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REVIEW: eFootball chega como uma demo que não respeita o futebol da Konami

O sucessor de PES e Winning Eleven apresenta sua primeira fase sem conseguir entregar uma experiência aceitável para fãs e curiosos

O que poderia ser um sonho, virou um pesadelo. O lançamento do eFootball, novo simulador de futebol da Konami após o sucesso de Pro Evolution Soccer, era muito esperado pelo novo formato de negócio. Gratuito, sem mídia física e seguindo a tendência dos principais jogos da atualidade, o game foi apresentado em sua primeira fase nesta quinta-feira, 30 de setembro, depois de dois anos de desenvolvimento – já que a Konami fez apenas uma atualização no eFootball PES 2021. Com apenas 9 times para partidas locais e um evento para partidas on-line, o eFootball não agradou e apresenta neste momento a pior avaliação da história na Steam – com apenas 9% de classificações positivas e mais de 14 mil extremamente negativas. A Trivela vai comentar os principais aspectos deste lançamento, entender o que está dando tão errado e o que salva até agora. Destaca-se que a avaliação foi feita no Playstation 4 e, depois da partida inicial que apresenta uma nova opção de visão, com a câmera aérea que agrada o redator.

Prelúdio

Como adiantado por aqui, o eFootball está sendo lançado em três fases, apresentadas num grafismo nomeado de Roadmap pela Konami. Nesta primeira fase, o jogo chega sem todos os modos e com apenas nove times para partidas locais. Sem problemas, dentre eles temos grandes clubes europeus – Arsenal, Juventus, Bayern, Manchester United, Barcelona – e alguns times sul-americanos simbólicos – Flamengo, Corinthians, River Plate, São Paulo. O jogador de FIFA, carente de experiências com o futebol nacional, estava pronto para testar as equipes brasileiras. Compreensivo, encarei essa primeira fase como a demo do jogo, apesar da produtora japonesa não ter explicitado isso. Como a versão completa só chega em meados de novembro, essa etapa é um grande teste aberto.

Assim que o jogo foi liberado, iniciei o download e estava esperando para testar o eFootball. É recorrente que o processo de baixar o jogo seja feito em duas partes: download e instalação. Alguns jogos podem ser iniciados antes mesmo dos dois terminarem. Era o caso do simulador da Konami e abri o aplicativo assim que possível. Nova identidade visual, animação bonita para apresentar o jogo, tudo certo até aí. Fui colocado no túnel de entrada com Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, Argentina e Portugal para começar. Gráficos estranhos nas faces, faltava acabamento. A visão panorâmica do estádio era uma coisa linda. O jogo começou e, apesar de ter ido até o final e vencido por 3 a 0 – muito graças ao poderio ofensivo do 10 argentino – fique com a impressão que o jogo estava com problemas para rodar. Fechei o aplicativo, conferi o download e instalação: tudo em ordem. O jogo estava apresentando o que de melhor tinha e isso era muito estranho.

O novo projeto

O eFootball não é uma etapa da versão anterior da franquia e sim um game completamente novo. Com isso, as avaliações de projeto de jogo e identidade visual são bem diferentes de quando já há uma linha de trabalho que vai sendo modernizada ano a ano. O pacote gráfico é muito bonito: cores fortes, design jovial e iconografia simples e plástica, com a animação do logo do simulador na entrada sendo o destaque. A organização do menu também não é nada mal: minimalista, com inserções leves dos embaixadores do jogo e com os ícones fazendo o papel de guiar de forma visual. A escolha de times com o globo sinalizando de onde eles são, para mim, é 10/10.

O problema é que tudo isso não está funcionando. O que é apresentado na identidade visual é algo leve e dinâmico, ao contrário das entradas e menus do jogo. Pelo menos até agora, há diversos bugs e cortes de frames, fazendo com que a experiência do usuário ao escolher as partidas, montar plano de jogo ou alterar as opções, seja péssima. A palavra de ordem para a correção de outubro – já prometida pela Konami em nota oficial de desculpas – é fluidez.

A imersão no ambiente do estádio

A principal promessa do eFootball 2022, esta temporada do novo simulador, é levar para o jogador o ambiente do estádio. Com seus problemas, como todo o jogo apresentado até agora, isso está muito bom. Estádios mais famosos, como Camp Nou e Allianz Arena, são apresentados em detalhes e em sua totalidade, passando por chegada dos jogadores, vestiário, túnel de entrada e subida ao gramado. A ambientação começa na escolha do uniforme, ainda no menu, que apresenta as camisas posicionadas em um armário de jogador. É detalhe, mas é ponto para a Konami.

É possível ver a cadência de criação de partida em detalhes no vídeo acima. A escolha dos estádios apresenta um visual incrível, que é seguida pela entrada dos jogadores no estádio, escolha dos uniformes no vestiário – com a demonstração real na combinação de camisas – imagens do aquecimento, menu de formação das táticas e os jogadores uniformizados acertando os últimos ajustes antes da partida. Em termos de narrativa é incrível. O problema é que os acabamentos estão muito ruins e as telas pretas entre as animações demoram muito – dá sempre a impressão que o jogo travou, e talvez tenha mesmo. Além disso, já foi reconhecido pela Konami que durante as cenas pré-jogo alguns jogadores estavam sumindo das animações.

