Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpcast.

Naquela noite de 27 de setembro, o Estádio Olímpico de Seul tinha dado folga às competições de atletismo dos Jogos Olímpicos. O palco que dias antes havia apresentado ao mundo a vitória trapaceira de Ben Johnson nos 100 metros rasos recebia uma das semifinais do futebol, com um duelo de gigantes: Alemanha Ocidental e Brasil, que até então nunca haviam se enfrentado numa Copa do Mundo, lutavam por uma vaga na final.

Os alemães saíram na frente com um gol de Fach, de cabeça, ainda no início do segundo tempo, numa cochilada da defesa brasileira após cobrança de falta. O Brasil pressionou e conseguiu o empate aos 35 minutos, numa cabeçada de Romário após boa individual de Careca – não o centroavante famoso, então no Napoli, mas um meia comprido e habilidoso que então jogava no Cruzeiro. Mas, apenas dois minutos depois, Klinsmann puxou um contra-ataque, venceu o zagueiro Aloisio na corrida e, ao entrar na área, foi calçado pelo meia Geovani. Pênalti claro.

Parecia uma tragédia para Geovani, habilidoso meia do Vasco que tinha sido o herói do Brasil nas quartas de final, definindo a vitória por 1 a 0 com um gol de fora da área, com direito a uma ajudinha do goleiro Islas. E era um dos líderes do elenco, formado em sua maioria por jovens talentos que ainda não haviam sido negociados com o futebol europeu e buscavam, com o técnico Carlos Alberto Silva, uma vaga na próxima Copa do Mundo – afinal, só estavam na Olimpíada atletas que não tivessem jogado o Mundial, Eliminatórias incluídas, como previa o regulamento que valeu apenas para esta edição e a anterior, em Los Angeles-1984.

Mas Geovani foi salvo pelo goleiro do Brasil, um sujeito loiro que, visto com roupa comum na Vila Olímpica, talvez fosse confundido com os adversários alemães: Claudio Taffarel. Com toda a calma do mundo, aos 39 minutos do segundo tempo, ele esperou o chute do zagueiro Wolfgang Funkel, que bateu com o pé direito, fraco. Bastou cair para o lado esquerdo para Taffarel defender- e ainda teve tempo de se levantar e agarrar a bola.

O jogo foi para os pênaltis. E Taffarel se destacou, pegando mais dois, cobrados pelo volante Jansen e pelo Wuttke – Klinsmann ainda chutou o seu na trave. O Brasil venceu por 3 a 2 e o mundo foi definitivamente apresentado àquele goleiro que já não era uma novidade para os torcedores brasileiros. Para quem quiser encarar, neste link tem a íntegra da partida – o vídeo abaixo apresenta os gols e os pênaltis defendidos por Taffarel.

Taffarel já havia brilhando com a camisa 1 brasileira na conquista do Mundial Sub-20 de 1985, na União Soviética, abrindo uma escalação que tinha nomes como Muller e Silas. E logo firmou-se como titular do Internacional após a saída de Gilmar, goleiro do time prata em Los Angeles-1984, para o São Paulo. Suas defesas lhe renderam a alcunha de “Diabo Loiro”.

Mas ele ficou longe de ser a primeira escolha de Carlos Alberto Silva, contratado para renovar a Seleção Brasileira depois da eliminação na Copa do Mundo do México – em tempos sem data Fifa, a equipe passou quase um ano sem jogar. A primeira missão de Carlos era justamente o Pré-Olímpico, disputado na Bolívia, em março de 1987. E ele foi na segurança: levou Paulo Vitor, do Fluminense, que tinha sido um dos reservas de Carlos no México, o que era permitido pelo regulamento olímpico – desde que não tivesse entrado em campo. Mas o goleiro não satisfez o técnico, que o trocou ainda durante o torneio por Zé Carlos, que vinha se firmando no Flamengo.

Conquistada a vaga, ainda que com atuações longe de serem muito convincentes, Carlos Alberto teve de mudar o foco e pensar na Copa América, que depois de três edições disputadas em formato de ida e volta voltava a ter uma sede fixa, na Argentina. Então, para uma excursão à Europa, teve de lidar com protestos de cartolas que não queriam ver seus times desfalcados durante os Estaduais, optando por chamar o experiente Carlos, do Corinthians, titular de Telê no México (e que perderia a posição depois no time para outro veterano, Waldir Peres), e o novato Régis, que era reserva de Acácio no Vasco, mas tinha feito boas passagens pelas seleções de base.

