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FIFA rebate EA Sports, confirma novo posicionamento e diz que fim da exclusividade fará bem aos games de futebol

O novo capítulo do processo de litígio das marcas parceiras não cita o imbróglio, mas soa como a forma da entidade máxima do futebol dizer que quem vence é ela

Ainda sob o efeito do lançamento de sua nova edição, o FIFA 22 – que chegou ao mercado no dia primeiro de outubro – o simulador de futebol da EA Sports tornou-se manchete por um fato inesperado. A desenvolvedora divulgou na última semana que não pretende renovar o contrato com a FIFA e o jogo não deve mais carregar o nome da entidade máxima do futebol. Obviamente, aquele seria apenas o primeiro episódio de uma longa novela que deve culminar no encerramento da parceria de quase 30 anos entre as duas empresas. Chegou a hora da FIFA se posicionar e colocar o seu lado da questão.

A FIFA divulgou em seu site oficial um comunicado afirmando que colocará em prática um novo posicionamento no mercado de games e eSports, visando dar fim ao monopólio no uso da marca homônima da entidade — o contrato com a Electronic Arts perdura até 2022 e contém o fator exclusividade. 

Disputa financeira

Difícil saber quem começou a discussão, mas segundo apuração do New York Times, a pedida de renovação da FIFA ficou na casa de 1 bilhão de dólares pelo período de quatro anos e este teria sido o gatilho para o fim da parceria comercial. Ao longo dos últimos 20 anos, a EA faturou muito com a franquia. Estima-se um valor de US$ 20 bilhões em faturamento nas duas últimas décadas da empresa da Califórnia — embora o time responsável pela franquia FIFA fique em Vancouver.

A FIFA, entidade que gere o futebol mundial, ganhou muito com a parceria. Atualmente, o licenciamento para o nome do game é maior acordo comercial individual da entidade, estimado na casa de US$ 150 milhões por ano, o que significa algo em torno de US$ 600 milhões a cada quatro anos. O aumento que a FIFA quer é bastante significativo, portanto, de 40%.

A entidade reforçou a força do nome da franquia no ambiente de games ao longo da história e afirmou que “empresas de tecnologia e mobile estão competindo ativamente para se associar à FIFA, suas plataformas e torneios globais”. Vale lembrar que no momento, a EA Sports é responsável por fornecer a estrutura para as competições oficiais de eSports organizadas pela FIFA. 

Caso a parceria chegue ao fim — o que parece inevitável — toda a estrutura de competições terá de ser reformulada e um novo simulador de futebol ficará responsável por fornecer o software para isto acontecer. Neste momento, a Electronic Arts é a única empresa com um jogo consolidado, já que o eFootball não obteve sucesso em sua adaptação para o formato gratuito e o UFL ainda não tem data de lançamento prevista.

Bandeira da FIFA em Zurique, na sede da entidade (Philipp Schmidli/Getty Images/OneFootball)

FIFA quer limitar exclusividade da EA

O fator financeiro é crucial para entender o que se tornou uma guerra entre EA Sports e FIFA, mas vai além disso. Um dos tópicos que deixou a empresa californiana insatisfeita é que a entidade que dirige o futebol quer não só um aumento dos seus royalties, mas também quer limitar o que a exclusividade da EA abrange. 

Em sua busca para aumentar receitas, a FIFA quer, por exemplo, vender licenciamento para outros jogos que não sejam relacionados a futebol, como Fortnite, por exemplo. Isso, porém, afeta diretamente a EA, que não quer ceder esses direitos de licenciamento para outros games. Afinal, ela paga caro por isso.

A EA construiu a marca FIFA dentro dos games com uma franquia que se tornou das maiores de todos os tempos. É absolutamente compreensível que ela pense que tudo relativo a games que tenha o nome da FIFA, que ela licencia, seja parte do acordo de exclusividade que ela paga.

Para a empresa americana, o caminho é o contrário: a EA quer direitos a melhores momentos de jogos, torneios em estádios de futebol e incluir outros produtos digitais envolvendo o esporte, como NFT. Nada disso agrada à FIFA, que quer explorar outros licenciamentos. Por isso, há uma divergência grande entre as partes.

