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Morre Bernard Tapie aos 78 anos: títulos, idolatria e prisão marcaram ex-presidente do Olympique de Marseille

Empresário de sucesso, Bernard Tapie foi também político e presidente do Marseille e morreu depois de quatro anos lutando contra um câncer

Um dos nomes mais importantes da história do Olympique Marseille morreu neste domingo, 3 de outubro. Bernard Tapie morreu lutando contra um câncer no estômago nos últimos quatro anos. Presidente do clube francês de 1986 a 1994, ele levou o clube a cinco títulos seguidos na Ligue 1 e ao único título francês na Champions League em 1993, mas também esteve envolvido em um dos maiores escândalos de suborno do futebol, pelo qual acabou preso.

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“Dominique Tapie e sua família têm uma imensa tristeza em anunciar a morte do seu marido e do pai deles, Bernard Tapie, neste domingo”, disse um comunicado da sua família, ao jornal La Provence, onde é dono da maior parte das ações. “Ele morreu pacificamente, cercado por sua esposa, seus filhos e netos, que estavam ao lado da sua cama”.

O comunicado ainda informava que o desejo de Tapie era ser cremado em Marselha, “a cidade do seu coração”. Uma cidade que marcou para sempre a história de Tapie, assim como ele mararia também a da cidade e do Olympique de Marseille.

Empresário, político, cantor, apresentador, ator

Bernard Tapie foi bem mais do que um dirigente do Marseille. Empresário, ele chegou a ser um dos principais acionistas da Adidas, uma gigante do material esportivo. De origem de classe média, filho de um encanador, nasceu em 1943 em Paris e conquistou fama e fortuna revivendo empresas que estavam em crise.

Além de empresário, Tapie também se arriscou como cantor e lançou músicas no final dos anos 1960. Também foi ator e ficou famoso como um inspetor de polícia em um programa de TV muito popular na França, Comissaire Valence. Também fez parte de um filme de Claude Lelouch.

Sua carreira passou também pela política. Um dos episódios mais lembrados foi um debate bastante duro com o candidato da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, em 1989. Foi eleito deputado naquele ano e foi por duas vezes ministro de estado de questões urbanas na presidência de François Mitterrand, do partido socialista, no início dos anos 1990.

Além da atuação no Olympique de Marseille, Tapie também foi dono de uma equipe de ciclismo que conquistou o Tour de France por duas vezes. Foi dono também de diversos jornais. Um magnata, chamado de “Zorro dos negócios” pelos veículos de imprensa franceses, o empresário faliu em meados dos anos 1990, entre a condenação por suborno e outra por fraude fiscal.

Um esquadrão de estrelas e a sucessão de títulos no Marseille

Tapie assumiu a presidência do Olympique de Marseille em 1986. Com ele no cargo, o Marseille atingiu níveis muito altos. Logo depois da Copa do Mundo de 1986, Tapie contratou Karl-Heinz Forster e Alain Giresse. Depois, chegaram nomes de peso como Jean-Pierre Papin, Chris Waddle, Klaus Allofs, Enzo Francescoli, Abedi Pele, Didier Deschamps, Basile Boli, Marcel Desailly, o alemão Rudi Völler, Tony Cascarino e Eric Cantona. Como técnico, chegou a ter até Franz Beckenbauer no banco.

Entre 1989 e 1992, o clube conquistou quatro títulos seguidos da Ligue 1. Tornou-se a força dominante na França, mas foi além disso: passou a ser também uma força na Europa. Na temporada 1989/90, como campeão francês, chegou até a semifinal da então Copa Europeia, predecessora da Champions League, quando foi eliminado pelo Benfica. Em 1990/91, o Marseille foi até a final, mas perdeu para o Estrela Vermelha, da então Iugoslávia.

