Copa do Mundo

Do silêncio no hino aos cartazes da torcida, o jogo do Irã ecoou os protestos no país

Como outras equipes esportivas do Irã em meio à onda de protestos no país, a seleção de futebol não cantou o hino

Existia enorme expectativa sobre o comportamento da seleção iraniana durante a execução do hino nacional nesta segunda-feira. Nos últimos meses, equipes esportivas do Irã em diferentes modalidades aproveitaram o momento para preservarem o silêncio e, assim, sinalizarem o apoio aos protestos no país pelo fim da repressão e por mais direitos às mulheres, após a morte de Mahsa Amini – jovem curda de 22 anos reprimida pela polícia religiosa local por “não usar corretamente” seu véu obrigatório. Existiam sinceras dúvidas em relação ao time de Carlos Queiroz, diante de posturas pró-governo às vésperas do torneio. Mas, no fim das contas, os persas não cantaram o hino. A execução da música foi acompanhada por sonoras vaias das arquibancadas. Quando a bola rolou, o Time Melli acabou goleado por 6 a 2 pela Inglaterra, em sua pior derrota na história das Copas.

O hino foi tema constante na preparação do Irã para a Copa do Mundo. Autoridades do país afirmaram que “atletas que não cantassem o hino deveriam ser cortados de suas delegações”, em reação à recusa do time de vôlei masculino em entoar a canção há alguns dias. Já o ex-meia Ali Karimi, lenda da seleção de futebol e uma das principais vozes em apoio aos protestos, apontou que “os jogadores deveriam escolher o lado certo da história”. Perguntados sobre o assunto em coletiva de imprensa, membros do elenco de Carlos Queiroz declararam publicamente que cantar ou não o hino seria uma opção de cada um.

Uma situação específica incomodou muitos iranianos dissidentes do governo: antes do embarque ao Catar, a seleção iraniana se encontrou com o presidente do país, Ebrahimi Raisi. Embora fosse um ato oficial e alguns ali se vissem obrigados pela federação, o comportamento afetivo de parte dos membros gerou ruído. O goleiro Alireza Beiranvand chegou a colocar a mão no coração em reverência ao presidente – depois, o camisa 1 teve um outdoor com sua imagem incendiado em Teerã. Nomes experientes como Vahid Amiri e Mehdi Taremi também são apontados como partidários do governo, embora o atacante já tenha se declarado contra a violência. O meia Mehdi Torabi é um defensor ardoroso do conservadorismo.

Nem todos os jogadores compartilham desse ponto de vista. Na Data Fifa de setembro, Sardar Azmoun se manifestou em prol dos protestos nas redes sociais e depois apagou suas mensagens. Mais recentemente, na véspera desse jogo contra a Inglaterra, o capitão Ehsan Hajsafi declarou suas “condolências às pessoas enlutadas” e disse que “os jogadores se solidarizam com as famílias”. A partir disso, a manifestação durante o hino nacional voltou a ser vista como uma possibilidade. Também em setembro, antes de um amistoso contra Senegal na Áustria, os jogadores usaram jaquetas pretas na entrada em campo e durante a execução do hino, o que já tinha sido entendido como um protesto – embora ninguém tenha confirmado publicamente depois.

(Julian Finney/Getty Images/One Football)

Nesta segunda-feira, muitos iranianos se manifestaram nas arquibancadas do Catar. O público da seleção em competições internacionais (incluindo também Olimpíadas e Copa da Ásia) costuma receber muitos torcedores que vivem fora do Irã e costumeiramente se manifestam em prol de mais liberdades. Mulheres sem o véu obrigatório e ocidentalizadas são comuns. Não seria diferente desta vez, ainda mais com a convulsão social que ocorre durante os últimos dois meses nas principais cidades do país. Cartazes e bandeiras eram exibidos, sobretudo em apoio aos direitos femininos no Irã.

Já na hora da execução do hino nacional, de fato, prevaleceu o silêncio. Os jogadores se abraçaram e não entoaram a letra da canção. Mesmo simpatizantes do governo não cantaram, incluindo Taremi e Beiranvand. Enquanto isso, das arquibancadas vinham massivas vaias.

Dentro de campo, o Irã desabou. A péssima estreia da equipe representa a preparação conturbada também do ponto de vista esportivo. A federação resolveu apostar na volta de Carlos Queiroz em setembro, depois de um “vai e não vai” na demissão de Dragan Skocic, que conduziu a classificação ao Mundial. O português havia liderado um ciclo histórico de 2011 a 2019, mas não conseguiu reproduzir a mesma solidez do passado nesta estreia de Copa do Mundo. O comandante também apostou em homens de sua confiança, que não eram necessariamente titulares na campanha de qualificação, e isso tem influência no rendimento ruim diante dos ingleses. De qualquer maneira, é de se imaginar que todas as questões extracampo também tenham custado parte do foco.

Os gols de Taremi foram bastante comemorados nas arquibancadas, mesmo com a goleada já desenhada no placar. Azmoun, voltando de lesão, começou no banco. Antes da divulgação da convocação, surgiram rumores de que ele poderia ser cortado a pedido do governo, mas Carlos Queiroz teria o bancado. O atacante entrou no segundo tempo, sob manifestação dos torcedores – em gritos que não deixam claro se eram de apoio ou de insatisfação. Azmoun poderia fazer o seu gol, mas carimbou o travessão, após desvio milagroso do goleiro Jordan Pickford.

As reações no Irã devem se seguir nos próximos dias. O governo iraniano colou sua imagem à seleção especialmente nos últimos meses, transmitindo uma ideia de que “os manifestantes estão tentando minar a força da juventude que representa o país”. A derrota por 6 a 2 para a Inglaterra passa distante de uma propaganda favorável ao poder. Resta saber como ficará o discurso.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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