França

Marseille: Essa campanha de brasileiros transforma gols no combate à violência contra a mulher

Administradores da página conversam com a Trivela sobre maneira de lidar com reforço controverso e refletem importância de visibilidade à causa da violência contra a mulher

Leonardo Gouveia se lembra bem da frustração que sentiu quando começaram a sair rumores de interesse do Olympique de Marseille em Mason Greenwood, há pouco mais de um ano. “Sempre fui contra”, frisa ele ao conversar com a Trivela.

O torcedor fez campanhas nas redes sociais para evitar que o atacante migrasse ao Vélodrome, mas sem sucesso. O inglês foi anunciado oficialmente em 18 de julho de 2024 e deixou Leonardo e seus companheiros do fã-clube “OM Brasil” em situação delicada pelo fato de ter sido denunciado pela namorada por agressão e estupro em 2022.

A mãe de Leonardo, ele relembra, atuava no Ministério de Política das Mulheres e fez com que o filho entendesse desde a infância a sensibilidade do assunto.

“Para a gente, foi muito difícil”, comenta o assistente social. Deixar de torcer para o clube não era uma opção. A solução, então, passou por criar uma iniciativa com base no lema “lembrar para não esquecer”. Assim surgiu o “pix para o IMP“.

O grupo decidiu que seria feita doação de R$ 5 ao Instituto Maria da Penha (IMP) a cada gol de Greenwood pelo clube francês.

A ideia ocorreu com base em ação similar na Europa, denominada “Buts de Valeur” (gols de valor, em tradução livre).

“Foi um fã-clube do OM na Inglaterra. Acho que esse movimento surgiu de lá muito porque eles acompanharam o processo de perto”, diz Guilherme Torres, um dos administradores da página, à Trivela.

O caso Greenwood

Quando a denúncia das supostas violências cometidas por Greenwood vieram à tona, o atacante defendia o Manchester United, equipe que o revelou.

A então namorada Harriet Robson publicou nas redes sociais na época um vídeo com imagens fortes, onde aparecia com marcas roxas pelo corpo e com a boca ensanguentada. Além disso, divulgou um áudio em que Greenwood estaria tentando forçá-la a se relacionar sexualmente com ele.

— Para todos aqueles que querem saber o que Mason Greenwood faz comigo de verdade — escreveu a modelo na postagem.

O conteúdo foi deletado posteriormente, mas a polícia de Manchester abriu investigação. Pouco depois, as autoridades informaram a prisão de um jovem na casa dos 20 anos por estupro e agressão, porém, o homem não teve a identidade revelada.

Greenwood foi afastado dos Red Devils durante a investigação e, em fevereiro de 2023, as acusações foram retiradas.

Em setembro do mesmo ano, o jogador, sem espaço na Inglaterra, acabou emprestado ao Getafe. A temporada no futebol espanhol chamou a atenção do Marseille, que o contratou em definitivo no ciclo seguinte.

Desde então, são 33 gols feitos e R$ 330 a mais na conta do IMP só com as doações de Leonardo e Guilherme.

É possível que o saldo seja maior, afinal, como a dupla destaca, a campanha furou a bolha em 2025 e engajou ainda mais pessoas.

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Pix ao IMP em gols do Greenwood: Campanha do OM Brasil viraliza em 2025

O ponto de virada foi em 18 de outubro de 2025, no jogo Olympique de Marseille x Le Havre pela Ligue 1. Os Phocéens golearam por 6 a 1, com quatro gols de Greenwood.

Mais de 1,3 milhão de visualizações à postagem no X, antigo Twitter, e vários comprovantes de doações via pix ao IMP nos comentários. Eles dividiam espaço com mensagens de destaque à iniciativa.

— Nossa postagem reforçando a campanha do pix no quarto gol dele teve 6 milhões e 300 mil impressões, e interações de torcedores franceses. Um rapaz da França, que compartilhou o post, teve meio milhão de impressões também, então foi uma coisa que espalhou para outro público que nem sempre está com a gente, e as pessoas doaram — afirma Guilherme.

