Por que Emily Lima se afastou das sondagens da CBF e decidiu ficar no Peru
Emily Lima foi muito citada e sondada pela CBF quando Pia foi demitida da Seleção, mas decidiu ficar no Peru e conta o porquê em exclusiva à Trivela
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) citou Emily Lima em nota oficial como uma opção para assumir o cargo de técnica da Seleção Brasileira feminina, após a saída de Pia Sundhage. A vaga ficou com Arthur Elias, do Corinthians, e a atual treinadora da seleção peruana procurou se desvencilhar das sondagens para prosseguir com o trabalho.
Emily conversou com a Trivela e justificou o projeto que a fez abdicar de conversas mais profundas com a CBF. A treinadora, que já dirigiu a Seleção entre 2016 e 2017, atualmente tem como objetivo o desenvolvimento da modalidade em países sul-americanos.

Emily quer criar adversárias à altura para o Brasil
Antes de assumir o Peru, Emily trabalhou no Equador por dois anos, período no qual ajudou no desenvolvimento do futebol no país. De Quito a Lima, a treinadora quer crescer o cenário, a fim de aumentar a competitividade contra a seleção brasileira.
No Peru, os efeitos desejados por Emily são testemunhados. No último sábado, mais de 42 mil pessoas se reuniram no estádio do Universitário para acompanhar o clássico contra o Alianza Lima. Foi o maior público registrado em uma partida de clubes do futebol feminino na América do Sul.
– Isso prova que pode fazer, mesmo aqui no Peru, olha quantas pessoas estavam assistindo no estádio e, no YouTube, 60 mil pessoas. É um número muito significativo. A gente precisa estar aqui pra forçar que se pode fazer diferente – assegura.
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Confira a íntegra da conversa exclusiva com Emily Lima:
Trivela: Como foi essa transição e como se deu essa sua chegada à seleção do Peru?
Emily Lima: Quando acaba a Copa América de 2022, o presidente da comissão de futebol feminino da federação me manda uma mensagem por WhatsApp. E queria entender um pouco mais o que era o projeto, o que eles tinham como ideia do futebol feminino. Ele comentou um pouco sobre esse trabalho que nós fizemos no Equador. Então, era mais ou menos isso que eles queriam trazer para a federação peruana. E ideias novas para liga feminina.
Minha vinda foi muito por ele fazer o primeiro contato e depois o Franco Navarro, que é o subgerente de seleções. Foram quase nove meses de conversa. Apresentei um projeto que nós fizemos e coincidiu muito com que o presidente tem como ideia. Perguntei para as meninas que trabalham comigo, ‘E aí, vamos aceitar esse outro desafio parecido com o do Equador?’. E aí acabamos aceitando.
Chegou a ter contatos de clubes do Brasil para voltar neste meio tempo?
Tivemos alguns convites e sondagens de equipes aí do Brasil, mas nossa ideia era estar em outra vitrine. Mesmo sendo um trabalho de início, acabamos indo para uma seleção, uma vitrine pouco diferente de clube, trabalho bastante diferente de clube também. Então, acabamos aceitando e estamos aqui já há quatro meses.
Como que fica desempenhar esse papel de desbravadora, que é um papel importante, mas um papel que ao mesmo tempo pouquíssimas pessoas conseguem e querem fazer?
Olha, eu acho que eu não trabalho sozinha, né? Então, as três pessoas que trabalham comigo, a Jaqueline, a Camila e a Lili, são pessoas que têm que ter um perfil parecido no sentido de querer contribuir para o futebol feminino. Acho que vai muito dessa mão.
A gente um dia quer chegar para competir, mas hoje eu vejo, e a gente até brinca entre a gente que a gente vai para os lugares, constrói e depois é gratificante você ver, por exemplo, a seleção do Equador e a brasileira, quando a gente deixa muitos projetos de categoria de base, competições na CBF.
A gente vai muito na mão de contribuir para o desenvolvimento humano, da desportista, da jogadora, da atleta, de pessoas. Acho que isso é impagável. O que a gente viveu no Equador em termos de pessoas, de ser humano, vale muito mais do que a classificação pra Copa do Mundo. Você ouvir de atletas, ‘vocês mudaram minha vida pessoal e esportiva, obrigado por isso’, acho que isso é muito gratificante.
Nós somos muito competitivas e acredito que tudo tem o momento certo. Vai chegar o momento certo de ir para um clube competitivo. Tivemos oportunidades recentemente, uns dois meses atrás, de um convite muito interessante, mas a gente acaba pensando e a gente não poderia deixar esse projeto atual…
Para você alçar esses voos diferentes, ainda mais para uma mulher de personalidade forte, com quem você contou, como foi pra você conseguir chegar nesse status de ir fazer o seu trabalho e buscar outros lugares na América do Sul?