Mobile será suficiente para licenciar um game da FIFA?

Por mais polida e com posicionamento aparentemente condizente com o mercado a comunicação esteja, a FIFA parece apenas não estar dando o braço a torcer. Seja partindo da Electronic Arts ou como uma resposta a uma pedida muito acima do considerado acessível para a desenvolvedora, o fim da parceria significa para a FIFA ficar sem um parceiro à altura para continuar desenvolvendo a marca no universo dos games. 

E não estamos falando apenas de colocar o nome na capa do jogo e continuar nas discussões dos jovens, o universo de eSports não para de crescer e a FIFA organiza competições oficiais junto à EA contando com o simulador de futebol como base para classificação, eliminatórias e competições. 

No contrato vigente, a Copa do Mundo é a única competição cedida pela FIFA para a EA Sports através dos direitos de uso de imagem. Com a edição de 2022 sendo no final do ano, é possível que este seja o último capítulo da longa parceria ou que este produto fique fora do calendário gamer pela primeira vez em anos. 

Mesmo que esteja traçando outros contratos com empresas de mobile, um jogo da Copa do Mundo entregue apenas em ambiente móvel não consegue causar o mesmo furor de estar no jogo mais consolidado de futebol das últimas décadas.

EA tende a sentir pouco uma mudança

Excluindo o naming rights e o uso do torneio de seleções a cada quatros anos, basicamente não. A EA Sports garante o uso da imagem das ligas, jogadores e clubes através de outros caminhos que não a FIFA. Entre contratos vigentes e renovações recentes, a desenvolvedora de games conta com UEFA Champions League, Libertadores, Premier League, Bundesliga, La Liga, Ligue 1, parceria com a FIFPro para uso das faces e informações reais dos jogadores dentre tantos outros acordos que não passam pela entidade máxima do futebol.

Se no lançamento, em 1993, o nome FIFA trouxe uma chancela importante para o simulador de futebol, hoje o impacto não é o mesmo. Sem investir uma bolada no nome e com o Ultimate Team consolidado e garantido fatia importante das receitas da empresa, a EA Sports pode buscar novas licenças ou – o que seria o sonho dos gamers – investir em melhores servidores e na gameplay em si.

A EA Sports parece preparada para mudar de nome. No dia 4 de outubro, a EA Sports registrou a marca “EA Sports FC” na União europeia e Reino Unido, segundo o Videogame Chronicle. Seria um indício de um novo nome já sendo trabalhado pela empresa. A empresa não comentou a respeito, mas é outro sinal que ela está explorando possíveis nomes e é preciso registrá-los para garantir sua licença de uso.

Este é um ponto bastante interessante, já que, inicialmente, o FIFA tinha o nome “soccer” no jogo – FIFA International Soccer”, a primeira versão em 1993. Com o tempo, o termo, usado basicamente só nos Estados Unidos, foi abandonado. Usar “Football” no novo nome da franquia, porém, pode ser problemático nos Estados Unidos, onde o termo é associado a outro esporte. O “EA Sports FC” resolveria o problema.

Ainda não acabou

Vale ressaltar que nenhuma das duas empresas confirmou que o acordo terminará. Como já citamos, todos esses comunicados podem ser formas de barganha ou jogo político para conseguir uma melhor negociação. Ainda assim, nem EA Sports e nem FIFA se deram ao trabalho de negar ou mostraram algum posicionamento que parece tentar sair melhor de um término litigioso.

Este não será o último episódio desta novela, que deve durar pelo menos até 2022. Enquanto a FIFA procura uma renovação mais vantajosa e, se tudo caminhar como parece, uma alternativa para continuar nos eSports, a EA Sports deve criar uma alternativa para cobrir a Copa do Mundo — como um evento no FUT, por exemplo — e escolher um novo nome para a sua franquia. No fim das contas, pouco deve mudar para os jogadores assíduos do simulador de futebol.

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João Belline

Jornalista de formação, louco dos esportes por opção. Depois de muito escalar Cartola, jogar Winning Eleven, escrever escalação dos sonhos no caderno e topar o dedão na rua, falar sobre futebol virou uma necessidade. É mais um leitor que buscou espaço no time da Trivela e entende que futebol está acima do clube.

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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