Marta faz 40 anos: A origem, os primeiros passos e o outro lado da Rainha de trajetória ímpar
Nome da alagoana é repleto de significados por quem a acompanha de perto e ilustra força mental e determinação da atleta que transcendem para além das quatro linhas
A experiência de colocar um simples “Marta” no Google é interessante. A plataforma logo sugere como complemento a palavra “jogadora”.
Mas esse nome de cinco letras é carregado de significados e histórias que vão além do esporte e nenhuma tela, vídeo ou texto seria capaz de retratar com a devida justiça o que a Marta Vieira da Silva representa, nem mesmo esta tentativa carregada de emoções. Afinal, como explicar o extraordinário?
Marta: A origem de uma lenda
Marta se interessa por jogar bola ainda criança, em uma época que o futebol feminino no Brasil tentava superar os anos de proibição que o assolou entre 1941 e 1979. Ela nasceu em 19 de fevereiro de 1986, apenas três anos depois que a modalidade foi regulamentada no País.
— Ela era muito piveta. A gente ouvia falar muito dela porque desde cedo ela chamou a atenção por jogar com os meninos embaixo da ponte. Um monte de meninos jogando e Marta no meio — diz Betânia Firmino de Lima à Trivela.

Betânia é uma professora de Dois Riachos, que fica a cerca de 184 km de Maceió, capital de Alagoas. A cidade se popularizou por ser o município natal de Marta, ligação que se transformou em orgulho.
No entanto, nem sempre foi assim. Por que uma menina queria jogar futebol nos anos 90? O “inexplicável” causava estranheza. “Era sempre uma briga, uma confusão”, relembra ela.
O sonho fez a então adolescente Marta desembarcar no Rio de Janeiro em 2000, aos 14 anos. “Sem a gente saber, ela veio de Dois Riachos sozinha ao encontro de um primo dela aqui”, diz a técnica Helena Pacheco à Trivela. “Ele levou ela no Vasco”.