Na época de CBF, na época de Santos, São José, só a Emily falava. Então, eu fiquei muito marcada por isso. Hoje você vê vários treinadores, vários atletas falando na “caruda” mesmo e está tudo certo. Mas precisou alguém começar. Então, assim, meu pai me ensinou a trabalhar e ter a personalidade e caráter e ser honesta por onde eu iria passar.
Os meus princípios e valores eu não negocio. As pessoas podem falar o que quiserem, mas chego na minha casa, com a minha família, com meus amigos e estou com minha consciência super tranquila. O status para mim não chama atenção. Por isso que eu falo: as pessoas que trabalham do meu lado precisam saber que estão trabalhando comigo, e que pode ser uma mancha, vamos dizer assim.
A Emily acabou falando em momentos em que o futebol feminino era muito calado, aceitavam treinar em campos ruins. E aí eu fui falando e hoje é legal ver os treinadores metendo a cara e falando, as jogadoras, acho que foi um pontapé, que ficou manchado para mim, mas hoje está tudo bem. Hoje, falar é a prioridade, falar e ter coragem. Mas hoje não falo mais porque as pessoas já falam.
Eu foco no trabalho e dou sequência aqui, só fico agora ouvindo, vendo tudo isso acontecer. Não só criticar por criticar. E a minha prioridade sempre será as atletas, sempre. Vai ser o melhor campo para as atletas, a melhor alimentação para as atletas, o melhor descanso para as atletas. Acho que elas precisam ser valorizadas e minha briga é por isso.
Como você enxerga essa fase do Brasil no futebol feminino hoje?
Uma coisa é a Pia trabalhar nos Estados Unidos, onde o futebol feminino é uma realidade e ela vai trabalhar com jogadoras que trabalham desde os sete, seis, cinco anos de idade. Outra coisa é ela ir pra Suécia e trabalhar com jogadoras também mais bem preparadas física, técnica, tática e psicologicamente. E outra coisa é você chegar numa realidade do Brasil.
Temos as melhores atletas tecnicamente e não tenho dúvida disso, mas são atletas que não foram formadas, não foram preparadas para estar nesse alto nível em que o futebol se encontra. Falar de desempenho na minha posição é estar falando do desempenho de uma outra posição.
A responsabilidade é de um todo, o trabalho de um todo, não somente dela. Claro que ela é a cabeça de tudo e ela tem que responder pelo mau desempenho da Seleção. A CBF precisa rever várias coisas. Não só o trabalho dela em si. Houve muitas mudanças no meio do caminho e por que houve? Tanto entra e sai de gente.
Sabe o que eu vi de fora e comentei até em algum lugar? Que o excesso de confiança podia fazer com que as coisas não acontecessem. Eu via um excesso de confiança muito grande. Porque agora, agora… Até na última convocação, ‘porque a história, temos tantas mulheres na comissão técnica, agora pela primeira vez…’. O que é mais valioso, o trabalho ou tudo isso que foi citado?
Me pareceu muito mais importante outras coisas do que o próprio futebol em si. Eu via que era grandioso falar, ‘nossa, pela primeira vez, pela primeira vez’. Tudo era pela primeira vez, a gente está conseguindo isso pela primeira vez. Eu não vejo até que ponto é importante falar isso.
Acho que era mais gostoso falar, pela primeira vez fomos campeãs do mundo. É meu ponto de vista de fora. E aí cito todos os repórteres, ‘eu vejo o grupo muito isso, o grupo muito isso’. E via um pouco de fora, tá? Via um pouco que concentração no jogo era menos que outras coisas.
Parece uma espécie de oba-oba?
Não sei se é isso, mas no próprio treinamento que mostravam as repórteres do lado de fora e as meninas no treino brincando com elas lá fora. São coisas que eu não tenho esse perfil. Tudo tem o momento certo. Tem o momento de trabalhar, e 100% trabalhar e focada no trabalho. É para dar entrevista? 100% da entrevista. É para passear e conhecer o país, é 100% ali.
Temos que estar muito focadas e demonstrar pra elas que existe momento pra cada situação. Eu via um excesso de confiança por parte de muitas pessoas, sabe? Eu ainda citei isso, tem que tomar cuidado que isso pode levar a gente para o final do buraco, e acabou acontecendo isso. Sendo que em outras épocas e competições via um negócio muito mais centrado. Tinha tudo isso, mas no momento correto.
Os treinadores da seleção têm um grande desafio, porque já tivemos treinadores que chegaram antes na final, tanto Olimpíada como em Mundial. Com menos estrutura do que temos hoje, com muito menos.
Fala-se de seleções que tinham que fazer vaquinha pra poder mandar as meninas pra viajar, que treinava lá no campo todo esburacado, muito longe da Granja Comary.
É de se pensar, é um desafio. Quem assume a seleção, não é só ir e fazer um bom trabalho. As pessoas vão comparar. Já temos medalha de prata tanto em Mundial, como em Olimpíada. É um desafio bem gostoso de trabalhar.



