Futebol feminino

O dia em que o São José venceu o Arsenal e se tornou o único campeão brasileiro do Mundial feminino

Equipe brasileira venceu time inglês por 2 a 0 e conquistou o título do Mundial de Clubes Feminino em 2014

O anúncio da Fifa sobre a criação do Mundial de Clubes feminino, que será disputado em 2028, pode ter trazido a impressão de torneio inédito, mas a história da competição já esteve relacionada ao Brasil há cerca de uma década. 

Para entender a trajetória da competição, voltamos ao ano de 2009, quando os primeiros pedidos de um campeonato de futebol feminino em escala mundial, organizado pela Fifa, começaram a surgir em meio a um cenário de futebol feminino com poucos investimentos e sem grandes estruturas.

Com a possibilidade de ser realizado no Brasil, o projeto, contudo, não saiu do papel. Apesar da desistência da Fifa, a busca por uma nova competição internacional permaneceu. 

Entre os representantes que reforçaram a importância da criação do torneio estavam o Santos, a Federação Paulista de Futebol e a agência de marketing esportivo Sport Promotion. Sem ações diretas da Fifa, o clube, a federação e a empresa firmaram uma parceria, que resultou na criação de uma competição substituta: o Torneio Internacional Interclubes de Futebol Feminino de 2011, que tinha como objetivo reunir algumas das melhores equipes do mundo à época. 

A jornalista, pesquisadora e produtora cultural especialista em futebol feminino, Lu Castro, relembrou a trajetória do Santos, com investimento no futebol feminino, especialmente em 2009 e, consequentemente com a contratação de Marta.

— Em 2009, o cenário era bem diferente, mas dava sinais de um ‘boom’, especialmente com a presença da Marta. As peneiras das Sereias da Vila bateram recordes de procura. Boa parte dos esforços para que o Mundial acontecesse naquela época partia do Santos e do seu diretor de futebol feminino, Roma Jr., um grande incentivador da modalidade — relembra ela.

A primeira tentativa: Torneio Internacional Interclubes

Apesar dos esforços para a realização, apenas uma equipe estrangeira participou da competição: a Umea IK, campeã europeia em 2003 e 2004 e time em que Marta atuou entre 2004 e 2008. O Manchester United e o New York Flash também foram convidados, mas optaram pela não participação na disputa.

A competição então aconteceu em Araraquara e com a presença dos brasileiros Foz do Iguaçu, Palmeiras e o próprio Santos — potência do futebol feminino sul-americano da época com Marta e Cristiane –, recém campeão da primeira edição da Libertadores, além do Umea IK.

Com o número reduzido de equipes, a competição contou com apenas um grupo. Na primeira fase, as equipes jogaram entre si, dentro da chave e em turno único, classificando-se para a próxima fase as duas equipes com o maior número de pontos ganhos no respectivo grupo.

A ordem ficou com Santos, Foz do Iguaçu, Palmeiras e Umea. Os dois últimos fizeram a disputa do terceiro lugar, na qual as brasileiras levaram a melhor, vencendo as adversárias por 3 a 1.

A final foi decidida entre Santos e Foz de Iguaçu. Na ocasião, as Sereias da Vila derrotaram o Foz do Iguaçu por 3 a 2, tornando-se campeão de forma invicta. Sem a adesão da Fifa, a competição não contou com novas edições. 

“É uma motivação a mais que a gente leva para dentro de campo para desempenhar o nosso papel. Joguei cinco temporadas pelo Umea, hoje é uma equipe mais nova, o pessoal é bem diferente daquela época que eu comecei”, declarou Marta à época em entrevistas para a “Band” e para o canal do Santos.

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Santos, campeão da Libertadores em 2009 (Foto: Santos FC/Reprodução)

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Japão à frente de novo Mundial

Ainda sem apoio da Fifa e organizado pela Associação Japonesa de Futebol, a International Women’s Club Championship (em inglês) foi outra competição de âmbito mundial realizada entre 2012 e 2014.

É importante lembrar que o Japão fomentou a cultura do futebol feminino no país e se tornando referência mundial na modalidade, conquistando a Copa do Mundo da Alemanha, em 2011, além dos títulos na Copa do Mundo sub-20 e sub-17, em cinco e seis ocasiões, respectivamente.

A primeira edição do Campeonato Internacional de Clubes Feminino foi realizada durante os dias 30 de novembro e 7 de dezembro contou com participação de quatro equipes, inclusive a potência da Europa, Lyon, além da Canberra United (Austrália), INAC Kobe Leonessa (Japão) e NTV Beleza (Japão). As francesas sagraram-se campeãs da primeira edição, enquanto INAC Kobe Leonessa foi detentora do títulos de 2013.

São José venceu o Arsenal e se tornou campeão

Em 2014, o torneio contou com a representação brasileira em campo. A equipe do São José-SP, atual campeã da Libertadores, chegava ao Mundial com um elenco repleto de estrelas da seleção brasileira, com sete jogadoras campeãs nacionais na Copa América.

No elenco estavam a lateral-direita Poliana, a zagueira Bruna Benites, a volante Formiga, a meia-atacante Andressa Alves, as atacantes Giovânia e Chu, além da goleira Andreia Suntaque e Debinha.

— Eu estava jogando na Noruega e eu vim justamente para disputar a Libertadores e o Mundial. Era um grupo muito forte, meninas de seleção brasileira, em sua maioria. Um grupo muito coeso, muito técnico realmente e que fez toda diferença — relembra Rosana Augusto, atual técnica da equipe feminina do Flamengo, em entrevista à Trivela.

