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Em meio à guerra, Srna conta como o Shakhtar sobrevive e está a um passo da final da Liga Europa

Imaginar ser de uma cidade que mais do que viver uma instabilidade política, vive uma guerra. É uma situação tão ruim que até imaginar é difícil. Não temos a real dimensão do que significa. O capitão do Shakhtar Donetsk, Darijo Srna, deu uma bela entrevista ao Guardian, às vésperas do jogo do time na Liga Europa contra o Sevilla, para contar o que significa viver, treinar e jogar há mais de 1.200 quilômetros de casa.

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“Eu lembro do meu último dia em Donetsk”, afirmou o capitão. “Foi o dia 16 de maio de 2014. Nos disseram que nós tínhamos que sair rapidamente. Eu não levei nada de casa. Nós apenas levamos os dois carros. Minhas camisas ainda estão penduradas no guarda-roupa. Eu fui o único que acreditou que nós voltaríamos rápido. Eu disse a todo mundo que nós estaríamos de volta em seis meses”, contou o croata, que joga no Shakhtar desde 2003.

Naquele ano de 2014, os separatistas pró-Rússia tomaram o controle da região de Donetsk, declararam independência da Ucrânia e ainda proclamaram a área “República do Povo”. Com isso, eclodiu uma guerra civil que afetou a vida das pessoas diretamente. “Me disseram que a minha casa ainda está lá”, conta Srna. “Ainda está lá”.

O aeroporto, por sua vez, não está mais lá. Não funciona, depois de ataques que sofreu. Para chegar à cidade do Shakhtar, só de carro. E com muitos bloqueios. O lado leste do país vive uma situação muito complicada, sem suprimentos de muitos itens básicos. 

O Shakhtar hoje vive no luxuoso Hotel Opera, em Kiev, capital ucraniana. Nesta quinta-feira, o time receberá o Sevilla em Lviv, que fica a 1.255 quilômetros de Donetsk e é considerada uma região segura em relação ao conflito. Vale lembrar que a Donbass Arena, estádio do Shakhtar, chegou a ser alvo de ataques.

A Donbass Arena, do Shakhtar, foi construída justamente para jogos assim: uma semifinal de Liga Europa, competição que o clube conquistou em 2009. O sonho do proprietário do clube, Rinat Akhmetov, sempre foi de tornar o time competitivo para o palco europeu. Conseguiu isso levando a equipe a disputar constantemente jogos de oitavas de final da Champions League. Pensou no seu estádio justamente para ter jogos deste tamanho.

O estádio tem 52 mil lugares, com restaurantes, cafés, academias e muito luxo, Recebeu jogos da Eurocopa de 2012, incluindo uma das semifinais. Foi atacado algumas vezes desde que a guerra civil começou, mas segue firme. Passados dois anos desde a eclosão da guerra, é difícil saber se será possível ter um jogo no luxuoso estádio novamente.

O momento de maior glória da história do Shakhtar veio pouco antes da inauguração do seu estádio, em maio de 2009. É o que conte Srna. “Dia 7 de maio de 2009. Vencer o Werder Bremen por 2 a 1 e ganhar a Copa da Uefa. Foi um resultado incrível para a Ucrânia, para Donetsk, para o Shakhtar. Foi muito especial”, disse o croata, capitão do time ucraniano e da seleção croata.

“Este time é mais forte que o de 2009. É mais forte mentalmente, seu potencial é maior e estamos muito motivados”, continuou. “Nós perdemos as noissas casas, o nosso estádio, os nossos torcedores. Nós perdemos o nosso centro de treinamento, nós perdemos a nossa cidade. Nós estamos a um passo da final e o time merece respeito”, declarou Srna.

“As pessoas que pensaram que o Shakhtar iria desmoronar não conhecem o nosso presidente e não conhecem o nosso clube. Nós perdemos não sei quantos jogadores importantes, como Willian, Fernandinho, Mkhitaryan, Alex Teixeira, e nós mantivemos o mesmo nível de jogo. Você vê o quanto Willian e Fernandinho estão jogando bem na Inglaterra. Este clube os fez”, afirmou ainda o lateral direito.