A nova dinâmica e confrontos

Desde o primeiro trailer de divulgação do jogo, Andrés Iniesta e Gerard Piqué foram colocados como os embaixadores responsáveis por garantir a veracidade dos confrontos individuais no eFootball. Tanto é que é apresentado um tutorial ensinando a nova dinâmica de movimentação e como garantir a vantagem sobre o seu opositor. Como vimos acima, o vídeo demonstra movimentos simples e de fácil execução. Na prática, foi bem difícil compreender a aplicabilidade disso no jogo e utilizá-las como apresentado. Claro que pode ser por falta de habilidade do redator, mas a gameplay não está nem de perto próxima do tutorial.

Mesmo tentando fugir, os confrontos nos levam aos memes. A atenção dedicada aos embates individuais realmente fez com que eles tenham um impacto significativo no jogo, entretanto a engine não está suportando o algoritmo. Jogadores deformados, deslizando em campo ou se misturando ao trombar são fenômenos que acontecem muitas vezes. Há algo errado na morfologia dos jogadores que não conseguem manter a estrutura corporal adequada, propiciando membros fora do lugar e movimentos nada naturais durante as divididas.

Gameplay

Se até aqui foi possível levantar pontos positivos e negativos, nesta seção não espere nada de bom. Por mais que o visual de longe – o redator gosta da câmera mais aérea possível – possibilite uma boa visão de jogo e, desta distância, o aspecto visual esteja interessante, jogar o eFootball está sendo uma experiência péssima. Com muito esforço pensando na audiência, foram disputadas em torno de 20 partidas, e nenhuma delas foi divertida ou competitiva.

O eFootball ignora os avanços conquistados no Pro Evolution Soccer. A gameplay está muito travada e a fluidez do jogo, seja através de bolas longas ou passes curtos, simplesmente não existe. Tentei diversas alternativas de jogo, mas realmente o sistema não está pronto para simular uma partida competitiva de futebol. Os jogadores são difíceis de manusear e a mudança de direção é como manobrar um caminhão. Entre os times, é possível visualizar as diferenças de movimentação, mas a impressão é que não há uma lógica definida de comportamento coletivo e o player é obrigado a torcer para um bom jogador criar oportunidades sem bola.

Se o foco estava nos confrontos, como citado no item acima, eles não se pagaram. É possível fazer a marcação e roubar a bola, mas diversas vezes há uma decepção pelo embate nada natural gerado. Além disso, um dos comandos mais clássicos dos jogos de futebol foi retirado: a contenção com o segundo jogador. Como a defesa está mais manual, é necessário fazer a marcação com um jogador não controlado no momento, enquanto se organiza a zaga. Isto não existe mais e a Konami não explicou o porquê.

Se em jogos com os times mais fortes já estava ruim, uma partida com os clubes brasileiros é impossível de se jogar. Como é possível ver comparando as gameplays apresentadas até aqui em vídeo, o comportamento sem bola dos clubes brasileiros é muito aquém da realidade. É claro que há variações de nível dos jogadores, overall e tudo mais, mas precisa pelo menos haver uma unidade em termos táticos. Se o movimento técnico será executado com tanta precisão, aí é totalmente compreensível.

Há esperança?

Como já era programado, este não é o lançamento completo do jogo. Uma grande atualização está prevista para meados de novembro em que todos os clubes e modos de jogo serão entregues. Em tese, neste momento o eFootball estará completo e poderá ser avaliado de forma mais rígida.

Com a repercussão negativa, a Konami se pronunciou um dia após o lançamento com um pedido de desculpas formal. Na nota, a produtora japonesa destaca que está ciente dos problemas apontados pela comunidade e se desculpa pela entrega abaixo do esperado. Reafirmando o compromisso de manter o eFootball em constante evolução, a empresa garante que trabalhará em melhorias já na próxima semana e que serão entregues ainda no mês de outubro.

Fica até complicado avaliar e dar nota para o eFootball. A impressão final é que o jogo – que mais parece uma demo ruim – foi entregue antes da data ideal e de maneira inacabada. Por uma estratégia de marketing ou problemas internos, este método não se pagou. É evidente que o jogo vai melhorar, afinal é bem difícil piorar, mas o que já parecia corrido agora será ainda mais acelerado para tentar reverter a péssima impressão que a comunidade tem do jogo. Para os apaixonados, curiosos ou saudosistas dos bons jogos de futebol da Konami, fica a nossa esperança de melhora na gameplay e a vontade de jogar uma partida de futebol sincera com os times brasileiros, multiplataforma e de maneira gratuita.

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João Belline

Jornalista de formação, louco dos esportes por opção. Depois de muito escalar Cartola, jogar Winning Eleven, escrever escalação dos sonhos no caderno e topar o dedão na rua, falar sobre futebol virou uma necessidade. É mais um leitor que buscou espaço no time da Trivela e entende que futebol está acima do clube.

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