Helena atendeu com entusiasmo ao pedido de entrevista da Trivela e prontamente arrumou um tempo na agenda para conversar com a reportagem. A videochamada foi como abrir um livro de memórias.
A treinadora relembra ter sido designada por Eurico Miranda, então vice-presidente de futebol do Vasco, a criar uma equipe de futebol feminino depois de obter sucesso no futsal.
Mudar a modalidade exigia mais atletas. “No futsal, que você precisa só de 12 ou 15 jogadoras, no campo você precisa de 25 a 30”, salienta. Com “muito investimento” por parte do clube e de Eurico, houve pedidos para que pudesse ter jogadoras de outras cidades ou estados no time.
“Eu tive a ideia de fazer sub-15 e sub-17”, comenta a técnica. “Aí vieram muitas jogadoras com muito talento, dentre elas, a Marta de Dois Riachos”.
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De Dois Riachos para o mundo
O primeiro contato com Marta, diz Helena, lhe revelou quão boa ela seria. O assistente técnico até se surpreendeu ao ouvir a afirmação “essa menina aí vai jogar bola” sair da boca da treinadora.
— Ele falou: ‘Mas Helena, você nem viu ela tocar na bola’. Eu falei: ‘Mas o olhar dela é um olhar de raiva da vida. E ela jogava bola descalça, ela falou para mim’.
A tímida adolescente não tinha chuteira ou qualquer outro material necessário para jogar. Ela mantinha os olhos fitados em um treino de futsal que acontecia perto de onde conversava com a treinadora.
Na verdade, “conversava” não era bem a palavra. “Foi só um monólogo, porque ela não abriu a boca”, relembra a carioca, aos risos. “Ela só falava com a cabeça ‘sim e não’”.
A equipe técnica pediu à alagoana que retornasse no dia seguinte e providenciou o material necessário para que ela pudesse exibir seus talentos.
Chegado o grande dia, Marta parecia perdida nas atividades de alongamento e aquecimento. A situação mudou tão logo os exercícios com a bola começaram.
— Ela estava toda tímida, toda encolhida, na hora que estava se alongando, se aquecendo e até correndo. Quando a bola foi para o pé dela, parecia que ela cresceu — lembra Helena.
— Ela mudou a postura toda e começou a bater na bola – a gente viu que ela era canhota, né? – começou a ver bater na bola e a bater muito bem. Eu ri e falei para ele (assistente): ‘Olha, acho que eu tenho razão’. Ela começou a bater bola com se já fosse uma coisa comum pra ela.
Sob sol ou chuva, Marta era a primeira a chegar e a última a sair dos treinos. A joia queria aprender tudo o que tivesse ao alcance, fosse bater pênalti, escanteio ou falta. Porém, um detalhe enfrentava mais resistência.
— Como ela era muito novinha e canhota, a gente tentava que ela também trabalhasse com a perna direita e ela resistia um pouco — diz a técnica.
A treinadora e seus auxiliares não viam problema na situação. Formada em Psicologia e Educação Física, Helena analisa que aquilo era fácil de justificar.
— Ela era muito novinha, muito medrosa e até brigona. Brigava com as pessoas, porque ela se defendia, né? Ela relutava algumas coisas porque eu acho que é da idade, era uma adolescente. Relutava às vezes em entender algumas coisas de parte física, que é sacrificante. Mas não era relutar de não fazer, era apenas um questionamento.
A promessa também tinha algo inegociável: o compromisso com uma de suas maiores incentivadoras — para dizer o mínimo — dona Tereza da Silva, sua mãe.
— O primeiro dinheirinho que ela ganhou, ela virou pra mim e falou: ‘Manda todo o dinheiro pra minha mãe, eu não quero estar com dinheiro nenhum aqui — narra a técnica.
‘Minha mãe precisa mais que eu’
O time feminino do Vasco era potência no Brasil entre os anos 90 e 2000. Até por isso Helena Pacheco faz questão de enfatizar que Marta não era a única joia lapidada pelo Cruzmaltino naquele tempo.
Outras grandes atletas, como Pretinha, Roseli, Kátia Cilene, Sissi, Fanta e Leda Maria, passaram pelo clube — e por seu crivo –, conquistaram espaço no cenário da modalidade e fizeram história na seleção brasileira.
Todas compartilharam o sentimento de decepção quando souberam que a categoria feminina do clube iria acabar.
Marta e as outras profissionais que estavam no Vasco há muito tempo tiveram decisões difíceis a se tomar. “Foi um momento muito ruim”, afirma a treinadora.
Helena conseguiu negociar ao menos um ano de alojamento e alimentação às jogadoras nas instalações da instituição, mas muitas que não eram do Rio de Janeiro decidiram voltar às origens. As que ficavam, a comissão técnica se esforçava por realocá-las em outras equipes.
A determinada Marta, focada em ajudar a família, sequer cogitou retornar a Dois Riachos. Toda e qualquer oportunidade que surgia, a jovem jogadora abraçava, e a mentora reconhece: “Deve ter sido um sentimento de muita dificuldade. Ela ficou muito à mercê do que os outros iam proporcionar”.
Diante de tantos desafios, uma palavra jamais foi verbalizada pela alagoana: desistir.
— Então, nunca ouvi isso da boca dela. Nunca falou sobre isso. Encontrava com ela, quando ela ia lá no clube, e ela nunca mencionava isso. Até porque ela ligava e falava: ‘Eu estou indo para Minas (Gerais) jogar’, ‘estou indo para São Paulo jogar…’
Até o dia em que o destino estava do outro lado do Atlântico. Aí a conversa precisou ser pessoalmente.
A então promessa dava os primeiros passos na vida adulta quando surgiu uma proposta do Umea IK, da Suécia. Felicidade e receio se misturaram.

— Ela conseguiu esse contrato e veio mostrar para mim com medo do que poderia ser. E evidentemente conseguir entender o que era, se era verdadeiro. Tinha muito medo de ser uma coisa de tráfico de meninas. Mas a CBF deu todo o apoio, a gente fez tudo para que ela fosse com todas as garantias — salienta Helena.
Àquela altura, a técnica não era mais apenas a “professora” para Marta. “Eu dava uma de…”, hesita ela, que pensa e, em seguida, complementa aos risos. “Já não sabia mais se eu era mãe ou avó”.
A relação entre pupila e mentora era de muita sinceridade, como quando Marta foi indicada ao prêmio de Melhor Jogadora do Mundo em 2004, após conquistar medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas e ser alçada ao posto de número um da modalidade no Mundial Sub-20.
— Ela falou: ‘Helena, fui indicada para ser a melhor do mundo’. Aí eu falei assim: ‘Que legal, mas você não vai ganhar não, tá? Vai ganhar a americana que foi campeã olímpica — relembra a técnica.

