Futebol feminino

‘Terrível’: O alerta que a saída de Rosana e a ‘readequação’ deixam no Flamengo feminino

Rubro-Negro decide fazer mudanças drásticas para a temporada 2026 e gera preocupação quanto ao aprimoramento da equipe e desenvolvimento da base

O futebol feminino brasileiro foi surpreendido por um anúncio do Flamengo na quinta-feira (16). O clube informou a saída da técnica Rosana Augusto “em comum acordo” e destacou que o departamento da modalidade vai passar por mudanças em 2026.

Com base na nota, é possível saber que a diretoria pretende utilizar mais atletas formadas nas categorias de base no elenco profissional a partir da temporada vindoura, “reforçando o DNA ‘Craque o Flamengo faz em casa’”, diz o Rubro-Negro.

A iniciativa seria celebrável se não fosse por um fator que acendeu alerta.

— O planejamento para 2026 já está em andamento e haverá uma readequação do orçamento.

O clube não divulgou mais detalhes sobre a projetada readequação, mas o comunicado deixa perspectivas pouco animadoras para o futebol feminino na Gávea. “Até que se prove o contrário, achei terrível”, diz à Trivela Rafael Alves, editor do “Planeta Futebol Feminino” e comentarista no “GOAT”.

— Fala em readequação orçamentária. O que, via de regra, pode significar, que você não vai aumentar o investimento. Ficaria muito surpreso se o Flamengo anunciasse um aumento no investimento. No máximo vai manter o investimento que estava nos últimos anos.

Por que reestruturação do Flamengo no feminino é preocupante?

Dessa forma, a situação pode ser um banho de água fria em um clube que parecia caminhar ao estrelato na modalidade. A gestão do atual presidente, Luiz Eduardo Baptista — o Bap — começou repleta de reformulações internas, que incluiu transferir tudo relacionado ao feminino à pasta de esportes olímpicos, dirigida por Marcus Vinícius Freire.

Freire concedeu entrevista à “FlamengoTV” e afirmou que, com isso, a categoria seria colocada em uma prateleira mais elevada e sairia da “sombra” do time masculino.

As mudanças continuaram. Maurício Salgado se despediu do comando técnico em abril para dar lugar à ex-jogadora Rosana, que treinava a seleção brasileira sub-20.

Rosana foi a primeira mulher a assumir o posto de técnica da modalidade no Flamengo e chegou com a missão de alçar as Meninas da Gávea a voos mais altos no futebol feminino brasileiro. Isso significava, além da conquista de títulos, estabelecer a equipe entre as principais do País.

O elenco à disposição incluía estrelas consagradas, como as atacantes Cristiane e Gláucia e a lateral-direita Fabi Simões, mas desde o começo do trabalho da treinadora, foi perceptível que haveria uma mescla de experiência e juventude.

Assim, joias como Laysa, atacante, e Mariana, meia-atacante, se tornaram ainda mais importantes nos jogos da temporada 2025.

A saída de Rosana foi uma surpresa, dado o trabalho desenvolvido. A treinadora conseguiu montar uma equipe competitiva e forte, com desempenho notório que culminou em quartas de final no Brasileirão feminino, além de conquistar o título da Copa Rio logo na estreia no time. Em 19 jogos, 13 vitórias, três empates e três derrotas.

— Nos últimos anos, o Flamengo patinou na questão de montar um time competitivo, nunca tinha um time 100% confiável nas disputas. O ataque bom, defesa não ajudava. Quando tinha uma defesa mais ou menos boa, o ataque não era eficiente. Tinha bons nomes, mas não estavam em boa fase individual… Quando a Rosana chega, conserta um pouco isso. O Flamengo é um outro Flamengo. É mais competitivo, um Flamengo que tem suas grandes peças potencializadas. Quando finalmente acha alguém que encare esse desafio e tope melhorar o perfil da equipe e ter uma expectativa para o ano que vem, aí o Flamengo dá esse passo para trás — destaca Alves.

Time feminino do Flamengo antes de jogo contra o São Paulo
Time feminino do Flamengo antes de jogo contra o São Paulo (Foto: Rebeca Reis/Staff Images Woman/CBF)

Ao se despedir, Rosana afirmou que o projeto pretendido pela diretoria não atendia às suas expectativas pessoais para o momento.

— Foram quase seis meses de total entrega e dedicação a este clube gigante. Neste período, conseguimos imprimir um pouco do DNA da instituição também na equipe feminina, com performance e resultados importantes, trazendo a torcida ainda mais para o nosso lado.. (…) Entendendo que, neste momento de minha carreira, o novo projeto do clube não corresponde às expectativas, optei por essa decisão juntamente à diretoria — declarou ela em comunicado oficial.

