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EA Sports quer renomear sua franquia de futebol e a FIFA é quem mais tem a perder com isso

A EA Sports estuda mudar o nome da franquia que começou lá em 1993 e tem bons motivos para fazer isso

A EA Sports anunciou que avalia mudar o nome da sua franquia de futebol, o FIFA, que ganhou recentemente uma nova edição. FIFA 22 chegou ao mercado no último dia 1º de outubro e é um dos jogos mais esperados em todo o ano. É um dos eventos do calendário mundial de futebol, indiscutivelmente. Suas milhões de cópias rendem dinheiro à Fifa, entidade que dirige o futebol mundial, por licenciamento. Isso pode mudar na próxima edição. A EA divulgou comunicado dizendo que está “explorando a ideia de renomear nossos jogos de futebol da EA Sports”, algo que tem potencial para ser imenso.

A FIFA dá nome ao jogo desde a primeira edição, em 1993, quando foi chamado de “FIFA International Soccer”. O uso de “Soccer” logo foi abandonado pela empresa que tem a sua origem na Califórnia. A intenção era torná-lo um jogo global. Isso se realizou: em qualquer canto do mundo, se joga futebol. Incluindo os Estados Unidos, que, aliás, se tornaram um dos principais mercados, se não o principal.

O licenciamento da FIFA, na prática, hoje não traz nenhuma vantagem. Ela é dona dos direitos de apenas um torneio que eventualmente aparece no jogo: a Copa do Mundo. E vale lembrar que a Copa do Mundo acontece em 2022, quando será lançada a próxima versão do jogo, pouco tempo antes da bola rolar. Só que essa seria a única perda, do ponto de vista da EA. Todas as outras licenças são negociadas com cada uma das ligas e nenhuma delas depende da Fifa.

“Ao longo dos anos construindo nossa franquia global, sabemos também que autenticidade é essencial para a experiência.  É por isso que focamos muita energia na força coletiva de 300 parceiros individuais licenciados que nos dão acesso a mais de 17 mil atletas e mais de 700 clubes, em 100 estádios e mais de 30 ligas ao redor do mundo”, diz o comunicado da EA. Desde o FIFA 96, o jogo licencia clubes e jogadores de modo a tornar a experiência mais real.

“Nós continuamente investimos em parcerias e licenças que são os mais significativos para os jogadores e, por causa disso, nosso jogo é o único lugar que você pode autenticamente jogar a icônica Uefa Champions League, Uefa Europa League, Conmebol Libertadores, Premier League, Bundesliga e La Liga Santander, entre muitas outras”, continuou. “A amplitude das nossas parcerias e nosso ecossistema de conteúdo licenciado irá nos permitir continuar a levar autenticidade incomparável em nossos jogos de futebol da EA Sports, agora e por muitos anos”.

É só no final do texto que vem a bomba. “À medida que olhamos para o futuro, também estamos explorando a ideia de renomear nossos jogos globais de futebol da EA Sports. Isso significa que estamos revisando o nosso contrato de direitos de licenciamento com a FIFA, que é separado de todas as outras parcerias oficiais e licenças em todo o mundo do futebol”.

“O futuro do futebol é muito grande e muito brilhante. Nossa prioridade é garantir que tenhamos todas as oportunidades de continuar entregando as melhores experiências de integratividade do mundo. Obrigado novamente pelo apoio e feedback no jogo deste ano. Estamos ansiosos para criar o futuro do futebol com vocês. Nos vemos no campo”, termina a nota, assinada por Cam Weber, gerente geral do grupo EA Sports.

Por que a EA quer fazer isso?

Há dois motivos claros para a EA cogitar uma mudança no jogo que é um dos seus maiores sucessos. O primeiro de tudo é bem óbvio: dinheiro. A empresa não quer pagar milhões à FIFA todos os anos para licenciar o seu jogo. Até porque a FIFA não controla nenhum licenciamento, exceto dos torneios que ela mesma controla, como já dissemos. E destes, só mesmo a Copa do Mundo é realmente relevante. Os jogos podem viver sem isso – a maioria cria torneios sem usar o nome, com o formato da Copa, bem consagrado, e conseguem viver tranquilamente. 

