Histórias Olímpicas

Annibale Frossi, o artilheiro míope da Itália campeã em Berlim-1936

Ponta-direita rápido e habilidoso, Annibale Frossi teve sua chance na seleção italiana naquela Olimpíada marcada por Jesse Owens

O único ouro olímpico da Itália no futebol veio nos Jogos de Berlim-1936, em meio à tensão crescente que culminaria com a Segunda Guerra Mundial. Diante dos aliados alemães, o jovem time de Vitorio Pozzo fez bonito e ainda lançou alguns atletas que se sagrariam campeões mundiais dois anos depois, na França. O grande goleador, porém, foi um ponta-direita rápido e oportunista que nunca mais teria chances na Azzurra.

Jesse Owens foi um dos grandes astros dos Jogos de Berlim-1936, desafiando o domínio da raça ariana que Hitler queria demonstrar. Confira essas e outras histórias no OlimPcast #11. Só apertar o play no tocador abaixo!

Pozzo precisou renovar a equipe devido a uma mudança no regulamento, num acordo entre a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional que vetou a presença de jogadores profissionais. Vale lembrar que na Olimpíada anterior, em Los Angeles, a primeira realizada após a Copa do Mundo pioneira no Uruguai, a falta de acordo e o desinteresse dos organizadores locais deixaram o futebol de fora do calendário.

A decisão tirou do radar do treinador praticamente todo o time campeão mundial em casa, em 1934, e o obrigou a buscar novos talentos. Encontrou Frossi, já com 25 anos, um ponta-direita rápido, conhecido pelo faro de gol e também por jogar de óculos, já que tinha uma forte miopia desde a infância. Nascido em Muzzana del Turgnano, cidadezinha perto de Údine, começou na Udinese e passou a juventude rodando por times então na Série B, como o Padova, o Bari e o L’Aquila. Neste úlitmo, jogou a temporada 1935/36 e chamou a atenção da Inter, que o contratou.

Foi já como jogador nerazzurri que Pozzo o convocou e o colocou como titular, teoricamente como ponta-direita, mas com liberdade para se movimentar e entrar na área quando visse oportunidade. Foi assim que ele garantiu a vitória da Itália na estreia, um suado 1 a 0 contra os Estados Unidos – o mesmo rival da estreia na Copa, dois anos antes, daquela vez batido facilmente por 7 a 1.

Annibale Frossi, da Inter, e que usava óculos para jogar

Os norte-americanos também tinham um time bem modificado, com apenas dois remanescentes daquele jogo: o volante Peter Pietras e o atacante Francis Ryan – este um veterano dos Jogos de Amsterdã-1928. Desta vez, porém, o jogo foi tenso, e o médio Archile Piccini, então jogador da Fiorentina, só não foi expulso por pressão dos italianos contra o juiz. Segundo relato do New York Times: “O juiz ordenou ao italiano que se retirasse. Tentou fazer Piccini sair por três vezes, mas desistiu. Meia dúzia de italianos o cercaram, segurando suas mãos e tampando sua boca. O jogo então continuou com Piccini em campo.” Talvez o fato de que o príncipe Umberto assistisse ao jogo nas tribunas, ao lado de aliados alemães ligados ao governo Hitler, também tenha influenciado o árbitro.

O fato é que no jogo seguinte, pelas quartas de final, Pozzo mexeu no time para enfrentar o Japão, trocando o centroavante Luigi Scarabelli, do Spezia, por Sergio Bertoni, do Pisa. Funcionou: goleada por 8 a 0, com três gols de Frossi, quatro do ponta de lança Carlo Biagi, também jogador do Pisa, e um do ponta-esquerda Giulio Cappelli, que defendia o Viareggio.

Nas semifinais, a Itália teria pela frente a Noruega, protagonista da grande surpresa nas quartas de final: derrotou a Alemanha por 2 a 0 diante de 55 mil pessoas que lotavam o Poststadion de Berlim – entre eles o Führer em pessoa e seus auxiliares mais próximos, como Joseph Goebbles, Hermann Göring e Rudolph Hess. Os registros são de que Hitler jamais tinha visto um jogo de futebol, e de que ele e sua patota foram embora antes do fim.

