Por que é tão difícil ter jogadores do Brasileirão no EA Sports FC
Principal game de futebol do mundo não tem jogadores do campeonato nacional licenciados desde a edição de 2016
O lançamento do EA Sports FC 26 está marcado para esta sexta-feira (26), e novamente o fã brasileiro não poderá ver seu time representado no principal game de futebol do mundo.
Desde a edição 15, quando ainda se chamava Fifa, algumas equipes do Brasileirão foram saindo do game até serem complemente “genéricas“, sem a inclusão real dos nomes dos jogadores — o que fez com que algumas das principais jovens promessas do país também ficassem de fora.
Apesar de atualmente terem o uniforme e escudo oficial de alguns, como os participantes da Libertadores e da Copa Sul-Americana por uma parceria da Conmebol, a ausência dos atletas que atuam no Brasil continua por uma série de fatores, desde a forma que o campeonato é gerido até a legislação local.
Para entender a dificuldades em ter os jogadores do Brasileirão no jogo da EA Sports, a Trivela procurou especialistas, as desenvolvedora do games e os dois blocos de clubes brasileiros que buscam criar uma liga no futebol brasileiro.
Linha do tempo da presença de clubes brasileiros no EA Sports FC (ex-Fifa):
- Fifa 95 até 14: Times brasileiros licenciados com escudos e jogadores, com o número de representantes mudando a cada ano
- Fifa 15: nenhuma equipe do Brasileirão
- Fifa 16: 16 clubes 100% licenciados
- Fifa 17 até Fifa 19: escudos oficiais de alguns times, mas sempre com jogadores genéricos
- Fifa 20 até EA Sports FC 25 (atual): emblemas e uniformes de times participantes de Libertadores e Sul-Americana, mas totalmente genéricos
“Dê para as pessoas o que elas querem…”
— EA SPORTS FC BRASIL (@easportsfcbr) July 16, 2025
Inovações inspiradas por você em todos os modos. O Clube é Seu no #FC26, com lançamento em 26 de setembro.
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Os pontos para entender a ausência do Brasileirão no EA Sports FC
O principal motivo para os elencos dos clubes brasileiros não serem licenciados está por trás da Lei Geral do Esporte (n.º 14.597/2023), antiga Lei Pelé (n.º 9.615/98), que regulamenta a prática esportiva no país e traz pontos sobre os atletas profissionais.
No artigo 72 da Lei, que aborda o direito de imagem dos jogadores, garante que “a utilização da imagem do atleta profissional para fins comerciais depende de autorização expressa do atleta, por meio de contrato específico e com remuneração livremente pactuada“.
Ou seja, o jogador é o dono de sua imagem e a empresa, como a EA Sports, precisaria abordar cada atleta para garantir o direito de usar a face e o nome do atleta no game. Se contar que cada elenco do Brasileirão tenha 22 jogadores, seriam 440 contratos diferentes a serem firmados.
Tudo isso torna o processo “inviável”, como explicou à Trivela o advogado Marcelo Mattoso, sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados (BTLAW) e especialista em Mercado de Games e eSports.
— A quantidade de atletas envolvidos torna esse processo inviável em larga escala, razão pela qual se busca concentrar as autorizações em entidades representativas, como sindicatos ou associações. No Brasil, esse arranjo ainda é incipiente, o que aumenta a complexidade das negociações — disse em mensagem à reportagem.
No passado, a utilização da imagem dos atletas sem a autorização dos jogadores rendeu processos que causaram prejuízos milionários às empresas EA Sports, Sega (do Football Manager, que deixou de ser comercializado no Brasil) e Konami (eFootball, que possui todo Brasileirão licenciado no momento, além do Athletico-PR).
— Além de ações indenizatórias por danos morais e materiais, que encontram respaldo tanto na Constituição quanto no Código Civil, a jurisprudência brasileira reconhece o valor patrimonial da imagem do atleta, o que pode levar a condenações financeiras elevadas. Há ainda a possibilidade de medidas liminares que suspendam a comercialização do produto ou jogo que utilize indevidamente essas imagens — explicou Mattoso.