Em 1991/92, o time caiu na segunda fase da Copa Europeia, derrotado pelo Sparta Praga. Mas no ano seguinte, o sonho se concretizaria. Na temporada 1992/93, já como Champions League, os franceses venceram o poderoso Milan na final por 1 a 0, em Munique. O gol marcado por Basile Boli foi o sonho realizado do presidente, dos torcedores e, em certo aspecto, até dos franceses, que viram um clube do país conquistar o título, algo inédito até então – e de lá para cá, continua sendo o único caso.

A Champions League, afinal, nasceu das mentes francesas: Gabriel Hanot, editor do L’ Equipe, com Jacques Ferran, outro jornalista do L’Equipe, visitaram a América do Sul para conhecer o Campeonato Sul-Americano de Clubes. Surgiu a inspiração para a criação da versão europeia. Foi em 1955, em Paris, que surgiu a European Champion Clubs’ Cup (Copa dos Clubes Campeões Europeias, em tradução livre). Mas esta é outra história.

Denúncia de suborno no Marseille

Só que o sucesso em campo foi interrompido quando emergiu a história do suborno. Pouco antes da final da Champions League, em 1993, surgiram denúncias que o Olympique de Marseille tinha subornado jogadores do Valenciennes para o jogo entre os dois, pela Ligue 1, no dia 20 de maio. Contamos a história em detalhes aqui.

O objetivo não era apenas assegurar a vitória, já que o Marseille era imensamente favorito, mas principalmente fazer com que não houvesse resistência e preservasse seus jogadores para a final europeia, evitando inclusive lesões. Isso porque, caso o time não vencesse o Valenciennes, teria que jogar a última rodada, já depois da final da Champions, fora de casa contra o PSG. Precisaria de um resultado que seria bem mais complicado.

Tudo começou quando detetives encontraram 250 mil francos suíços enterrados no quintal da casa de Christophe Robert, atacante do Valenciennes. O caso se desenrolou e teve como um dos principais personagens o meio-campista Jean-Jacques Eydelie, que intermediou a negociação de suborno – em troca de um lugar no time titular da final.

Foi um pedido direto de Bernard Tapie para que ele falasse com três ex-companheiros de Nantes que jogavam, naquela época, no Valenciennes: Christophe Robert, Jacques Glassmann e Jorge Burruchaga (sim, aquele, da seleção argentina campeã do mundo em 1986). Robert admitiu o suborno; Burruchaga aceitou, mas mudou de ideia e não recebeu o dinheiro; Glassman nunca aceitou o acordo e fez mais: denunciou o esquema ao avisar a diretoria do Valenciennes o que aconteceu.

Inicialmente, todas as acusações foram negadas. Bernard Tapie se disse enojado. A torcida do Marseille comprou o discurso que eles eram perseguidos. Que havia inveja, que era um preconceito com o sul do país e a região de Provença, até uma perseguição política a Tapie, que era associado a partidos de esquerda, enquanto o poder central da França tinha muito mais políticos de direita.

Havia uma defesa voraz de Tapie e um sentimento de que havia uma perseguição ao OM. Um discurso muito comum na França, no Brasil e basicamente em qualquer lugar onde o futebol é relevante. Os torcedores sempre se sentem perseguidos quando surgem denúncias – até que elas são provas. Ou mesmo depois disso.

Confissão de culpa de jogador do Marseille

Jean-Jacques Eydelie foi preso junto com o diretor esportivo do Marseille, Jean-Pierre Bernes, acusados de corrupção ativa. Foi da prisão que Eydelie se comunicou com o investigador-chefe, por carta, e admitiu ter pago o suborno a três jogadores do Valenciennes. Não dava mais para esconder a sujeira embaixo do tapete. O suborno ficaria comprovado.

Surgiu também uma denúncia do técnico do CSKA Moscou que dirigentes do Marseille tentaram subornar seus jogadores em um jogo da Champions League – vencido pelos franceses por 6 a 0 (era uma fase de grupos que classificava os líderes dos grupos à final). O técnico do CSKA Moscou retirou a denúncia, mas a Uefa investigou mesmo assim. Nada foi provado. Assim, o título da Champions League foi mantido. Mas o mesmo não aconteceria na França.