O futebol na excursão não encantou muito: um empate por 1 a 1 com a Inglaterra (bem verdade que rendeu a Mirandinha uma chance no Newcastle), derrota por 1 a 0 para a Irlanda e vitórias sobre Escócia (2 a 0), Finlândia (3 a 2) e Israel (4 a 0). Na Copa América, um fiasco: depois de estrear com vitória por 5 a 0 sobre a Venezuela, o time levou 4 a 0 do Chile, sendo eliminado na fase inicial. Carlos Alberto Silva balançou, mas não caiu porque o Brasil tinha outra tarefa logo em seguida, os Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, e a CBF estava ocupada demais brigando com os clubes sobre o futuro do Campeonato Brasileiro.

Sim, foi no meio da confusão que resultou na criação do Clube dos 13 e da Copa União que o técnico convocou 18 jogadores para o Pan, respeitando a regra olímpica. Entre eles, os dois goleiros de times cariocas que já havia testado: o vascaíno Regis e o flamenguista Zé Carlos. Só que os cartolas dos dois clubes não gostaram dos desfalques em plena reta final do Carioca – o laterais Jorginho, do Flamengo, e Mazinho, do Vasco, e o atacante vascaíno Romário, também estavam na lista, No dia do embarque, dirigentes foram até o aeroporto para evitar que seus atletas viajassem e a seleção chegou aos Estados Unidos, dias antes da estreia, sem goleiros.

Às pressas, Carlos Alberto então chamou Taffarel e Pereira, que, insatisfeito com a reserva de João Leite, trocara o Atlético-MG pelo rival Cruzeiro. O gaúcho ficou com a camisa 12, mas levou a vaga de titular, e foi decisivo para a conquista do ouro, com vitórias sobre o México, nas semifinais, e o Chile, na decisão, ambas na prorrogação.

A partir dali, Taffarel tornou-se o goleiro de confiança de Carlos Alberto Silva. Só não esteve nos últimos jogos da Seleção do ano porque estava disputando a final da Copa União com o Internacional – e perdeu a chance de disputar a única partida na história em que o Brasil usou patrocínio na camisa de jogo. Mas, em 1988, foi titular em todos os jogos do ano, inclusive na Seleção principal – que só foi usada mesmo para a formação do time olímpico e ainda assim faturou o Torneio do Bicentenário da Austrália, com apenas um “reforço” fora das regras, Müller.

Na Coreia, Taffarel mostrou segurança e só seria vazado uma vez na primeira fase – após vitórias por 4 a 0 sobre a Nigéria e 3 a 0 sobre a Austrália, o Brasil fez 2 a 1 nos eslavos, que tinham nomes que ficariam famosos, como Katanec e Stojkovic, além de dois campeões mundiais sub-20 no ano anterior, o goleiro Lekovic e o centroavante Suker. Depois do tenso jogo com os argentinos, decidido por Geovani, e da vitória sobre os alemães, os jogadores ainda tiveram que enfrentar um desentendimento com a CBF por causa de premiação antes da decisão da medalha de ouro, história contada nos minutos finais do resumo abaixo produzido após os Jogos pela TV Bandeirantes.

Como se sabe, o ouro não veio. O Brasil acabou derrotado na final pela União Soviética, 2 a 1, na prorrogação, depois de abrir o placar com Romário no primeiro tempo e de levar um gol de pênalti que Taffarel não conseguiu defender. Carlos Alberto Silva deixou a Seleção meses depois, substituído por Sebastiao Lazaroni, após a posse de Ricardo Teixeira na presidência da CBF, em janeiro de 1989.

O goleiro, porém, seguiu firme com a camisa 1 do Brasil pelos dez anos seguintes, com direito a três Copas do Mundo com três técnicos diferentes, um título e mais alguns pênaltis decisivos defendidos. Hoje, aos 54 anos, há muito tempo já sem os cabelos loiros, Taffarel segue vinculado à Seleção, como treinador de goleiros. Uma história que, apesar de um ou outro percalço, colecionou um punhado de finais felizes.

Siga o OlimpCast nas redes sociais e assine o feed em seu tocador preferido de podcasts. No fim de semana, um novo episódio vai contar tudo sobre os Jogos Olímpicos de Seul.