A EA Sports tem a maior gama de licenciamento do mercado, com todas as principais ligas do mundo (sem o Brasil, que é um caso à parte e motivo para outra conversa). Tem também acordos de licenciamento com diversos sindicatos de jogadores, incluindo a FIFPro, de modo a ter todos os principais jogadores do mundo (novamente, o Brasil é um caso à parte).

O licenciamento do nome da FIFA ajudou a franquia da EA Sports a ganhar reconhecimento quando foi lançado e se popularizou, ainda nos anos 1990. O jogo virou sinônimo de games de futebol. Depois de uma feroz concorrência com a Konami no início do século, o jogo da EA Sports tem nadado de braçadas em vários aspectos, de licenciamento a gameplay. Então, por que pagar milhões para usar o nome da Fifa, se o jogo já é mundialmente reconhecido?

O segundo ponto tem mais a ver com gestão de imagem. A Copa do Mundo de 2022 está chegando. Em novembro do próximo ano começa a disputa do maior torneio de futebol de seleções do mundo. Há um grande problema: a imagem da Fifa pode ficar muito desgastada. Mais do que já está, inclusive. Vale lembrar que o Catar é acusado de diversas violações de direitos humanos na construção dos estádios da Copa.

É possível que com a Copa, surjam novos problemas, novas denúncias, novos protestos. A imagem da Fifa pode ficar mais arranhada. É um risco que a entidade correrá. Por que a EA Sports correria esse risco junto, se realmente não precisa do licenciamento da entidade para que o seu jogo tenha sucesso?

E o que cabe à FIFA?

Mesmo que a imagem arranhada possa transmitir uma imagem de problemas financeiros, isso está muito longe de acontecer na FIFA. Apesar dos escândalos de corrupção, a controversa Copa do Mundo no Catar e a pandemia da COVID-19, as contas da maior instituição do futebol apresentam números de arrecadação cada vez maiores. Segundo apuração do jornalista Rodrigo Capelo, o montante arrecadado para a principal competição de seleção deve chegar a 6,4 bilhões de dólares – contando o ciclo de quatro anos – e se igualar aos números da edição anterior, na Rússia. Desta arrecadação, 15% são referentes a hospitalidade e licenciamento. Nesta parcela é que entra o valor investido pela EA Sports nos naming rights do jogo.

A FIFA é a entidade gestora do futebol e, portanto, é quem organiza o principal torneio do esporte: a Copa do Mundo. Vem daí a maior parte do seu faturamento. Se levado em consideração o balanço anual, como em 2020, os valores arrecadados em vendas de direitos comerciais ficaram na casa dos 159 milhões de dólares – representando 60% do total arrecadado. Nem tudo veio da EA e não é possível precisar o montante, mas ele está nesse bolo. A questão é que as contas da entidade são significativas em quadriênios, quando a arrecadação bruta da Copa do Mundo chega e os balanços são de fato realizados. Com isso, por mais que não seja ínfimo, o dinheiro que a FIFA deixaria de arrecadar com o uso do nome no jogo de futebol não será um fator decisivo para a saúde financeira da instituição.

Se a EA Sports está barganhando e a FIFA tiver interesse em manter uma relação comercial não será só pelo dinheiro. O simulador de futebol é o mais jogado da atualidade há anos e, apenas em sua edição 2022, lançada há menos de um mês, já movimenta mais de nove milhões de jogadores. Estamos falando de um negócio que movimenta 2 bilhões de dólares anuais para a EA, sendo que o faturamento total da empresa gira em torno de 5,6 bilhões. Com tamanha adesão e um modelo de negócio de sucesso, perde quem estava dentro e fazia parte da brincadeira. Não porque o valor será o fiel da balança nas contas da FIFA, mas porque o impacto da marca deixará de estar no dia a dia de milhões de apaixonados por futebol e se restringirá apenas às suas competições – ou aos noticiários negativos como têm acontecido.

