Quando o Celtic estragou a festa de Elizabeth II: A emblemática conquista da Copa da Coroação de 1953
Capitaneado por Jock Stein, o Celtic vinha de uma péssima fase, mas surpreendeu os times favoritos da coroa e exibiu o orgulho republicano no que deveria ser um evento de exaltação à monarquia durante a coroação de Elizabeth como Rainha

Não surpreendeu em nada a faixa exibida pela torcida do Celtic após a morte da Rainha Elizabeth II. “Fuck the crown” era a mensagem dos ultras da Green Brigade em Varsóvia, onde a equipe enfrentou o Shakhtar Donetsk pela Champions League. Os torcedores alviverdes, em sua maioria, possuem um posicionamento em prol da independência e do republicanismo, num contexto fortemente ligado à história da Irlanda, onde estão fincadas as raízes do clube, embora também com seus ecos na política escocesa. Uma identidade, afinal, que se contrapõe ao unionismo e ao apoio monárquico do rival Rangers, fiel súdito da família real. E o mais curioso nessa história toda é que, há quase sete décadas, a coroação de Elizabeth II marcou uma conquista notável ao próprio Celtic. Os Bhoys faturaram a Copa da Coroação de 1953, torneio que envolvia times ingleses e escoceses, no qual eram os maiores azarões. Uma ocasião que elevou personagens históricos e serviu de ponto de virada ao clube, enquanto rendeu até música da torcida citando a decepção de “Lizzie”.
O pós-guerra costuma ser citado como um dos piores momentos da história do Celtic. A maior seca dos Bhoys foi atravessada no período. Campeões escoceses em 1938, os alviverdes retomaram as atividades na liga nacional depois da Segunda Guerra Mundial como um time de meio de tabela. Até ganharam uma Copa da Escócia em 1951, mas o desempenho no Campeonato Escocês em si era patético. Foram sete temporadas consecutivas em que os Celtas não passaram da quinta colocação, a partir do reinício do torneio em 1946/47. Estiveram inclusive ameaçados pelo rebaixamento, com o 12° lugar de 1947/48, apenas quatro pontos acima da zona da degola. E a perspectiva não era tão animadora quando a equipe ficou na oitava posição em 1952/53.

Apesar desse péssimo retrospecto, o Celtic era um gigante do futebol escocês e respeitado como um dos maiores clubes do Reino Unido. Somava 19 títulos do Campeonato Escocês àquela altura, incluindo um hexacampeonato consecutivo entre 1905 e 1910. Era esse currículo que mantinha os Bhoys em alta conta e que fez o time ser selecionado para a disputa da Copa da Coroação de 1953, torneio criado especialmente para celebrar a chegada de Elizabeth II ao trono.
Desde 1952 que Elizabeth II encabeçava a monarquia britânica, após a morte de seu pai, o Rei George VI. Todavia, por conta do luto, os festejos de coroação aconteceram apenas um ano depois. Seria um enorme evento no Reino Unido, com algumas competições esportivas em diferentes modalidades para comemorar. A Copa da Coroação era a maneira de levar o momento especial para dentro dos estádios, ao esporte mais popular do país. O futebol britânico, aliás, vivia o seu auge de público, após a Segunda Guerra Mundial. As médias acima dos 35 mil pagantes daquele período histórico, em queda já no fim da década de 1950, seriam repetidas apenas na era moderna da Premier League, depois da virada do século.

A Copa da Coroação seria realizada inteiramente no Hampden Park, grande palco do futebol escocês, em Glasgow. Seriam duas semanas do mais intenso futebol, com as principais equipes de Inglaterra e Escócia se encarando. Os critérios técnicos estavam presentes na escolha dos times. O Arsenal entrava como campeão inglês de 1952/53, enquanto o Manchester United tinha levado o título em 1951/52. O Newcastle era bicampeão da Copa da Inglaterra. Já o Tottenham vinha de um vice-campeonato na liga durante o ano anterior. Podia se discutir ausências notáveis, em especial a do Blackpool de Stanley Matthews e Stan Mortensen, campeão de uma histórica final da FA Cup dias antes, mas não se negava que os quatro times presentes tinham credenciais. O mesmo valia para a Escócia, com Hibernian e Rangers ostentando troféus recentes na liga, enquanto o Aberdeen era o atual vice da copa. A exceção ficava para o Celtic, sem destaque recente, mas com apelo financeiro para a competição organizada em Glasgow, por sua torcida, e também um feito antigo para ser levado em conta.
A conquista mais recente do Celtic tinha acontecido três temporadas antes, na mencionada Copa da Escócia de 1950/51. Nas três campanhas anteriores pelo Campeonato Escocês, os Bhoys tinham emendado um sétimo lugar, depois um nono e por fim um oitavo. A credencial válida para tornar os alviverdes participantes era outro torneio realizado entre ingleses e escoceses antes da Segunda Guerra Mundial, o chamado Empire Exhibition Trophy de 1938. A competição fazia parte de uma feira mundial organizada pelo Império Britânico em Glasgow. O Celtic eliminou Sunderland e Hearts, antes de vencer na decisão um forte time do Everton, que faturou o Campeonato Inglês meses depois. Graças a essa conquista, os Celtas ainda ostentavam o rótulo de “campeões britânicos”, que defenderiam na Copa da Coroação.

