Europa

Presidente da Uefa minimiza Arábia Saudita, mas esquece que dinheiro também cria sonhos

Ao criticar ida de jogadores para o futebol saudita, Aleksander Ceferin ignora o que a Europa faz há anos

Com muitos nomes de peso se transferindo para clubes da Arábia Saudita nesta janela de transferências, personagens importantes do futebol europeu têm dado declarações que tentam reafirmar a força do Velho Continente ou diminuir o impacto do êxodo para o país do Oriente Médio. O mais novo deles foi Aleksander Ceferin, presidente da Uefa.

Em entrevista ao jornal francês L’Équipe publicada nesta quinta-feira (31), horas antes do sorteio da fase de grupos da Champions League 2023/24, Ceferin minimizou a Arábia Saudita e comparou o recente movimento com a estratégia adotada pela China de 2016 a 2019. Para o dirigente, apenas jogadores em fim de carreira ou sem ambição tomarão este rumo, o que não assusta a entidade máxima do futebol europeu.

— Não é uma ameaça. Nós vimos uma abordagem similar na China, que trouxe jogadores no fim de suas carreiras, lhes oferecendo muito dinheiro. O futebol chinês não se desenvolveu e não se classificou para a Copa do Mundo depois disso. Não é o jeito certo de se fazer. Eles deveriam trabalhar no desenvolvimento dos jogadores e técnicos, mas isso não é problema meu — pontuou

— Tem jogadores no fim de suas carreiras e outros que não são ambiciosos o suficiente para aspirar as competições ‘top’. Pelo que sei, Mbappé e Haaland não sonham com a Arábia Saudita. Eu não acredito que os melhores jogadores, no auge de suas carreiras, iriam para a Arábia Saudita. Quando as pessoas falam comigo sobre os jogadores que foram para lá, ninguém sabe onde estão jogando. Isso interessa muito para mídia, mas não tanto para a comunidade do futebol europeu. Veremos, mas não creio um segundo que isso possa ameaçar nossas competições — completou.

Ceferin descarta participação da Arábia Saudita na Champions League

Aleksander Ceferin também aproveitou a entrevista ao L’Équipe para descartar a possibilidade da participação da Arábia Saudita na Champions League de 2024/25. Obviamente, a ingressão de clubes de um país não europeu no torneio sempre foi extremamente improvável, mas passou a ser debatida após o diretor de operações da Liga Saudita, Carlo Nohra, falar sobre em entrevista ao canal Boomberg no último domingo (27).

— Um meio de comunicação falou disso sem sequer nos perguntar. Apenas clubes europeus podem participar da Champions League, Europa League e Conference League. Somente federações europeias se candidatar para (receber) uma final, nem mesmo clubes. Nós teríamos de mudar todas as nossas regras, e não queremos isso — disse Ceferin.

Ao falar sobre uma possível participação saudita no principal torneio de clubes da Europa, Carlo Nohra afirmou que “qualquer tipo de mudança de formato ou melhorias que possam ser introduzidas serão bem-vindas”, mas destacou que a Liga Saudita está “totalmente comprometida” em participar da LIga dos Campeões da AFC.

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A hipocrisia e os enganos no discurso de Ceferin

Por mais que as falas de Ceferin na entrevista ao L’Équipe tenham como evidente objetivo reafirmar o poder e influência da Uefa, não deixa de parecer um discurso egocêntrico ou até mesmo de alguém inseguro e que quer passar uma imagem de confiança. É claro que a Arábia Saudita não ameaça a Uefa, até porque seria necessário que outros países filiados à Confederação Asiática de Futebol passassem a investir tão pesadamente no futebol. Ao mesmo tempo, ignorar e minimizar o alto número de destaques indo para o Oriente Médio é um grande engano, além de uma hipocrisia.