O bom “feeling” da treinadora novamente acertou. A atacante alemã Birgit Prinz ficou com o troféu, e Marta ocupou o terceiro lugar.
— Ela disse: ‘Mas eu fui melhor, fui artilheira’. Eu falei: ‘É, mas é político. Espera que você vai ser (a melhor do mundo)’. E realmente ela não ganhou. E (depois) ela falou: ‘Você me zoando, (dizendo) que eu não ia ganhar. Eu vou ganhar na próxima vez’. E aí partiu Marta para o mundo.
O nome da alagoana alcançou cada vez mais projeção conforme os anos se passaram e o histórico da premiação reflete isso. Em 2005, segundo lugar, e em 2006, a profecia se cumpriu. A “Marta de Dois Riachos” coloca a coroa do futebol feminino pela primeira vez.
Helena Pacheco se emociona ao lembrar do reencontro com a jogadora no Brasil após a conquista. “A gente participou um pouco dessa vida dela, de construção. Todos nós sabíamos, mas evidentemente ninguém vislumbrava a ideia de ela ser a melhor do mundo”, comenta.
— A partir do momento que eu comecei a ver que ela era artilheira do campeonato da Suécia, depois era artilheira do campeonato europeu, aí sabia que isso aconteceria. Sabia que o voo dela ia ser gigante. Aí a emoção é normal. Você participar da vida de um atleta que passa a ser referência é sempre muito gratificante.

O sonho de Marta além do futebol
O sucesso da Marta atacante crescia em paralelo a um grande sonho alheio às quatro linhas. Se em campo o foco era disputar competições como Copa do Mundo e Olimpíadas, fora dos gramados o objetivo era construir um lar para os animais em situação de rua.
A relação com os animais, que já era sensível, ficou ainda mais emocionante com a chegada de Candinho, que apareceu para transformar a vida da atleta e reaproximar a convivência com os bichinhos.
— Quando eu morava em Dois Riachos, a gente via os cachorrinhos na rua. Aí, uma vez lá em Belo Horizonte, eu fui tentar ser simpática com uma cachorrinha e ela deu uma mordida na minha coxa e eu fiquei com aquele medo, mas Candinho quebrou isso — contou a jogadora em entrevista à CBF.
O relato foi dado em 2018, época em que Marta também viveu momento delicado no Chile, durante compromissos com a seleção brasileira. E foi essa experiência que se transformou em plano de vida.
— Quando a gente foi para os treinos no Chile, percebemos que tinham muitos cachorros na rua. Esses dias eu não aguentei, comecei a chorar dentro do ônibus, virei até o rosto para ninguém ver porque é muito difícil ver isso. Se eu tivesse condições, eu queria ter um lugarzinho para pegar todos os cachorros da rua, dar água, comida, uma lar, sabe? — afirmou a jogadora na ocasião.

