Copa do Mundo Feminina
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Seleção feminina chegou à Austrália num avião que exaltava a luta de Mahsa Amini e das mulheres no Irã

O avião fretado pela Seleção trazia em sua pintura a imagem de Mahsa Amini, jovem curda cuja morte desencadeou protestos massivos no Irã a partir de 2022

A Copa do Mundo de 2022 fomentou o debate sobre a situação política ao redor das mulheres do Irã. A presença da seleção iraniana no Mundial do Catar deu mais visibilidade às lutas por liberdades no país e aos massivos protestos da população local contra o governo. O assunto volta à tona antes da Copa do Mundo Feminina de 2023, e com auxílio da seleção brasileira. A delegação do Brasil desembarcou nesta terça-feira em Brisbane, na Austrália. O avião que trazia o elenco tinha referências a Mahsa Amini e, através de frases, apoiava as mulheres iranianas.

O Boeing 787 que levou a Seleção à Austrália possui sua pintura em apoio ao Irã desde o final de 2022. A aeronave fretada pertence à Comlux Aruba, companhia particular do argentino Enrique Piñeyro. O empresário chegou a sugerir, inclusive, que a seleção argentina fizesse protestos durante a final da Copa do Mundo em prol das iranianas. Vale lembrar que Irã e Argentina possuem relações diplomáticas estremecidas. O governo iraniano é acusado (inclusive por promotores argentinos) de participar do ataque à bomba à Associación Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires, que matou 86 pessoas em julho de 1994.

Quais são as referências na pintura da aeronave

O avião da Comlux Aruba traz as frases em inglês “nenhuma mulher deve ser forçada a cobrir sua cabeça”, “nenhuma mulher deve ser morta por não cobrir sua cabeça” e “nenhum homem deve ser enforcado por dizer isso”. Já na cauda há a imagem de Mahsa Amini, mulher assassinada pelo governo que se tornou símbolo dos protestos, e também do jogador de futebol Amir Nasr-Azadani, preso por apoiar as manifestações.

Mahsa Amini morreu em 16 de setembro de 2022. A jovem curda foi presa pela polícia religiosa do Irã por “não usar corretamente o seu véu”. A versão oficial é de que a jovem de 22 anos faleceu por um ataque cardíaco na estação policial. No entanto, há relatos de que Amini foi espancada pela polícia e faleceu em decorrência da violência. A partir de então, se desencadearam protestos em todo o Irã por mais liberdade às mulheres e contra a repressão do governo.

Amir Nasr-Azadani, por sua vez, participou dos movimentos nas ruas iranianas. O ex-zagueiro de 27 anos atuou por Rah Ahan e Tractor Sazi no Campeonato Iraniano, mas sem clube profissional desde 2018. O jogador foi preso pela polícia iraniana, acusado de conexões com a morte de um policial – pessoas próximas alegam que ele sequer estava nos arredores do local onde aconteceu a morte. Surgiram informações de que Azadani seria condenado à morte. Diante do cenário, jogadores da seleção e entidades esportivas internacionais manifestaram apoio ao ex-jogador contra a sentença. Em janeiro, o iraniano foi penalizado com 26 anos de prisão.

Austrália também possui significado às mulheres iranianas

Mesmo que o avião não tenha sido preparado exclusivamente para a seleção feminina, ele transmite uma mensagem ao redor do mundo. A pintura da aeronave repercutiu em veículos estrangeiros. O futebol iraniano, aliás, possui uma conexão especial com a Austrália: foi em Melbourne que a seleção persa conquistou sua classificação para a Copa do Mundo de 1998, após 20 anos longe do torneio. A comemoração do feito também gerou protestos por mais liberdade às mulheres do país. Mulheres saíram às ruas para celebrar, desafiando as autoridades, e para reivindicar o direito de frequentar arquibancadas, numa proibição de raras flexibilizações ao longo das últimas quatro décadas.

A seleção brasileira feminina usou o avião da Comlux Aruba porque a Gol, parceira oficial da CBF, não faz rotas para a Austrália. O avião cedido para a equipe nacional, no fim das contas, traz uma mensagem muito além. O Brasil relembra a luta das mulheres por seus direitos no Irã, tão inserida no futebol, e que também possui forte ligação com as próprias pautas do futebol feminino.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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