Alguns dos processos por direito de imagem contra empresas de games no Brasil
- Edmundo: o ex-atacante, acionou na Justiça a EA, em 2020, pedindo R$ 180 mil como indenização pela reprodução sem autorização nos games FIFA Manager e FIFA Soccer entre 2007 e 2009
- Vagner Mancini: em 2021, a 2ª Vara Cível de São Paulo condenou a Sega a indenizar o técnico pela utilização do nome dele no Football Manager em R$ 5 mil por cada edição do game desde 2009
- Sindicato dos Atletas de Santa Catarina: em ação de 450 jogadores, a associação ganhou o processo para ser indenizada em R$ 6,5 milhões pela EA por conta da reprodução não autorizada de imagens de atletas no período entre 2005 e 2014

Em boa parte dos casos, a EA, alvo das maiores ações, se defende afirmando ter um acordo com a FIFpro (Federação Internacional de Jogadores Profissionais), mas os tribunais entendem que essa negociação não tem validade no Brasil.
A dificuldade em centralizar os direitos dos jogadores em uma entidade, inclusive, é um dos problemas para a dificuldade da EA e outras empresas ingressarem no mercado brasileiro. Isso poderia ser resolvido também com outro ponto que tem sido debatido há muito tempo no Brasil: a criação de uma liga.
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Formação de um campeonato independente seria um caminho
Um campeonato brasileiro independente da CBF centralizaria a negociação de direitos dos times e também poderia fazer o mesmo com os direitos de imagem dos jogadores, como ocorre em outros mercados, facilitando o trabalho das desenvolvedoras em adquirir os direitos para os games.
— A formação de uma liga unificada poderia reduzir bastante esses entraves, desde que fosse estruturada de modo a contar com a cessão expressa dos atletas. Um modelo centralizado permitiria que tanto os clubes quanto os jogadores fossem representados em um só canal de negociação, o que daria maior segurança jurídica e alinharia o Brasil às práticas adotadas em outros países, especialmente na Europa — explicou o advogado Marcelo Mattos
Isso, porém, depende do alinhamento total de Libra e LFU, hoje os dois blocos comerciais que dividem os principais times das Séries A e B na negociação dos direitos televisivos. “Isso ainda é uma realidade muito distante no Brasil, pois cada clube possuiu demandas próprias e individuais, inviabilizando a formação de uma possível liga”, finalizou o especialista.
Em 2023, o vice-presidente de marca do EA Sports FC, David Jackson, assumiu em entrevista ao “ge” que ter uma liga unificada no Brasil ajudaria.
— Acho que [a criação de uma liga] é uma grande oportunidade para garantirmos que reforçamos nosso compromisso com o mercado brasileiro e tenho certeza que poderemos compartilhar mais no momento em que essa liga for montada — afirmou.
📺 Série B dando exemplo para a Série A?
— Trivela (@trivela) March 2, 2025
Em ação inédita, LFU e Libra se juntam para a venda de direitos de transmissão da segunda divisãohttps://t.co/wmFi4bnyzy
Libra e LFU negociam com EA e Konami
No momento, Libra e LFU estão negociando conjuntamente os direitos de exploração com a EA Sports, segundo apuração da Trivela. O estágio das conversas, no entanto, é embrionário e, se fosse acontecer a inclusão desses clubes, seria provavelmente só no EA Sports FC 2027, a ser lançado em meados de setembro do próximo ano.
A EA, no entanto, tem receio de adentrar novamente no mercado brasileiro pelos processos anteriores. Como a negociação ainda está no início, a pauta sobre o direito de imagem dos jogadores ainda não foi abordada.
A reportagem também soube que a Konami conversa em um estágio avançado para renovar o contrato com os clubes da LFU, tirando a exclusividade para deixar aberto o mercado com o “outro lado”. As informações foram publicadas inicialmente pelo portal “Sports Inside”.