Não é verdade que o movimento da Arábia Saudita seja tão similar assim ao da China. As cifras e os jogadores envolvidos são muito diferentes e comprovam isso. As duas maiores contratações do futebol chinês foram os brasileiros Oscar e Hulk, que deixaram Chelsea e Zenit rumo ao Shanghai SIPG em 2016 por 60 e 56 milhões de euros, respectivamente. Já a mais cara do futebol saudita foi Neymar, que foi vendido pelo Paris Saint-Germain ao Al-Hilal por 90 milhões de euros.

A diferença dos nomes é gritante. Em apenas um ano, a Arábia Saudita conseguiu trazer jogadores que foram destaques mundiais na última década. Com todo respeito que Oscar e Hulk merecem, não existe comparação com Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, Sadio Mané, Roberto Firmino, N’golo Kanté e outros que estiveram em listas do The Best e da Bola de Ouro nos últimos anos.

Último vencedor da tradicional Bola de Ouro da revista France Football, o francês Karim Benzema foi um dos muitos destaques que se transferiram para um clube saudita (Foto: Icon sport)

O êxodo de craques como esses para a Arábia Saudita pode não ser uma ameaça para Ceferin, mas são um atrativo gigantesco para demais jogadores. O presidente da Uefa até tem razão em achar que Haaland e Mbappé não sonham com o Oriente Médio, mas jogadores de fora do Velho Continente também não tinham como principal desejo disputar a Champions League até as décadas de 80 e 90. A vontade só surgiu justamente porque clubes da Europa tinham mais dinheiro que os do resto do mundo e conseguiam contratar os melhores de diferentes países (o que acontece até hoje).

No fim das contas, tudo começa com dinheiro. É o dinheiro que atrai os destaques internacionais em um primeiro momento, que consequentemente trazem junto uma onde de fãs e jogadores mais jovens que sonham em dividir os campos com seus ídolos. O atleta que se transfere para um clube que não disputará títulos, mas estará em uma competição europeia e possivelmente enfrentará gigantes do continente, também não possui ambição ou isso só vale para aquele que ruma à Arábia Saudita para ser companheiro de Cristiano Ronaldo e Neymar?

Kroos também critica transferências para Arábia Saudita

Outro personagem importante para o futebol europeu e que criticou o movimento de jogadores rumo à Arábia Saudita foi Toni Kroos, do Real Madrid. O meio-campista alemão já havia chamado a ida da promessa espanhola Gabri Veiga ao Al-Ahli de “vergonhosa” em um comentário no Instagram, na semana passada.

Em entrevista à revista Sports Illustrated, Kroos disse que “tudo gira em torno do dinheiro”. O jogador também deu a entender que compreende a escolha de veteranos pelo futebol saudita, mas não a de jovens com potencial e qualidade para estarem nas mais competitivas competições.

— Dizem que lá se joga um futebol ambicioso, mas tudo gira em torno do dinheiro. No fim das contas, é uma decisão que vai contra o futebol. É assim que começa a ser difícil para o futebol que nós conhecemos e amamos — afirmou o alemão.

— Todos têm que tomar essa decisão, como Cristiano Ronaldo, que decidiu já no fim da carreira. Mas fica muito difícil quando jogadores que estão no meio de suas carreiras e ainda têm qualidade para jogar nos melhores clubes da Europa decidem fazer essa mudança — concluiu.

Kroos, ao menos, foi mais sincero que Ceferin. O meio-campista ainda declarou que “a falta de direitos humanos” o impediria de jogar na Arábia Saudita, um motivo extremamente justo e um tópico menos lembrado na discussão sobre o assunto, infelizmente. Criticar a Arábia Saudita por atrair jogadores supostamente sem ambição e por dinheiro, no entanto, é esquecer que a Europa tem trazido os principais nomes de outros continentes há anos justamente por ter um maior poder econômico. O alemão tem razão ao falar que “tudo gira em torno do dinheiro”, mas falta aos egocêntricos entenderem que isso vale para eles também.

Foto de Felipe Novis

Felipe NovisRedator

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.

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