Em setembro daquele ano, a Uefa excluiu o Marseille da Champions League seguinte, 1993/94. Dias depois, o título francês foi cassado por suborno, condenação por ter sido conquistado por meios ilícitos. Além disso, o Olympique de Marseille foi rebaixado à segunda divisão. O clube também perdeu o direito de disputar qualquer torneio internacional. Por isso, o Milan foi quem representou a Uefa no Mundial de Clubes de 1993, quando o time italiano perdeu para o São Paulo.

Condenação de Bernard Tapie à prisão

Tapie tinha imunidade parlamentar como Ministro de Estado e tentou evitar a derrocada. O técnico do Valenciennes, Boro Primorac, acusou o presidente do Marseille de oferecer dinheiro a ele para assumir a culpa. O caso esquentou ainda mais quando Eydelie alegou que Tapie tentou comprar o seu silêncio.

Diante de um escândalo tão grande, o parlamento francês votou por acabar com a imunidade de Tapie. Perdeu assim a proteção parlamentar, foi processado e passou a ser investigado por corrupção e coação de testemunhas. Tapie deixou a presidência do Marseille, mas negava participação no esquema.

Foi só em 1995 que Tapie foi julgado e condenado, depois de Bernes, diretor de futebol e braço direito do ex-presidente, admitir que foi a parte operacional do esquema, sob as ordens do poderoso dirigente. Ele foi condenado, recorreu, mas perdeu. Ficou oito meses na cadeia. Burruchaga e Robert foram suspensos do futebol por seis meses por terem aceitado o suborno – ainda que Burruchaga tenha se arrependido.

Tapie, porém, continuou com o prestígio em alta em Marselha. Em 2001, ele voltou a ocupar um cargo no clube, como diretor de futebol. Continuou como uma figura querida da torcida, visto como um dos principais responsáveis por montar aquela que é, provavelmente, a melhor equipe do OM na sua história e a única da França a conquistar a Champions League. A punição, porém, foi dura e como tem que ser, até porque vai contra a natureza do esporte.

Ouça o Meu Time de Botão sobre o Marseille de 1993:

L’Affaire Tapie: o caso com a Adidas

Um dos seus movimentos mais ousados, a compra de grande parte das ações da Adidas, tornou-se seu maior pesadelo. Ele vendeu suas ações da empresa quando foi escolhido ministro, de modo a mostrar sua independência. Um movimento que ele se arrependeu, como contou em sua biografia.

Mais do que isso, entrou em uma batalha legal contra o banco público Credit Lyonnais, que fez a vendas das ações. Tapie acusou o banco de ter vendido as ações abaixo do valor de mercado. Em 2008, foi feito um acordo para pagar € 404 milhões a Tapie como compensação – e por ser dinheiro público, gerou muita controvérsia. Em 2017, uma ordem judicial determinou que o empresário devolvesse o dinheiro a cofres públicos.

O caso se tornou escandaloso porque o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, e seus aliados buscaram um acordo em vez de continuar o processo judicial. Como Sarkozy era um aliado de Tapie, a sensação que ficou é que o empresário se beneficiou das suas relações políticas para conseguir um imenso pagamento.

O caso teve desdobramentos: Christine Lagarde, atualmente chefe do Banco Central Europeu, foi condenada em 2016 por suas ações como Ministra de Finanças da França na época. Ela não recorreu da decisão. Seu então chefe de gabinete, Stéphane Richard, atualmente executivo-chefe do grupo de telecomunicações Orange, que é financiado pelo Estado, ainda enfrenta acusações relacionadas ao pagamento para Tapie.

O caso é tão longo que segue vivo, mesmo com a morte de Tapie. Há um julgamento previsto para este dia 6 de outubro em relação a isso. A sua família certamente buscará seguir lutando por ele, mesmo que ele não esteja mais por aqui – e também porque significa que a herança será muito maior caso vençam.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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