Fomos Campeões

Fomos campeões: O Aberdeen de Ferguson que derrubou o Real Madrid em uma final europeia

Façanha dos escoceses marcou a última derrota do Real Madrid valendo taças continentais

O futebol europeu conheceu o nome de Alex Ferguson pela primeira vez, com grande brilho, no ano da graça de 1983. Na ocasião, o técnico, ainda desconhecido fora da Escócia, conduziu o modesto Aberdeen a um título continental contra um verdadeiro gigante. A final da Recopa Uefa daquele ano marcou o debute continental de Fergie derrotando o temido Real Madrid.

O Aberdeen vinha para a Recopa embalado por uma conquista da Copa da Escócia e ainda com alguns resquícios do título nacional de 1980. Era uma fase brilhante no Pittodrie. Sob o comando de Ferguson, o clube viveu seus melhores anos, levantando três vezes o Campeonato Escocês, quatro Copas da Escócia e mais uma Copa da Liga, entre 1978 e 86. Depois disso, Ferguson assumiu temporariamente a seleção escocesa e em novembro de 86 aceitou o convite do Manchester United, clube pelo qual se aposentou em 2013.

Estabelecer o mesmo domínio fora do território escocês parecia uma missão complicada demais. E o clube não tinha a força de um Celtic, por exemplo, que esteve no topo da Europa nos anos 1960. No entanto, a largada na Recopa foi bastante imponente: 11 a 1 no agregado contra o Sion, com direito a uma vitória em casa por 7 a 0. Mais tarde, o time de Ferguson engrenou passando por Dinamo Tirana e Lech Poznán antes de uma prova de fogo: o Bayern. O desafio foi infartante, com um 0 a 0 em Munique e um 3 a 2 emocionante em Aberdeen. Os gols foram de Neil Simpson, Alex McLeish e John Hewitt.

A solidez defensiva dos Reds ficou evidente ao longo da competição. Conter os bávaros foi uma tarefa difícil, mas que deu ainda mais confiança ao elenco. Na semifinal, os escoceses tiveram vida tranquila: amassaram os belgas do Waterschei Thor por 5 a 1 no Pittodrie. A derrota simples na volta, por 1 a 0, não impediu a passagem para a final. O problema para quem sonhava demais era o adversário que vinha da outra chave, o Real Madrid.

Chuva, lama e surpresa

A decisão foi marcada para o dia 11 de maio de 1983, no estádio Ullevi, em Gotemburgo. Alguns dos titulares do Aberdeen na partida são relevantes para o grande público, como o goleiro Jim Leighton, os zagueiros Alex McLeish e Willie Miller e o meia Gordon Strachan, um dos jogadores mais talentosos de sua geração. Do outro lado, o Real Madrid não tinha a pompa dos tempos de Ferenc Puskas e Alfredo Di Stéfano, mas impunha respeito com o zagueiro holandês John Metgod, o lateral José Antonio Camacho, o meia Uli Stielike e os atacantes Juanito e Santillana. No banco de reservas, uma das maiores lendas do clube, Di Stéfano.

A bola rolou no início da noite sueca e o primeiro golpe veio do Aberdeen, que pressionou por meio de uma blitz a saída do Real. O sufoco deu resultado e, aos sete minutos, após uma cobrança de escanteio de Strachan, McLeish apareceu de surpresa para cabecear a bola no primeiro pau. O goleiro Agustín espalmou para o meio da área, mas lá apareceu o camisa 10 dos Reds, Eric Black, que aproveitou e mandou para a rede. O lance foi mais emocionante do que muita gente poderia suportar: um torcedor escocês sofreu um ataque cardíaco e morreu no local.

Não demorou para que a resposta do Real viesse. Aos 14, uma descida rápida em contragolpe, Santillana recebeu um passe desastroso de McLeish visando o goleirão Leighton. A bola acabou perdendo velocidade com as condições ruins do gramado e foi parar nos pés do madridista. Leighton não teve outra opção se não derrubar o atacante, cometendo pênalti. Juanito bateu e deixou tudo igual.

Ao longo da segunda etapa, ficou claro que a tensão favorecia o Real Madrid, que estava bastante acostumado com esse tipo de ocasião. Por outro lado, criou-se uma espécie de obrigação de vitória para os espanhóis, justamente pela tradição envolvida. Tentando capitalizar em cima da postura defensiva do Real, o Aberdeen levou bem mais perigo, mas teve pouca sorte em finalizações, esbarrando em Agustín, que garantiu o empate e a prorrogação.

Já na etapa final do tempo extra, no minuto 112, Peter Weir acionou Mark McGhee pela esquerda. McGhee desceu pelo flanco e cruzou no meio da área. John Hewitt, que substituiu Black no fim da etapa complementar, estava sozinho para cabecear e definir o jogo. Uma testada firme e sem chance de reação para Agustín. Ainda que houvesse tempo, o Real sentiu o golpe e as pernas pesadas pelo cansaço. O Aberdeen colocou as duas mãos na taça e não largou mais, administrando a vantagem até o apito final.

Foi a segunda derrota europeia do Real Madrid em dois anos. Em 1981, os merengues caíram para o irresistível Liverpool, em Paris, por 1 a 0. A má fase espanhola foi superada pouco tempo depois. O Real deu a volta por cima em 1985 e 86, conquistando o bicampeonato na Copa da Uefa. Na Liga dos Campeões, retornou à final e jamais saiu derrotado novamente nas ocasiões seguintes, em 1998, 2000, 2002, 2014, 2016, 2017, 2018 e 2022. A cabeçada de Hewitt abriu o portal de um Real Madrid invencível, e tudo indica que demorará um longo tempo até que ele seja fechado.

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Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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