A Copa da Coroação foi organizada como um mata-mata simples, em jogos únicos a partir das quartas de final. Nesta primeira fase, ingleses pegavam escoceses. E o sorteio não foi nada amigável com o Celtic, que encarou logo de cara o Arsenal, então campeão da liga vizinha. O capitão Joe Mercer era a grande figura na equipe dos Gunners, curiosamente presente naquele Everton derrotado no Empire Exhibition Trophy de 1938. Já nomes como Don Roper e Doug Lishman lideravam o ataque do time dirigido por Tom Whittaker. O favoritismo estava todo do lado dos londrinos, diante do momento claudicante atravessado pelos Bhoys.
Alguns torcedores chegaram a pedir para que o Celtic desistisse da competição “para evitar a humilhação”. Mas o período de vacas magras não impedia o elenco de contar com figuras históricas. A começar pelo técnico Jimmy McGrory, que nos tempos de jogador se estabeleceu como o maior artilheiro da história do clube. Na casamata a partir de 1945, ficaria duas décadas no posto. Outro símbolo enorme dos alviverdes usava a braçadeira de capitão: Jock Stein, o sucessor de McGrory no comando em 1965 e futuro maior treinador da história dos Celtas, que também foi um centromédio de qualidade destacável. O fato de ser protestante não impediu o veterano de se estabelecer como uma grande liderança em campo e nem mesmo de ser um ídolo entre os torcedores de maioria católica. Era uma figura que superava o sectarismo comum na Old Firm.

A defesa daquele Celtic trazia outros jogadores bastante representativos do período. O goleiro John Bonnar foi mais um que se estabeleceu como ídolo, protegido por Mike Haughney e Alex Rollo. A linha central trazia também John McPhail e Bobby Evans, que, tal qual Jock Stein, usaram a braçadeira de capitão dos alviverdes. Evans disputaria duas Copas do Mundo com a Escócia e, com 535 jogos, está entre os dez atletas que mais vezes entraram em campo pelos Celtas. Mais à frente, Bobby Collins era um talento enorme que depois fez sucesso pelo Leeds United. O lado esquerdo do ataque reunia Charlie Tully e Bertie Peacock, dois destaques descobertos na Irlanda do Norte – o segundo, presente na Copa de 1958. Willie Fernie e Billy Walsh também se apresentavam como opções ofensivas. Por fim, o posto de centroavante era de Neil Mochan, que jogou a Copa de 1954 com a Escócia e estava entre os mais adorados pela torcida nos anos 1950, a partir de sua chegada naquele maio de 1953.
Tantos nomes históricos para o Celtic não eram garantia de uma boa campanha na Copa da Coroação. A equipe tinha vencido apenas quatro dos últimos 15 jogos pelo Campeonato Escocês e perdeu a Old Firm das quartas de final da Copa da Escócia semanas antes. Para piorar, uma queda de braço relativa à premiação pelo torneio aconteceu nos vestiários, até que jogadores e dirigentes resolvessem o assunto às portas da estreia. Entretanto, a má fase e o racha interno não impediram que os Bhoys se transformassem diante da ocasião, motivados pelo duelo contra o Arsenal. A vitória por 1 a 0 seria magra pelo volume dos alviverdes dentro do Hampden Park. As manchetes da época chegavam a pedir por uma “unificação das ligas” para a criação do Campeonato Britânico, vide o que o oitavo do Escocês fizera contra o campeão do Inglês.

Os quase 60 mil torcedores no Hampden Park puderam assistir a um gol olímpico. Auxiliado pelo vento, Bobby Collins marcou o gol da vitória aos 23 do primeiro tempo, numa cobrança venenosa de escanteio que fez curva e entrou diretamente nas redes. O goleiro George Swindin não teve culpa no lance e ainda trabalhou dobrado durante os 90 minutos, com uma série de grandes defesas para conter o bombardeio dos Celtas. Seria uma senhora exibição dos escoceses, por mais que o Arsenal tenha deixado a desejar por toda a pompa. Bobby Evans e John McPhail, em especial, orquestraram a superioridade da equipe.
Outro jogo ocorrido no mesmo dia foi o Hibernian 1×1 Tottenham, que demandou um replay para que os escoceses confirmassem a classificação. A maior goleada das quartas de final seria aplicada pelo Newcastle, com os 4 a 0 para cima do Aberdeen. Já a chance de uma Old Firm na semifinal acabou impedida pelo Manchester United. Os Red Devils, já treinados por Sir Matt Busby, bateram o Rangers por 2 a 1 de virada. Não deixava de ser uma grande decepção ao redor dos Teddy Bears, não apenas pela representatividade do clube dentro do unionismo britânico, mas também pela força de quem acabara de registrar uma dobradinha nacional, com os títulos do Campeonato Escocês e da Copa da Escócia. Entre os torcedores locais frustrados nas arquibancadas estava Sir Alex Ferguson, então com 11 anos, que assistiu a um jogo do United pela primeira vez.