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São José é o primeiro time brasileiro a conquistar título de Campeão Mundial Feminina (Foto: Mengo do Japão/Divulgação/True/Reprodução Prefeitura de São José dos Campos)

Para a edição, seis equipes foram convidadas: Melbourne Victory FC (campeã australiana da W-League), São José Esporte Clube (campeã sul-americana), Arsenal (campeã da FA Women’s Cup), Jiangsu Huatai Securities Women’s Football Club (campeã do Torneio Preliminar da IWCC*), Okayama Yunogo Belle (campeã da Série Regular da Liga Nadeshiko) e o Urawa Red Diamonds Ladies (campeã da Liga Nadeshiko). Já o Wolfsburg, campeão da Liga dos Campeões da UEFA, não participou.

Seguindo o sistema de disputa do Mundial de Clubes masculino da Fifa, o torneio feminino colocava os campeões da América e da Europa iniciando as disputas já na semifinal. O primeiro desafio do São José foi contra o Urawa Red Diamonds, onde se classificou à final após uma vitória por 1 a 0. Já o Arsenal superou o Okayama com o placar de 2 a 0.

São José e Arsenal se enfrentaram de forma invicta e o brilho ficou com as brasileiras. Em uma partida memorável para a história do futebol de mulheres no Brasil, as Meninas da Águia venceram o Arsenal — à época, o campeão europeu — por 2 a 0, no estádio de Nishigaoka, em Tóquio. Rosana Augusto abriu o placar aos quatro minutos do primeiro tempo e Giovânia marcou de pênalti, aos 26 minutos do segundo tempo.

— Foi uma partida memorável, nós jogamos bem, com muita imposição e com uma equipe fortíssima que era o Arsenal. Eu me lembro de ter ficado muito feliz por ter marcado o gol pela representatividade daquilo. A experiência do Mundial foi muito bacana. Foi a primeira vez que teve um Mundial, mesmo sendo sem a chancela da Fifa, mas com quatro equipes muito fortes e a gente vencendo um time japonês, vencendo o Arsenal na final, foi sem dúvidas um marco para um time brasileiro, primeiro campeão mundial da história — declara Rosana.

Apesar de não ter a chancela da principal entidade do futebol, os times classificados, o formato e a disputa caracterizam a competição como um Mundial de Clubes. Logo, o São José foi o primeiro — e único — campeão brasileiro do torneio.

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São José enfrentou o Arsenal na final do Mundial de Clubes feminino (Foto: Mengo do Japão/Divulgação/True/Reprodução Prefeitura de São José dos Campos)

Oficialmente, Mundial de Clubes e novo calendário para o futebol feminino

Com o futebol feminino em ascensão e batendo recordes de público e consumo ao redor do mundo, a Federação Internacional de Futebol (Fifa) anunciou a criação da Copa das Campeãs da FIFA, em 2026 e o Mundial de Clubes, em 2028.

De acordo com a decisão do Conselho da Fifa, aprovado em março de 2025, a edição inaugural do quadrienal Mundial de Clubes da FIFA será realizado entre janeiro e fevereiro de 2028. Seis clubes representando AFC, CAF, Concacaf, Conmebol, OFC e a Uefa participarão de uma fase preliminar.

Os três vencedores avançam para a fase de grupos e se juntam aos outros 13 clubes. AFC, CAF, Concacaf e Conmebol terão duas vagas diretas cada, com a Uefa tendo cinco representantes garantidos. Já a fase de grupos será formada por quatro grupos de quatro times, com dois times de cada chave avançando para o mata-mata.

Todos os jogos — desde a fase preliminar até a final — serão realizados em campo neutro determinado pela Fifa. A classificação para a edição de 2032 será definida posteriormente, com os resultados e performances dos clubes nas competições dos anos anteriores.

UEFA Womens  Champions League 2025 final game between Arsenal FC and FC Barcelona
Arsenal e Barcelona, potências do futebol feminino, durante a final da Champions League Feminina (Foto: IMAGO)

Para Rosana Augusto, o anúncio do Mundial de Clubes é importante para o desenvolvimento e visibilidade ainda maior do futebol feminino em escala mundial.

— [O primeiro Mundial] Foi uma coisa meio independente, sem a chancela da Fifa, mas que foi muito especial. Uma pena que não deu sequência, mas fico feliz que agora em 2028 o Mundial já retorna, de uma forma diferente, com mais equipes participantes, de uma forma mais coesa. Isso significa muito para o futebol feminino. É um desenvolvimento de forma gradativa, mas sempre evoluindo e a gente espera sempre que melhore cada vez mais. Eu tenho certeza que vai ser um grande mundial — finaliza.

O Conselho da Fifa também aprovou a criação da Copa das Campeãs da Fifa, que reunirá os seis campeões continentais do futebol feminino da temporada em 2026. A fase preliminar da competição irá conter duas rodadas de mata-mata, com datas exatas a serem apresentadas em conjunto pelos respectivos clubes e confederações envolvidos.

Os campeões da AFC recebem os campeões da OFC na primeira rodada, com os vencedores da CAF enfrentando os ganhadores deste duelo na segunda fase. Quem avançar destes jogos estará na fase final, que será disputada entre 28 de janeiro (quarta-feira) e 1º de fevereiro (domingo) de 2026.

Os semifinalistas vindo da segunda fase enfrentarão os campeões da Uefa, enquanto os representantes da Concacaf medirão forças com os campeões da Conmebol. Os ganhadores das semifinais vão disputar o título, enquanto os perdedores vão para o jogo pelo terceiro lugar.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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