Um dos amigos mais próximos de Fernandinho quando o brasileiro estava no Shakhtar, Srna falou sobre o papel importante que o meio-campista tinha no time. “Não me surpreende que ele esteja jogando bem no Manchester City”, disse. “Ele era o nosso segundo capitão no time e seu trabalho eram manter os brasileiros sob controle, os ajudando a entender a língua e entender o time. Ele se recuperou de uma lesão muito séria e era um verdadeiro exemplo. Eventualmente ele deixou o clube por muito dinheiro”, contou.

A situação complicada que o Shakhtar vive poderia fazer com que Srna quisesse deixar o clube. Não aconteceu. E porque ele não quis. “Eu vivi em uma guerra na Croácia”, disse. “Shakhtar era a minha casa. Eu não acho que depois de tantos anos eu poderia simplesmente ir embora e deixá-los nesta situação. Eu não sou este tipo de pessoa”, explicou. “Eu tive algumas ofertas importantes de alguns times importantes, como Chelsea, Bayern de Munique, Borussia Dortmund. Mas se eu tivesse ido para o Chelsea, eu teria que começar do início e para mim não faz sentido”.

“Donetsk era linda. Tinha restaurantes, parques, boas escolas. Era uma cidade do futuro. Quando eu fui embora, eu disse que eu voltaria, que eu iria me ajoelhar e beijar a minha rua. Agora eu irei beijar todas as ruas. Todo mundo quer um final feliz. Todo mundo”, declarou o jogador.

Apesar da beleza, a situação de Donetsk e de várias cidades a leste da Ucrânia é terrível. O clube transformou a Donbass Arena em um centro de distribuição de comida e suprimentos humanitários. Recebe e organiza as doações, além de comprar suprimentos. Cinco dias por semana, 25 caminhões saem do estádio carregados de suprimentos em direção ao leste do país para distribuir às pessoas. Muitas delas dependiam de pensões do governo, como os aposentados, e praticamente não há trabalho, além de não ter abastecimento de comida, medicamentos ou mesmo itens básicos.

A escolha por Lviv não foi fácil para o Shakhtar, não apenas pela distância, mas por tudo que envolve a logística e a insatisfação da torcida. A ideia era mudar para Carcóvia, uma região muito mais próxima de Donetsk, mas o time não chegou a um acordo para a utilização do estádio. Além disso, não poderia usar o estádio em jogos da Champions League. Sobravam Kiev e Lviv. A primeira, capital ucraniana, era a cidade que representa, em muitos aspectos, aquilo que os moradores de Donestk não querem. Além de ser a casa do principal rival, Dynamo Kiev.

Restava, então, Lviv. A cidade já foi parte da Áustria, Polônia e da União Soviética e abriga tem muitos refugiados. Nada mais adequado para um time que está fora de casa o tempo todo. Mas o time não esquece de onde veio. E tem esperança de voltar. “Nós acreditamos que iremos voltar à Donbass Arena porque, se não acreditássemos, não teria sentido algum continuar. Se você me disser agora que não há chance, que nós nunca iremos voltar, então eu acho que nós iríamos fechar o clube. Mas nós iremos voltar. Donetsk é a nossa casa”, afirmou Sergei Palkin, executivo-chefe do Shakhtar Donetsk, que esteve no estádio para uma visita.

O clube acredita tanto que fez do estádio um centro humanitário. Mas nesta quinta, em Lviv, o time espera mostrar a sua força dentro das quatro linhas. Com Srna como capitão e com os brasileiros Bernard, Marlos, Taison, Dentinho, Wellington Nem e outros.

Veja os horários e os canais que irão transmitir o jogo entre Shakhtar Donetsk x Sevilla e os demais jogos do dia na Programação de TV.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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