Matt Busby era um personagem especial na semifinal, por sua ligação com o Celtic. Torcedor do clube na infância, o então atacante passou por uma peneira pelo Rangers e foi reprovado depois que descobriram que ele era católico. O Celtic fechou as portas após o teste nos rivais e, quando mudou de ideia, o adolescente já tinha assinado com o Manchester City. Foi campeão da Copa da Inglaterra com os celestes e depois defendeu o Liverpool, antes de se tornar um lendário treinador do Manchester United. O time contava com jogadores de seleção inglesa, como John Aston, Roger Byrne, Jack Rowley, Stan Pearson e Allenby Chilton. A braçadeira de capitão ficava com o respaldado Johnny Carey, ídolo da seleção irlandesa, se despedindo do clube. Já a cota dos Busby Babes era de Dennis Viollet, então com apenas 19 anos, que começava a conquistar seu espaço no ataque.
O Hampden Park se encheu ainda mais para a rodada das semifinais, com 73 mil presentes nas arquibancadas. E os escoceses puderam comemorar nova vitória do Celtic, por 2 a 1, agora com doses de drama bem maiores. O resultado seria encaminhado no primeiro tempo, com a participação providencial de Charlie Tully, o mais habilidoso do time. O ponta seria generoso para habilitar Bertie Peacock no primeiro gol. Já no início da etapa final, Tully também entregou para Neil Mochan ampliar. O terceiro ainda poderia ter vindo com Billy Collins, em mais um passe açucarado de Tully, mas o travessão impediu. Somente depois disso é que o Manchester United conseguiu descontar, com Jack Rowley, a 13 minutos do fim. Não foi o que estragou a festa dos Bhoys, que contaram com uma ótima exibição defensiva de Jock Stein para consumar o resultado.

Aquele seria um dia em verde e branco em Glasgow. Na outra semifinal, em Ibrox, o Hibernian atropelou o Newcastle com uma goleada por 4 a 0 e assegurou sua passagem para a decisão. A presença de dois times ligados à comunidade irlandesa e que estavam no seio dos anseios republicanos (bem como antimonarquistas) não parecia algo exatamente desejado na final pelos organizadores da Copa da Coroação. E isso ficou visível nas próprias arquibancadas, onde bandeiras da República da Irlanda chegaram a tremular durante as semifinais, em tempos de conflitos constantes entre norte e sul da ilha vizinha. Eram símbolos das origens das torcidas de Celtic e Hibs, criados a partir da comunidade imigrante irlandesa apoiada pela Igreja Católica na Escócia. Mas, de certa maneira, aquilo igualmente soava como provocação ao Reino Unido.
Também na decisão o Celtic não era favorito. O Hibernian atravessava o período mais imponente de sua história, com três títulos do Campeonato Escocês num intervalo de cinco anos – e isso porque o vice em 1952/53 só aconteceu por conta do goal average (a divisão de gols marcados pelos sofridos) inferior ao do Rangers, após encerrarem a campanha com os mesmos 43 pontos. Huge Shaw comandava a equipe estrelada pelo “Famous Five”, um quinteto ofensivo que se ganhou ares lendários em Easter Road. A formação clássica composta por Gordon Smith, Bobby Johnstone, Lawrie Reilly, Eddie Turnbull e Willie Ormond estava completa na Copa da Coroação. Mais atrás, Tommy Younger e Bobby Combe eram outros destaques dos Hibs, futuramente presentes em Copas do Mundo pela seleção escocesa.

