Copa do Mundo Feminina

Rubiales se nega a sair, mas pode ser derrubado por movimento liderado por mulheres

Jogadoras da seleção espanhola não aceitaram o discurso misógino de Rubiales, presidente da federação, e iniciaram uma onda de protestos

Existe um ditado popular que diz: “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Por muito tempo, as mulheres permaneceram do lado mais fraco e viram a corda arrebentar. Porém, os tempos são outros. Não há mais espaço para homens que acreditam ser intocáveis. O caso de Luis Rubiales explica bem isso. Ao se recusar a deixar o cargo de presidente da Real Federação Espanhola, o cartola pode (e vai) ser derrubado por um movimento sem precedentes e liderado por mulheres. 

Nesta sexta-feira (25), Rubiales se viu pressionado a falar após a repercussão mundial do beijo forçado em Jenni Hermoso na premiação da Copa Feminina. Ele adotou a postura de “cair atirando” em seu discurso, se negando a renunciar à presidência, mas o tiro parece ter saído pela culatra. Isso porque as campeãs mundiais, premiadas no último domingo, não aceitaram o fato de maneira passiva e começaram um efeito dominó. 

O pontapé do movimento solidário à Hermoso foi dado pelas companheiras de seleção, mas logo foi abraçado por clubes e jogadores, tanto da Espanha quanto de outras partes do mundo. O Barcelona emitiu uma nota oficial repudiando as falas de Rubiales. Além disso, vários atletas espanhóis estão se recusando a integrar a equipe nacional até que ele saia do cago. 

Os protestos se juntam a um triste histórico da Espanha, principalmente pelo caso de Vini Júnior, alvo de inúmeros atos racistas na La Liga. Coincidentemente, medidas só começaram a ser tomadas após a repercussão negativa para a RFEF. Alexia Putellas, eleita melhor jogadora do mundo por duas vezes, e os gigantes Real Madrid e Barcelona se posicionaram contra Rubiales.

Horas depois, na tarde desta sexta-feira, a própria Hermoso usou as redes sociais para pedir “tolerância zero” aos comportamentos de Rubiales e denunciou que até sua família foi pressionada para que a atleta desse declarações que amenizassem os atos do dirigente.

Abaixo, as manifestações do sindicato das jogadoras profissionais da Espanha, de companheiras de Seleção de Hermoso e de clubes espanhois: 

 

Jogadoras unidas contra a misoginia

O discurso misógino de Rubiales gerou reação imediata de grandes figuras do futebol feminino espanhol, além das campeãs mundiais recentes. Jogadoras que estiveram na Copa de 2015 e lendas do esporte na Espanha se reuniram em um grupo de Whatsapp para estudar como responder ao dirigente.

Segundo informações do site “Relevo”, as 23 campeãs do mundo pediram ajuda a ex-jogadoras sobre maneiras de condenar as falas de Rubiales. O discurso central é “vamos à morte” para defender Hermoso e as vítimas de assédio.

Há o planejamento de um comunicado conjunto para demonstrar força sobre Rubiales, que sofre ainda mais pressão para sair da presidência da Real Federação Espanhola depois das falas desta sexta-feira.

Não só o discurso seria abordado neste comunicado, mas tudo o que as atletas da seleção feminina espanhola “sofreram” nos últimos anos, em situações que geraram até o boicote de atletas e um pedido de saída do técnico Jorge Vilda no ano passado.

Desculpas nunca bastam. Punição tem que ser pesada 

Historicamente, as mulheres carregam um alvo nas costas ao adentrarem o ambiente esportivo. No futebol, isso ganha ainda mais força, principalmente pela cultura machista dos vestiários e arquibancadas. 

–  Toda ação de assédio, violência e cerceamento contra mulheres é muito normalizada. Porque está dentro do contexto de sistema, não da ação isolada de um homem aqui e ali. Os corpos femininos são colocados como um espaço livre para todo tipo de violência. A gente sempre viveu isso, é uma cultura que a gente ainda vai batalhar anos para demolir. Não é uma coisa só do Brasil, é uma coisa mundial, porque o patriarcado é mundial – afirmou Lu Castro, escritora e pesquisadora.

Rubiales surpreende Jennifer Hermoso com um beijo no pódio de premiação, enquanto a meia fica sem reação (Foto: Reprodução/Sportv)

Nem mesmo o futebol feminino está a salvo. Ainda que haja evolução na modalidade, com aceitação, o caso de Rubiales mostra que, enquanto apenas homens ocuparem os postos mais altos, as mulheres sempre estarão vulneráveis. É preciso punir de forma exemplar este tipo de comportamento.

– As desculpas nunca valem. Se entende que, ao pedir desculpas, está tudo bem. Um sujeito desse deveria ser limado do contexto do esporte, receber multa pesada e punição pesada – disse a autora da primeira HQ de futebol feminino, “E a Boca do Luxo entra em campo”. 

– A gente precisa de uma educação feminista, inclusive entre meninos, na tentativa de limar de vez por todas esse nosso contexto de vida, que a gente vê que é tão recorrente. Essa invasão dos nossos corpos é assunto recorrente. A partir do momento que a gente se coloca no papel de normalizar esse tipo de atitude, a gente perpetua esse tipo de situação. É por isso que a gente fala, já há algum tempo, sobre a necessidade de um futebol feminista.

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
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