Quis o futuro que Marta mantivesse a essência de nunca desistir de um sonho, e o lar para os animais passou a ser um projeto que seria concretizado em questão de tempo.
Betânia Firmino de Lima, aquela mesma que aparece no início do texto, foi um guia para incentivar a jogadora a colocar os planos em prática. Amiga de Dona Tereza, a mãe de Marta, a professora fazia parte de um grupo de voluntários que cuidava de animais abandonados e em situação de rua em Dois Riachos.
— Eu e mais 35 pessoas. Nós temos um grupo onde somos voluntários. A gente fazia sorteio, bingos, pedia brindes no comércio para angariar fundos para que a gente pudesse castrar os animais, porque vimos que a população dos animais de rua estava crescendo muito — explica Betânia à Trivela.
Apesar dos esforços, os voluntários esbarravam em dificuldades estruturais. A professora conta que era necessário usar uma casa emprestada do pai de um dos membros do grupo para abrigar os animais acolhidos, só que havia um problema: “Não era um lugar que a gente pudesse dar um conforto”.
Ao mesmo tempo, a equipe percebeu aumento no número de doações. Betânia relata que, em 2017, notou a chegada de artigos como material de limpeza, caixinhas de resgate e ração, mas não sabia de onde vinham os itens, já que eram intermediados por meio de uma amiga em comum.
Foi quando veio o primeiro contato com Marta sobre o projeto. Segundo Betânia, a alagoana desabafou que os animais estavam sendo maltratados e isso doía. Ela queria um lugar onde os bichinhos tivessem abrigo, segurança e auxílio.
— Um dia Marta estava aqui na rua e me disse: ‘Eu estou precisando falar com você’. Ela me contou que tinha um grande propósito aqui no município que era construir um canil em Dois Riachos — afirmou a professora.
Com o projeto ainda em construção, os voluntários passaram por momentos delicados ao precisar socorrer animais de forma emergencial. Foi com a ajuda de Marta que conseguiram salvar os pets abandonados da cidade.
— Em 2022, o canil não estava nem pronto ainda, e eu lembro que estava no inverno, chovendo muito, e tinha uma cachorrinha na rua que ela estava muito doente, com pneumonia. Marta disse que ia procurar saber e, em dois dias, pediu que a gente levasse na médica. A gente não tinha carro, fomos no carro do irmão dela. Lembro que foi o primeiro resgate que eu fiz — conta Betânia.
Mais tarde naquele ano, o canil e gatil “Lar Doce Lar” foi inaugurado. Atualmente o espaço abriga mais de 200 animais, que recebem a visita da rainha durante as passagens dela pelo Brasil.
— Ela nunca deixa de visitar, ela sempre vem, pega uma ou duas horas que tem livre e vem. Até porque, ela tem muita gente pra dar conta: família, amigos, às vezes tem contratos, tem agenda cheia, mas ela nunca deixou de visitar. Ela tem que passar para ver os ‘doguinhos’, não tem como — explica a professora.
A presidente da ONG conta que, apesar da distância, Marta sempre se faz presente desde a gestão até a atenção destinada aos próprios bichinhos.
— Ela sempre deu todo o apoio. Ela é quem paga os nossos colaboradores, ração. Sem ela, nada disso estaria acontecendo, tudo é luta dela. Ela entra, abraça, quer ver de perto. Eles (os animais) caem em cima dela. Os animais sentem quem gosta deles — destaca Betânia.
— É impossível você chegar no canil e não lembrar de Marta. Você ter um teto, ter um teto, ter comida, remédio, uma boa qualidade de vida, você tem tudo. E o animal precisa disso, porque ele só tem amor para nos oferecer.
Marta por quem a viu crescer e se transformar
A trajetória firmada entre Betânia e Marta foi como um filme de provação e persistência. Ela viu não apenas a luta da mãe, mas também da filha e de seus outros três irmãos: Ângela, José e Valdir.
A professora, que acompanhou cada passo, lembra que a jogadora precisou enfrentar muitos desafios. Se pudesse descrever brevemente a alagoana, seria “um ser humano maravilhoso, de um coração ímpar”.
— A mãe dela trabalhava na prefeitura e eu era professora. Ela trabalhava na cozinha e sempre nos levava café. Só quem conhece Marta no íntimo sabe da luta que foi a vida dela. Ela tinha tudo para ser uma pessoa revoltada, por todo o sofrimento que ela passou desde criança, porque passou por grandes necessidades, a família toda — declara.
— Eu nunca vi Marta sendo grossa com alguém, nunca vi Marta dizer “não”. Na verdade, ela nunca diz ‘não’ e acho que esse é o defeito que ela tem, porque às vezes ela entra em cada roubada. Mas isso sempre fez parte dela e sempre será ela: Marta Silva.
A admiração não é à toa. Mesmo longe dos gramados, das coletivas de imprensa e de tudo aquilo que contempla uma estrela, Marta é puramente…Marta. Aquela que acolhe, que chora, que brinca. Essa Marta não muda. Mesmo quando vira a chave de jogadora para filha, irmã, protetora de animais ou amiga.
— A amiga, o ser humano em si, é uma pessoa humilde. Ela tem um coração de ouro. Ela ri junto com você, ela chora junto com você e sente a sua dor. Onde ela chega, ela transforma. Ela pode ter os milhões, as casas, empresas, mas a Marta pessoa nunca perdeu a essência de boa gente, de mão estendida, de ajudar o outro — descreve Betânia.

Se o nome da atacante se tornasse verbete no dicionário, poderia até traduzir ações ou adjetivos. Mas as definições que foram ditas por quem conheceu a rainha para além do que é visto nos 90 minutos mostram a imensidão da existência da alagoana, que ainda deixa a desejar diante da história.
Referência, assistiu o futebol se transformar, viu o seu nome ser destinado a um troféu da Fifa, se despediu de uma geração que abriu caminhos para a modalidade e passou a ser guia daquelas que chegam para trilhar uma nova fase.
Agora, aos 40 anos, Marta deixou de representar “uma jogadora” e se tornou quase um sentimento. Emoção essa que vive e pulsa em cada um de nós.
Mas nada é por acaso. Porque quando uma pessoa nasce para entrar para a história, até as coincidências se tornam destino.
É que Marta nasceu no mesmo ano em que a seleção brasileira feminina dava os primeiros passos e, quem sabe, os amantes do futebol assistirão a rainha coroar o seu reinado na Copa do Mundo em pleno Brasil.