A ampla divulgação rendeu momentos curiosos, diz o administrador público. “Pessoas de outros países perguntando para a gente como que fazia para doar para o IMP. Não sabia nem explicar como é que alguém da República Democrática do Congo faz um pix para o Instituto Maria Penha”, retrata ele, aos risos.

Guilherme Torres (à esquerda) e Leonardo Gouveia (à direita), administradores da página “OM Brasil” (Foto: Arquivo pessoal)

A campanha iniciada na Europa que serviu de inspiração aos poucos perdeu força, ao contrário da idealizada pelos brasileiros no “OM Brasil”, que segue a todo vapor. Além de Leonardo e Guilherme, Felipe Oliveira, Marcelle Freitas e Matheus Dutra estão entre os administradores da torcida e se esforçam para que o caso não caia no esquecimento.

O fã-clube foi criado por Leonardo em 2012, com foco em compartilhar o amor pela equipe francesa. Nunca havia lhe passado pela cabeça que um dia precisaria pensar em formas de lidar com um reforço controverso.

Contudo, o torcedor ressalta que ele e os demais integrantes não tinham como fechar os olhos diante da situação.

Torcedores brasileiros do Olympique de Marseille fazem campanha a cada gol de Greenwood
Mason Greenwood em jogo do Olympique de Marseille (Foto: Icon Sport)

— Muita gente usa o argumento de que eles (Greenwood e a namorada) reataram o relacionamento, são casados e têm filho. Mas a gente tem um viés um pouco mais radical em relação a isso, que vai em congruência com o que acredita a base da torcida do Olympique de Marseille na França. Esse é um dos grandes motivos pelos quais esse fã-clube existe, inclusive.

Historicamente, a torcida do Marseille é uma das mais apaixonadas da Europa. Grupos organizados transformam o Vélodrome em um caldeirão e reforçam por meio do futebol aspectos culturais da cidade ao sul da França, além de se posicionar com frequência em temas políticos, como no mosaico que enfatizava a luta das mulheres por igualdade e liberdade e em uma ação especial pelas vítimas de um atentado em Paris.

“A gente realmente tem uma ideologia muito marcada, muito fiel”, salienta Leonardo. “Eu não ia deixar de acompanhar um clube que eu amo por causa de uma pessoa. Inclusive, eu recebo muito esse tipo de crítica: ‘ah, você torce para um time que acolheu um agressor’. É uma falácia. Eu não vou deixar de torcer para o meu time porque chegou um jogador que eu não concordo”.

— Esse cara chegou, então agora ele faz parte do meu time e eu tenho que dar um jeito de me virar com esse problema.

Além do engajamento: Como a campanha é importante para a OM Brasil

A ideia do “pix ao IMP” também foi pensada para que os administradores do fã-clube usassem um recurso já conhecido aos seguidores da página dos tempos em que o atacante Vitinha defendia o Marseille. O português, agora no Genoa, fez 43 jogos e balançou as redes seis vezes com o OM.

— A gente tinha o Vitinha como centroavante no Marseille, e ele não fazia gols, era uma coisa surreal. Aí começamos a brincar com o ‘pix do Vitinha’, que a gente sortearia pix para quem interagisse com a postagem caso o Vitinha fizesse gol — relembra Guilherme.

Na ocasião, o principal objetivo era atrair mais visibilidade ao trabalho desenvolvido pela OM Brasil por meio do engajamento com as postagens.

Porém, as coisas mudaram no caso de Greenwood.

“A gente sempre teve essas questões de vez ou outra agitar um pouco a galera que acompanha o OM, seja de uma forma um pouco mais casual ou de uma forma mais apaixonada, para gerar essas interações. Sorteio de camisa, essa questão do Pix do Vitinha…”, comenta o administrador.

— Com Greenwood, nós pensamos: ‘Vamos trazer essa campanha para cá e usar esse artifício do pix para tratar desse tema de uma forma um pouco mais leve?’ Uma coisa que sempre conversamos: tentar lidar com o assunto da melhor forma possível e, ao mesmo tempo, trazer à tona um tema que é tão importante, que é essa questão de violência doméstica que, no meio do futebol, é um pouco ridicularizada, porque não é só Greenwood, né? Tem vários outros jogadores que já tiveram questões dessa e nunca aconteceu nada com eles, absolutamente nada.