Diante dos italianos, a Noruega voltou a dar trabalho. Alfonso Negro, ponta-esquerda da Fiorentina escalado como titular, abriu o placar aos 15 do primeiro tempo, mas Arne Brustad empatou para os nórdicos aos 13 da etapa final. O empate persistiu e o jogo foi para a prorrogação, onde Frossi apareceu para marcar o gol da vitória, aos 6 minutos.

Na decisão, a Itália reencontrava a Áustria, adversária da semifinal em 1934. O time austríaco também vinha renovado, sem nenhum remanescente daquele tenso 1 a 0 no Estádio San Siro, e já havia passado por um susto nas quartas de final, quando perdeu para o Peru por 4 a 2, mas avançou no tapetão alegando ameaças durante uma invasão de campo entre o tempo normal e a prorrogação. Uma longa história que merece um texto à parte.

Com o país à beira da anexação pela Alemanha, que se daria em 1938, o time austríaco conseguiu recuperar-se emocionalmente, venceu a Polônia por 3 a 1 e chegou à decisão. E o Estádio Olímpico, com 85 mil espectadores (Hitler desta vez não estava lá), assistiu a mais um jogo truncado e violento, no qual o 0 a 0 permaneceu até os 25 do segundo tempo. Foi quando Frossi, que além dos óculos naquele dia ainda usava uma faixa branca na cabeça, aproveitou um rebote do goleiro Eduard Kainberger após um cruzamento vindo da direita e encheu o pé esquerdo para abrir o placar.

Mas a valente Áustria não desanimou e, aos 34, Karl Kainberger compensou a falha do goleiro, seu irmão mais velho, empatando a partida. Mais uma vez o jogo foi para a prorrogação, e mais uma vez a Itália liquidou a fatura cedo: desta vez o cruzamento veio da esquerda, o goleiro austríaco bateu roupa de novo e de novo Frossi fuzilou de canhota. Os gols podem ser vistos no vídeo abaixo.

Campeão e artilheiro, jogando pela Inter, esperava-se que Frossi fosse nome certo na Copa de 1938. Mas, depois de um amistoso contra a Hungria em 1937, uma vitória por 2 a 0 em que fez um dos gols, ele nunca mais foi lembrado por Pozzo. Despediu-se da Azzurra com 5 vitórias em 5 jogos e 8 gols marcados

Do time medalhista de ouro em Berlim, só foram à França os zagueiros Pietro Rava e Alfredo Foni e os atacantes Sergio Bertoni e Ugo Locatelli. Como coadjuvante de uma Inter repleta de strelas, Frossi levantou os scudettos de 1938 e 1940 e uma Copa da Itália em 1939. Ainda jogou pelo Pro Patria e pelo Como até se aposentar, em 1945, aos 34 anos.

Formato em Direito, não conseguiu, no entanto, ficar longe do futebol. Por duas décadas, Frossi acumulou trabalhos como técnico em equipes de distintos escalões. Teve até uma chance na Inter, em 1956, mas não passou de 12 jogos. O rápido e oportunista atacante virou um técnico retranqueiro, defensor do catenaccio, que previa um zagueiro extra atrás da linha de quatro defensores, e que se aposentou em 1965, depois de uma passagem pelo Tristina. Foi então usar seu diploma de advogado, trabalhando numa das unidades da Alfa Romeo, e ganhou uma coluna para comentar futebol no jornal Corriere della Sera. Morreu em 1999, aos 87 anos, e hoje seu nome batiza uma das alças de acesso ao estádio Friuli, em Údine.

Annibale Frossi como técnico da Inter, em 1956

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Fernando Cesarotti

Fernando Cesarotti é jornalista há 22 anos e professor há sete. Na Copa de 2018, escreveu a coluna 'Geopolítica das Copas' na Vice. Hoje, entre uma aula e outra, produz o OlimpCast, podcast que conta histórias dos Jogos Olímpicos. No Twitter, @cesarotti.

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