Europa

Por que formação amada por Ancelotti foi de ‘regra’ a desaparecida no futebol moderno

O losango no meio-campo era muito popular nos anos 2000 e viveu o auge com o atual técnico da seleção brasileira, mas, hoje, é raridade

Apesar de toda a flexibilidade tática do futebol moderno, uma formação anteriormente comum desapareceu quase completamente do esporte nos últimos anos. O losango — ou diamante — no meio-campo, tão amado por Carlo Ancelotti, sumiu.

Esse sistema, geralmente representado como um 4-3-1-2, às vezes um 4-1-3-2 em um formato ligeiramente diferente, é mais comumente ligado à Argentina e à Itália, dois países que, sem dúvida, reverenciam o camisa 10 mais do que qualquer outro, mas não produzem muitos pontas de primeira linha.

Essa situação é um ciclo de causa e efeito. A “morte” do losango não se trata apenas do sistema em si, mas do que o sistema representa e como ele se encaixa no futebol mundial.

De amado por Ancelotti a desaparecido: o que é o losango

O 4-3-1-2, talvez mais do que qualquer outro sistema moderno, tem pontos fortes e fracos óbvios. Em termos simples, ele lota o centro do campo, mas deixa espaço nas laterais.

Na realidade, o losango, quando usado corretamente, pode cobrir o espaço de forma dinâmica. A amplitude pode vir dos atacantes correndo pelos corredores, dos meio-campistas nas pontas laterais do losango ou do avanço dos laterais. O que inicialmente parece ser uma formação muito rígida pode ser perfeitamente fluida.

E, no seu melhor, o losango foi usado por treinadores que queriam controle no meio-campo. Voltando a meados dos anos 2000, por exemplo, é possível ver o Porto de José Mourinho vencendo a Champions League com esse sistema, enquanto o Milan de Carlo Ancelotti era o time que usava o losango de forma mais consistente.

Ancelotti e Kaká pelo Milan, em 2007
Ancelotti e Kaká pelo Milan, em 2007 (Foto: Imago)

Esse Milan, em particular, mostrou como a formação permite que os treinadores concentrem muitos meias que jogam com a bola. Um meio-campo com Andrea Pirlo, Clarence Seedorf e Kaká, com Gennaro Gattuso fazendo a maior parte do trabalho sujo, era particularmente ousado durante um período de futebol cauteloso.

Às vezes, Ancelotti ia além e usava Rui Costa em vez de um segundo atacante, transformando o sistema em um 4-3-2-1 — a clássica formação da Árvore de Natal. Esse era um sistema diferente, mas que oferecia qualidades e desvantagens semelhantes.

Em certo momento, o losango era a formação mais popular da Serie A. Na temporada 2008/09, segundo dados do “The Athletic”, quase metade dos times usavam variações do 4-3-1-2 e 4-3-2-1, e mais de um terço dos times se postavam no losango.

Esse número caiu esporadicamente, principalmente desde 2018/19. Na última temporada, por exemplo, nenhum time italiano jogava dessa forma consistentemente.

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A queda do losango

O que parece ter matado a formação é a velocidade e intensidade do jogo moderno. O losango conseguia superar a maioria de suas deficiências baseadas na falta de amplitude quando o jogo era disputado em um ritmo mais lento.

Os meio-campistas laterais tinham liberdade para se abrir e os laterais podiam avançar por fora. Mas no jogo moderno, com as transições tão rápidas e devastadoras, isso é pedir para ter problemas, principalmente em contra-ataques.

As equipes não podem mais confiar nos laterais para fornecer a maior parte da amplitude ofensiva em ambos os flancos, ao mesmo tempo em que voltam para defender em uma linha de quatro. É mais viável em um 3-4-1-2, mas mesmo esse sistema é relativamente raro atualmente. Os alas geralmente prosperam em um 3-4-3.

Antonio Conte em sua primeira passagem pela Juventus
Antonio Conte em sua primeira passagem pela Juventus (Foto: Imago)

Na verdade, a revigorada dos sistemas com alas não ajudou o losango, particularmente na Itália. A ascensão do esquema com três zagueiros em parte inspirada pelo Napoli de Walter Mazzarri e a Juventus de Antonio Conte no início dos anos 2010, significaram que alas que corriam livremente dominaram os flancos, e as equipes podiam mudar o jogo facilmente entre as partes externas de um losango adversário.

O losango também não funciona bem em uma era baseada na pressão. Não há nada de errado com o losango como uma forma de pressão em si — o meio-campista ofensivo pode avançar para se tornar um atacante extra, e então o time passa a pressionar com um 4-3-3. Além disso, a compactação lateral da formação pode ser muito eficaz para encurralar os adversários em direção a um lado e sufocar suas tentativas de jogar por entre as linhas.

Mas essa mesma compactação pode, igualmente, tornar fácil para os times que pressionam sobrecarregar o losango. As distâncias são curtas e fáceis para o adversário cobrir. As linhas de passe são simples de fechar. Não há uma “válvula de escape”. O losango faz com que as equipes se compliquem.

Experiências além de Ancelotti

Na Inglaterra, por exemplo, a experiência mais notável com o losango foi antes da Euro 2004, quando Sven-Goran Eriksson tentou resolver o constante dilema do meio-campo inglês espremendo uma linha de quatro em um losango. Neste ponto, os meio-campistas da Inglaterra eram tão diferentes dos jogadores que se tornaram meia década depois que Paul Scholes era considerado a escolha óbvia como camisa 10, enquanto Frank Lampard era escalado como volante com David Beckham e Steven Gerrard nas laterais.

No papel, funcionou, mas em campo, decepcionou. Na história da Premier League, o losango tendeu a ser eficaz para times que disputavam o título em picos muito curtos e intensos. Ancelotti começou a campanha vitoriosa do Chelsea em 2009/10 com o sistema e eles pareciam imparáveis, antes que o time chegasse a um empasse, quando os adversários expuseram sua falta de amplitude. Ancelotti mudou para o 4-3-3, e o Chelsea reencontrou seu ritmo.

Na temporada final de Sir Alex Ferguson no Manchester United, 2012/13, ele teve um breve flerte com o losango, em grande parte porque contratou Shinji Kagawa para ser o parceiro de Wayne Rooney, depois contratou Robin van Persie, e tentou encaixar os três.

O Liverpool não chegou a ganhar o título em 2013/14, mas seu surto sensacional que trouxe 11 vitórias consecutivas, deveu-se muito a Brendan Rodgers ter mudado para um losango, com um Gerrard mais experiente desempenhando bem a função de volante, com Jordan Henderson na direita, Philippe Coutinho na esquerda e Raheem Sterling no topo, avançando rapidamente para o ataque para se juntar a Luis Suárez e Daniel Sturridge.

Outros sistemas acabam se assemelhando a um losango de diferentes maneiras. O Liverpool de Jurgen Klopp, por exemplo, usava Roberto Firmino como um falso nove, enquanto Mohamed Salah e Sadio Mané eram os principais artilheiros vindo das laterais. Isso poderia ser, na prática, um exemplo de losango. Mas o “verdadeiro” parece estar morto no jogo moderno.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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