Oficialmente via assessoria de imprensa, a Libra afirmou que aconteceu uma conversa inicial nos primeiros meses de 2025, mas não evoluíram desde então. O grupo tem interesse em retomar essas conversas. “O departamento comercial continua trabalhando diariamente para destravar novas receitas para os clubes e uma dessas seriam os jogos eletrônicos”, explicou a comunicação do bloco.
A LFU reiterou a etapa da negociação e a importância do tema. “É um tema relevante que demanda muitas discussões. As conversas estão acontecendo, mas ainda em estágio inicial”, explica comunicado da assessoria de imprensa.

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Como é a negociação de direitos em outros países?
Como argumentou na defesa para as centenas de processos de jogadores brasileiros, EA, Konami e outras empresas garantem boa parte dos direitos dos jogadores por um acordo com a FIFPro, entidade presente em 63 países e com mais de 60 mil atletas representados.
A organização centralizada com um campeonato também contribui para isso. Premier League e LaLiga são exclusivas do EA Sports FC, que utiliza tudo oficial das ligas: estádios, patrocínios e até o visual da transmissão como acontece no futebol real.
No Brasil, a Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) é a responsável por representar os jogadores no território brasileiro. Em contato com a reportagem via aplicativo de mensagens, o presidente da entidade Jorge Borçato disse que ainda não foram procurados pela EA para algum acordo.
O executivo revelou que conversa com a LFU e a própria Fifpro para que exista um bloco que evite processos. O acordo atual com a Konami para o eFootball não envolve a Fenapaf.
— Somos favoráveis à presença dos jogadores brasileiros, desde que haja licenciamento adequado, consentimento e remuneração justa. Essa tem sido a linha que tenho reforçado publicamente. O que existe hoje é articulação institucional, iniciamos um diálogo com a LFU e com a FIFPro para construir um modelo coletivo que dê segurança jurídica a todos. Ainda não fomos formalmente procurados pela EA para um acordo direto, mas estamos abertos ao diálogo — disse.
— Nosso esforço é coordenar com as entidades nacionais e com a FIFPro um padrão coletivo específico para o Brasil — finalizou.

Por que é importante ter jogadores nesses games?
O impacto da presença brasileira é grande no Brasil e no exterior. Ser treinador ou jogador virtual no seu time do coração no “Modo Carreira” é uma experiência marcante. O EA Sports FC é um dos games mais jogados no país, sendo por duas semanas em dezembro do ano passado o mais baixado na Steam, loja de games do PC, e líder nos Playstation 4 e 5 no mesmo mês, segundo o “PlayStation Blog”.
Essa importância na representatividade, porém, vai além do gamer brasileiro. Para os clubes do Brasileirão, é a chance de ter sua marca exposta comercialmente a vários mercados, em especial dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos.
O modo “Ultimate Team” do EA Sports FC , fenômeno mundial, faz o jogador virtual montar times com cartas, algumas especiais, dos jogadores profissionais. Imagina para um fã inglês poder montar um time do Brasileirão e pegar afeição por um atleta do Brasil — após o sucesso brasileiro no Mundial de Clubes, poderia ser uma onda. Ou mesmo nos modos offline, criando uma carreira no Brasil e vencendo títulos locais e internacionais.
— O futebol brasileiro precisa estar nos games. A gente não pode deixar passar essa oportunidade para que o mundo possa ver nossos atletas […] e para que quem joga o videogame possa ali jogar com seu atleta e clube de preferência, totalmente legalizado, como funciona com as outras ligas do mundo — disse o presidente da LFU, Marcelo Paz, também CEO do Fortaleza, à “TV Soure Ceará”.
A Trivela contatou a EA Sports via assessoria de imprensa sobre a negociação em andamento com os times brasileiros e o interesse da empresa em contar com os atletas do Brasileirão, mas até o fechamento da reportagem não teve um retorno. O texto será atualizado caso a companhia se manifeste.