Com a repercussão e os comentários de destaque à iniciativa, a dupla até acredita que a ação possa, de alguma maneira, ter chegado à cúpula interna do Olympique de Marseille, mas enfatiza que essa nunca foi a meta.

Eles exaltam, na verdade, que a campanha tem ajudado a fazer uma “limpeza de público”.

“Como a gente tem esse viés marcado e de maneira muito aberta, para mim é importante manter um público que seja coerente com aquilo que a gente acredita enquanto página e enquanto ideário do clube”, diz Leonardo.

— A partir do momento em que a gente recebe um comentário do tipo: ‘Nossa, eu adorava vocês, mas vou deixar de seguir porque o Greenwood está fazendo tudo no time e vocês estão nessa’, para mim, é ótimo que essa pessoa deixe de me seguir. Eu faço questão.

Mason Greenwood em ação pelo Olympique de Marseille
Mason Greenwood em ação pelo Olympique de Marseille (Foto: Icon Sport)

Leonardo é inflexível em relação ao tema muito em função da criação que teve, definida como “austera”. A rigidez não era no sentido disciplinar, e sim sobre os ideais de igualdade de gênero.

Manter o projeto ativo e ver a adesão de outras pessoas ajuda o assistente social a se sentir gratificado. A ação tem contribuído com mais visibilidade à causa de combate à agressão contra a mulher.

Dados do “Atlas da Violência”, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indicam que 177.086 mulheres foram vítimas de violência doméstica em 2023, número que corresponde a 64,3% das transgressões contra pessoas do sexo feminino. O crescimento em relação a 2022 foi de 22,7%.

Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a violência contra a mulher como “uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo”, com o dado de que 316 milhões de mulheres foram vítimas de algum tipo de agressão — física ou sexual — por parte do parceiro apenas nos últimos 12 meses.

— Saber que a gente está transformando o que aquele cara um dia fez em alguma coisa que hoje está sendo positiva para pessoas que já sofreram disso, ou sofrem ainda, é algo muito gratificante — afirma.

— Não digo que é uma coisa que deixa a gente com a consciência limpa, porque a gente não tem nada para limpar da nossa consciência, a gente nunca fez nada, mas é a maneira que a gente encontrou de transformar uma coisa ruim, que é a chegada do Greenwood, em algo positivo, para que a gente possa torcer não só por ele, pelo desempenho dele, mas pelo desempenho do nosso time em geral — pondera Leonardo.

O IMP também vê muito valor na ação. “É fundamental que campanhas com apelo esportivo se articulem com a mensagem central de que a violência doméstica e familiar contra mulheres não é tema de bastidor ou de ‘problema particular'”, diz à Trivela Conceição de Maria Mendes, cofundadora e superintendente Geral do Instituto Maria da Penha.

A doação vinculada a cada gol reforça positivamente que o gol pode também corresponder à vitória pela dignidade, pela segurança e pela justiça das mulheres. Este engajamento pode contribuir para que novos públicos, como torcedores, clubes e mídias, passem a ver a causa como algo que lhes diz respeito — complementa.

‘Pesa muito’: Greenwood bem no Marseille não alivia chateação do fã-clube

Por falar em desempenho, Greenwood teve boas atuações no Getafe, mas o auge pós-Manchester United tem sido no Marseille. O jogador de 24 anos dá sinais de ter superado o início irregular para ser uma das peças de confiança de Roberto De Zerbi.

De Zerbi e Greenwood se cumprimentam em jogo do Marseille
De Zerbi e Greenwood se cumprimentam em jogo do Marseille (Foto: Imago)

Ainda assim, é uma figura controversa da equipe e deixou até o prefeito da cidade, Benoit Payan, contrariado.

— A qualidade técnica do Greenwood, que é uma coisa que a gente cita bastante na página, não é algo que a gente discute. É um bom jogador de futebol apesar das coisas que ele fez na vida pessoal dele. Só que, para a gente, esse lado pessoal pesa muito — diz Guilherme.

O Marseille atualmente é vice-líder do Campeonato Francês com 28 pontos, dois a menos que o primeiro colocado PSG, e Greenwood é o artilheiro do time na temporada (11 gols).

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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