Por que formação amada por Ancelotti foi de ‘regra’ a desaparecida no futebol moderno
O losango no meio-campo era muito popular nos anos 2000 e viveu o auge com o atual técnico da seleção brasileira, mas, hoje, é raridade
Apesar de toda a flexibilidade tática do futebol moderno, uma formação anteriormente comum desapareceu quase completamente do esporte nos últimos anos. O losango — ou diamante — no meio-campo, tão amado por Carlo Ancelotti, sumiu.
Esse sistema, geralmente representado como um 4-3-1-2, às vezes um 4-1-3-2 em um formato ligeiramente diferente, é mais comumente ligado à Argentina e à Itália, dois países que, sem dúvida, reverenciam o camisa 10 mais do que qualquer outro, mas não produzem muitos pontas de primeira linha.
Essa situação é um ciclo de causa e efeito. A “morte” do losango não se trata apenas do sistema em si, mas do que o sistema representa e como ele se encaixa no futebol mundial.
De amado por Ancelotti a desaparecido: o que é o losango
O 4-3-1-2, talvez mais do que qualquer outro sistema moderno, tem pontos fortes e fracos óbvios. Em termos simples, ele lota o centro do campo, mas deixa espaço nas laterais.
Na realidade, o losango, quando usado corretamente, pode cobrir o espaço de forma dinâmica. A amplitude pode vir dos atacantes correndo pelos corredores, dos meio-campistas nas pontas laterais do losango ou do avanço dos laterais. O que inicialmente parece ser uma formação muito rígida pode ser perfeitamente fluida.
E, no seu melhor, o losango foi usado por treinadores que queriam controle no meio-campo. Voltando a meados dos anos 2000, por exemplo, é possível ver o Porto de José Mourinho vencendo a Champions League com esse sistema, enquanto o Milan de Carlo Ancelotti era o time que usava o losango de forma mais consistente.

Esse Milan, em particular, mostrou como a formação permite que os treinadores concentrem muitos meias que jogam com a bola. Um meio-campo com Andrea Pirlo, Clarence Seedorf e Kaká, com Gennaro Gattuso fazendo a maior parte do trabalho sujo, era particularmente ousado durante um período de futebol cauteloso.
Às vezes, Ancelotti ia além e usava Rui Costa em vez de um segundo atacante, transformando o sistema em um 4-3-2-1 — a clássica formação da Árvore de Natal. Esse era um sistema diferente, mas que oferecia qualidades e desvantagens semelhantes.
Em certo momento, o losango era a formação mais popular da Serie A. Na temporada 2008/09, segundo dados do “The Athletic”, quase metade dos times usavam variações do 4-3-1-2 e 4-3-2-1, e mais de um terço dos times se postavam no losango.
Esse número caiu esporadicamente, principalmente desde 2018/19. Na última temporada, por exemplo, nenhum time italiano jogava dessa forma consistentemente.
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A queda do losango
O que parece ter matado a formação é a velocidade e intensidade do jogo moderno. O losango conseguia superar a maioria de suas deficiências baseadas na falta de amplitude quando o jogo era disputado em um ritmo mais lento.
Os meio-campistas laterais tinham liberdade para se abrir e os laterais podiam avançar por fora. Mas no jogo moderno, com as transições tão rápidas e devastadoras, isso é pedir para ter problemas, principalmente em contra-ataques.
As equipes não podem mais confiar nos laterais para fornecer a maior parte da amplitude ofensiva em ambos os flancos, ao mesmo tempo em que voltam para defender em uma linha de quatro. É mais viável em um 3-4-1-2, mas mesmo esse sistema é relativamente raro atualmente. Os alas geralmente prosperam em um 3-4-3.

Na verdade, a revigorada dos sistemas com alas não ajudou o losango, particularmente na Itália. A ascensão do esquema com três zagueiros em parte inspirada pelo Napoli de Walter Mazzarri e a Juventus de Antonio Conte no início dos anos 2010, significaram que alas que corriam livremente dominaram os flancos, e as equipes podiam mudar o jogo facilmente entre as partes externas de um losango adversário.
O losango também não funciona bem em uma era baseada na pressão. Não há nada de errado com o losango como uma forma de pressão em si — o meio-campista ofensivo pode avançar para se tornar um atacante extra, e então o time passa a pressionar com um 4-3-3. Além disso, a compactação lateral da formação pode ser muito eficaz para encurralar os adversários em direção a um lado e sufocar suas tentativas de jogar por entre as linhas.
Mas essa mesma compactação pode, igualmente, tornar fácil para os times que pressionam sobrecarregar o losango. As distâncias são curtas e fáceis para o adversário cobrir. As linhas de passe são simples de fechar. Não há uma “válvula de escape”. O losango faz com que as equipes se compliquem.
Experiências além de Ancelotti
Na Inglaterra, por exemplo, a experiência mais notável com o losango foi antes da Euro 2004, quando Sven-Goran Eriksson tentou resolver o constante dilema do meio-campo inglês espremendo uma linha de quatro em um losango. Neste ponto, os meio-campistas da Inglaterra eram tão diferentes dos jogadores que se tornaram meia década depois que Paul Scholes era considerado a escolha óbvia como camisa 10, enquanto Frank Lampard era escalado como volante com David Beckham e Steven Gerrard nas laterais.
No papel, funcionou, mas em campo, decepcionou. Na história da Premier League, o losango tendeu a ser eficaz para times que disputavam o título em picos muito curtos e intensos. Ancelotti começou a campanha vitoriosa do Chelsea em 2009/10 com o sistema e eles pareciam imparáveis, antes que o time chegasse a um empasse, quando os adversários expuseram sua falta de amplitude. Ancelotti mudou para o 4-3-3, e o Chelsea reencontrou seu ritmo.
💎 “The diamond press”
♦️ Andoni Iraola
♦️ Thomas Tuchel
♦️ Mikel Arteta
♦️ Unai EmeryAn increasingly common feature of the elites.
It applies top pressure to the opposition's build-up WHILST maintaining a +1 in the defensive line, oftentimes with a #6 screening the back 4 👇 pic.twitter.com/3PAVsbRkl7
— EBL (@EBL2017) October 17, 2025
Na temporada final de Sir Alex Ferguson no Manchester United, 2012/13, ele teve um breve flerte com o losango, em grande parte porque contratou Shinji Kagawa para ser o parceiro de Wayne Rooney, depois contratou Robin van Persie, e tentou encaixar os três.
O Liverpool não chegou a ganhar o título em 2013/14, mas seu surto sensacional que trouxe 11 vitórias consecutivas, deveu-se muito a Brendan Rodgers ter mudado para um losango, com um Gerrard mais experiente desempenhando bem a função de volante, com Jordan Henderson na direita, Philippe Coutinho na esquerda e Raheem Sterling no topo, avançando rapidamente para o ataque para se juntar a Luis Suárez e Daniel Sturridge.
Outros sistemas acabam se assemelhando a um losango de diferentes maneiras. O Liverpool de Jurgen Klopp, por exemplo, usava Roberto Firmino como um falso nove, enquanto Mohamed Salah e Sadio Mané eram os principais artilheiros vindo das laterais. Isso poderia ser, na prática, um exemplo de losango. Mas o “verdadeiro” parece estar morto no jogo moderno.