Caso decida fica fora do jogo, a FIFA deve desenvolver outra forma de atingir o público jovem e fidelizá-lo. Se não for pelo videogame, ninguém entrará numa discussão defendendo que “FIFA” é melhor que algo — como acontecia nas discussões entre FIFA e PES. Uma entidade máxima não tem fãs, não move multidões e muito menos diverte diariamente seus seguidores. As transmissões via mídias sociais podem ser uma solução, mas os direitos dos principais campeonatos não estão nas mãos da entidade — eles apenas têm a sua chancela. Fato é que a FIFA perde muito em apelo de marketing se ficar de fora do mundo dos games.

O exemplo de Championship Manager x Football Manager

A rigor, não é a EA que perde sem o licenciamento da FIFA no seu jogo. É a FIFA que perde por não licenciar a principal franquia de games do mundo. Ainda mais em um momento que a concorrência parece tão fraca — basta ver as reações que o novo game de futebol da Konami, eFootball, causou. Há um exemplo na história dos games de futebol que mostra que o nome pode valer menos do que se imagina.

Em 2003, a Eidos era a publisher de Championship Manager, o mais popular jogo do estilo manager de futebol do mundo. A franquia era imensamente popular, uma febre entre os aficionados do esporte. A empresa se separou da Sports Interactive, que era quem fazia o jogo. Foi um divórcio litigioso e, no fim, a Eidos manteve os direitos do nome do jogo, Championship Manager, enquanto a Sports Interactive ficou com a base de dados.

Usando o nome, a Eidos lançou Championship Manager 5 no ano de 2005. Muitos jogadores não sabiam da separação entre Eidos e a Sports Interactive e o jogo ainda vendeu muito. A qualidade, porém, caiu demais. A Eidos tentou reproduzir o jogo que a Sports Interactive fazia antes, sem sucesso. Enquanto isso, a Sports Interactive lançou uma nova franquia: Football Manager 2005. Como dizem, o resto é história. Foi Football Manager, sob um novo nome, que tomou o mercado. A Eidos seguiu tentando produzir o jogo, mesmo depois que foi vendido para a Square Enix. Nunca mais o jogo teve o mesmo sucesso. Em 2018, a Square Enix desistiu de vez, depois de anos de lançammento que ninguém mais ligava.

A EA Sports tem muito mais do que a Sports Interative. Ela não só faz o jogo, ela é também a publisher. Ela tem a faca e o queijo na mão. Se em 2022 ela decidir lançar um jogo com nome tão simples quanto EA Sports Football, tem tudo para ter sucesso. Porque o nome é só parte do negócio. No caso do FIFA, com seus 28 anos de estrada, isso é o de menos. A Konami, sua concorrente, já viveu isso. No mesmo período do EA Sports FIFA, teve International Supertar Soccer, Winning Eleven, Pro Evolution Soccer (PES) e agora eFootball. O problema do jogo lançado recentemente pela empresa japonesa não foi o nome, foi a qualidade.

Com tudo que se pode falar sobre o FIFA da EA Sports, ele é um bom jogo. Há diversas críticas ao modelo do Ultimate Team, o pay to win, podemos chamar de cassino da EA e tudo isso, mas é inegável que o jogo tem qualidades. Diante do fracasso do jogo da Konami – ao menos por enquanto —, é indiscutível que FIFA é o melhor jogo de videogame de futebol do mundo. Com tudo isso, também parece claro que quem perde, caso a EA decida deixar de licenciar o nome da FIFA, é a própria entidade que gere o futebol mundial.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

João Belline

Jornalista de formação, louco dos esportes por opção. Depois de muito escalar Cartola, jogar Winning Eleven, escrever escalação dos sonhos no caderno e topar o dedão na rua, falar sobre futebol virou uma necessidade. É mais um leitor que buscou espaço no time da Trivela e entende que futebol está acima do clube.

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