channel você pode ver a íntegra da decisão, desde os hinos até a entrega das medalhas, sem narração, apenas com som ambiente.

Curiosamente, foi na Espanha que a carreira de Idriss Carlos Kameni ganharia impulso, depois de pouco jogar no Le Havre e no Saint-Etienne. Em 2004, transferiu-se para o Espanyol, onde fez história por superar o número de jogos do compatriota Thomas N’Kono. Ficou até 2012, quando se desentendeu com o técnico Mauricio Pochettino e acertou a ida para o Málaga, no qual permaneceu até 2017. Ainda teve tempo para uma passagem de dois anos pelo Fenerbahçe e não falou oficialmente em aposentadoria – voltou a morar em Málaga e no ano passado chegou a dizer que topava jogar “de graça” pelo clube da cidade.

Na seleção, teve uma carreira longa. Com 72 partidas e cinco convocações para a Copa das Nações, sendo três delas como titular, além de jogar na triste Copa das Confederações de 2003, marcada pela morte de Marc-Vivien Foé durante o jogo contra a Colômbia. Já o recorde de campeão olímpico no futebol, este parece destinado à eternidade.

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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