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Muitas incertezas quanto ao futuro do Flamengo Feminino

Caso se confirme que a readequação será focada em reduzir — ou, na melhor das hipóteses, manter — os investimentos, deve-se considerar também o impacto que a situação pode ter no desenvolvimento das atletas reveladas no clube.

— É um bom momento para que se trabalhe, de fato, as categorias de base, mas sobretudo é um bom momento que se cobre que o Flamengo dê condições para que esse trabalho possa ser desenvolvido. É muito cômodo eu falar que vou apostar na base e manter o investimento. Você continuar fazendo atletas treinarem em lugares que não têm as devidas condições, jogando em estádios que não têm as devidas condições.

— Então, se o Flamengo vai ao menos colocar condições melhores para sua base no feminino, ok, menos mal. Mas, como a gente escuta e sabe que, quando vem com esse papo de readequação de investimento, a gente não cria tanta expectativa sobre isso.

Rafael Alves reflete ser possível também que jogadoras com folha salarial alta deixarem o Rubro-Negro diante da possibilidade de menor aporte à modalidade.

Cristiane, atacante do Flamengo
Cristiane, atacante do Flamengo (Foto: Alê Torres/ Staff Images Woman/CBF)

Além disso, as categorias de base do Flamengo passaram por uma alteração significativa em julho do ano passado.

Ainda com Rodolfo Landim na presidência, a diretoria decidiu encerrar a divisão sub-17 da base feminina. Apenas a categoria sub-20 — obrigatória pelas regras da Conmebol para clubes que queiram participar de torneios da entidade no masculino — foi mantida.

Ao “ge”, o então vice-presidente de futebol feminino do Flamengo, Vitor Zanelli, afirmou que a direção alterou o planejamento e apostou em captação de talentos por meio de projetos sociais por causa do calendário “curto” da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na base.

Todas as movimentações administrativas pelas quais a equipe feminina passa na Gávea preocupam também pelo momento do esporte no Brasil, que será sede da Copa do Mundo 2027.

— O Flamengo tem um potencial no futebol brasileiro muito grande. Para além da marca e sua torcida, tudo aquilo que se pode explorar comercialmente falando, o Flamengo abre mão de um grande potencial, que seria manter e aprimorar o time feminino — conclui Alves.

O que diz o Flamengo

A Trivela entrou em contato com o Flamengo para apurar detalhes da mudança planejada no futebol feminino, mas o clube não se pronunciou. No entanto, André Rocha, gerente da modalidade, falou à TV da instituição que a saída de Rosana foi um “reajuste” do projeto.

— É uma redefinição de caminho a ser seguido. O que queria deixar claro para a torcida são alguns pontos. A única saída do Flamengo foi a da treinadora, o resto continua da mesma forma. Não existe desmanche. Pela primeira vez, inclusive, será o ano em que teremos menos mudanças no elenco. A base da equipe do Flamengo para o próximo ano é a mesma. O Flamengo continua competitivo. A única alteração que vamos fazer que vai impactar a médio prazo é a mudança da situação orçamentária — iniciou.

Sobre a readequação, o executivo disse que a intenção é fazer o futebol feminino “caminhar com as próprias pernas”. “Acreditamos que a modalidade está crescendo, tem tudo para ser forte, e agora chegou o momento de a gente ter essa comprovação no mercado. O que muda é que a gente tira as despesas do futebol feminino do futebol masculino, e a gente vai trabalhar com a independência financeira”.

— Tenho certeza que vai aparecer várias empresas, vários parceiros, com interesse em fomentar o futebol feminino do clube. É um período curto de readequação, período de entendimento da aceitação do futebol feminino no mercado de marcas e parceiros, mas que a gente acredita muito na modalidade e tem certeza que esse reajuste vai acontecer e essa adequação de parceiros próximos para o futebol feminino vai vir com velocidade, e isso vai impactar o mínimo possível no campo.

Em relação ao uso de atletas da base, Rocha afirmou ser importante fomentar o desenvolvimento de joias para tornar a categoria mais sustentável, e negou que jogadoras experientes devem deixar o time.

Segundo ele, as veteranas vão ajudar no processo de transição das jovens. “Precisamos ter uma base forte porque são essas meninas que vão trabalhar na renovação, que serão o futuro do futebol. A gente precisa dessa renovação”, completou.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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