A grande decisão da Copa da Coroação levou 117 mil torcedores às arquibancadas do Hampden Park. A Rainha Elizabeth II, porém, não estava no meio da multidão – que cantava em uníssono músicas católicas e ligadas ao movimento republicano irlandês, mal vistas pela parcela unionista que ficou de fora do estádio. A monarca não pôde entregar o troféu para o Celtic, numa emblemática vitória por 2 a 0. O Hibernian até buscou impor o seu favoritismo, mas a entrega defensiva fez a diferença para a consagração do clube de Glasgow – que precisou se virar com a ausência de Charlie Tully, lesionado após a atuação de gala na semifinal. Os Bhoys mantiveram o rótulo de “campeões britânicos”, num feito que ganharia bastante repercussão na época, às vésperas da criação da Copa dos Campeões da Europa. Serviria de orgulho.
Depois de algumas boas finalizações do Celtic, o gol que abriu a vitória aconteceu aos 28 minutos. Recém-contratado do Middlesbrough, Neil Mochan se transformou em ídolo quando acertou um petardo de longe no ângulo do goleiro Tommy Younger. E quem brilhou do outro lado foi Johnny Bonnar, na partida da vida do arqueiro dos Bhoys. Segundo os jornais da época, sua exibição “beirou o miraculoso”, diante do bombardeio realizado pelo Famous Five, mesmo que Bobby Combe tenha se lesionado na primeira etapa e não pudesse ser substituído. Futuro ídolo do Manchester City, Bobby Johnstone chegou a travar um duelo particular com o goleiro e terminou frustrado por Bonnar – a ponto de aplaudir o camisa 1 em campo, depois de uma das tantas intervenções incríveis. Já a confirmação da conquista se deu aos 42 do segundo tempo, quando Jimmy Walsh concluiu o triunfo dos Celtas, mesmo já contundido – em jogada de Willie Fernie, um providencial substituto a Charlie Tully na ponta. O troféu seria entregue ao capitão Jock Stein, enquanto Bonnar era carregado nos braços pelos companheiros.

O elenco do Celtic desfilou em carro aberto pelas ruas de Glasgow com a Copa da Coroação. A torcida alviverde saiu em massa às ruas, aproveitando para adaptar as letras das músicas da coroação, incluindo referências aos movimentos republicanos. Já o técnico Jimmy McGrory seria capaz de um grande gesto com a taça em mãos. O veterano levou o prêmio ao leito de Patsy Gallacher, lenda do clube de 1911 a 1925 e presente em seis títulos do Campeonato Escocês, que estava gravemente enfermo. Seria uma das últimas alegrias do antigo craque, que faleceu aos 62 anos, menos de um mês depois da vitória na Copa da Coroação.
De uma maneira geral, a confiança do Celtic se inflou depois da conquista da Copa da Coroação. E os reflexos disso se notariam na próxima temporada: os Bhoys conquistaram o Campeonato Escocês pela primeira vez desde 1938, colocando ponto final a um hiato de 16 anos sem o título. Melhor ainda, também faturaram a Copa da Escócia e registraram a primeira dobradinha do clube em quatro décadas. Depois disso, os alviverdes ficariam 12 anos sem repetir a comemoração na liga, mas aquele marco em tempos duros é o que recobrou a fé dos Celtas. Além do mais, o momento contribuiu para que Jock Stein construísse uma reputação e voltasse respaldado como técnico em 1965. O fim da nova seca no Campeonato Escocês em 1966 seria sobreposto por nove títulos consecutivos. E o primeiro daquela série, afinal, foi o que levou o Celtic a participar da Copa dos Campeões de 1966/67 – culminando na consagração dos Leões de Lisboa como a melhor equipe do continente, o primeiro britânico a alcançar tal feito.

A história da Copa da Coroação ainda acabaria eternizada por uma música entoada nas arquibancadas de Parkhead a partir de então. A letra conta a história de um jantar entre Lizzie (a Rainha Elizabeth II) e Phillip, seu marido. A família real recebe um bilhete de Big Geordie, “um leal súdito de nariz sujo”, que pede um troféu para o Rangers ser campeão no ano da coroação. Quando Phillip alerta para tomarem cuidado com o Celtic, Elizabeth II diz que os rivais não têm chances e que enviará os ingleses para barrar o caminho. A canção reconstrói como o Celtic bateu Arsenal e Manchester United, até superar o Hibernian na final e pintar o Hampden Park de verde. Diante da notícia sobre o título, Elizabeth II comenta que “um golpe foi dado em nossos leais e verdadeiros azuis”. Ao que Phillip responde que o único caminho para derrotar o Celtic é “deportar o exército feniano inteiro” que apoia o time – num paralelo entre a torcida e os combatentes irlandeses antibritânicos que lutaram pela independência da República da Irlanda. Uma sátira bem-humorada sobre aquilo que ocorreu em campo.
A música traduz o deleite do Celtic por estragar as expectativas dos monarquistas, se tornando um convidado indigesto em meio à festa da coroação. A canção ecoa através de sete décadas e o sentimento permanece vivo nas arquibancadas alviverdes. A identidade ao redor dos Celtas perdura por tanto tempo e não é a morte de Elizabeth II que fará a torcida mudar – pelo contrário, o contexto reaviva mais as lembranças.



