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Numa temporada pra lá de emocionante, o AEK Atenas selou o título grego na última rodada

O AEK Atenas travou uma disputa ferrenha com o Panathinaikos, mas foi mais consistente na reta decisiva e coroou uma temporada em que rolou a inauguração do novo estádio dos aurinegros

O Campeonato Grego concluiu uma das temporadas mais emocionantes dos últimos anos neste domingo. E o AEK Atenas se coroou campeão, numa edição selada apenas na última rodada. O Panathinaikos foi um duríssimo concorrente, com recorde de vitórias em sua largada e também uma perseguição implacável na fase final. Entretanto, o AEK teve mais consistência do que os rivais e conseguiu dar um passo à frente justo no momento decisivo. O penúltimo compromisso havia dado vantagem aos aurinegros. Já neste domingo, a festa se confirmou com uma goleada por 4 a 0 sobre o Volos. É o 13° título nacional da Águia de Duas Cabeças, o primeiro em cinco anos e apenas o segundo deste século. Tudo isso numa temporada em que o AEK também celebrou a inauguração de seu novo estádio e a volta para o bairro onde tem suas raízes.

O título do AEK Atenas em 2017/18 já era carregado de simbolismo. Foi quando os atenienses encerraram um jejum de 24 anos sem serem campeões e, mais importante, concluíram um processo longo de reestruturação interna. Cinco anos antes, o AEK sofreu um rebaixamento inédito para a segunda divisão e preferiu recomeçar na terceira, diante de uma severa crise financeira. A partir de então, os aurinegros foram abraçados por antigos dirigentes e ídolos no trabalho de reconstrução, enquanto torcedores passaram a ter uma participação mais ativa nas decisões. A austeridade imperou e auxiliou a Águia de Duas Cabeças em sua administração mais estável, mesmo com os problemas da economia grega na última década. O resultado disso veio com uma ascensão paulatina, que culminou no troféu em 2017/18.

O AEK Atenas não repetiu o sucesso no Campeonato Grego de imediato, mas se manteve sempre nas cabeças. A equipe ficou na terceira colocação em quatro temporadas consecutivas. A estabilidade era importante, enquanto novos saltos ocorriam nos bastidores. Os atenienses ampliaram o seu centro de treinamentos. Mais importante ainda, o clube inaugurou um novo estádio na atual temporada. O Estádio Agia Sofia foi construído em Nea Filadelfeia, o bairro onde o clube surgiu nos anos 1920 e onde permaneceu até 2003, com a demolição posterior da antiga casa. Foram quase duas décadas longe das raízes, em desterro que agravou as dificuldades dos aurinegros e foi bastante celebrado quando finalmente se encerrou.

Existia uma clara empolgação sobre o AEK Atenas na atual temporada, neste contexto. No entanto, os planos de título começaram mais frios, diante do ótimo início de campanha do Panathinaikos no Campeonato Grego. Os alviverdes venceram seus dez primeiros compromissos, incluindo o primeiro clássico contra o AEK, o que permitiu uma vantagem de seis pontos na dianteira. Os aurinegros, de qualquer maneira, conquistaram oito vitórias no mesmo período e se colocavam como principais perseguidores. Quanto o Pana perdeu fôlego a partir do início de 2023, o AEK estava num ritmo mais forte. As duas equipes passaram a se alternar na primeira posição durante a reta final da temporada regular.

O AEK conseguiu dar o troco contra o Panathinaikos no segundo turno e venceu por 1 a 0 em Agia Sofia. Os aurinegros tiveram uma sequência de oito vitórias em nove rodadas. Porém, a derrota para o Olympiacos no último compromisso da temporada regular permitiu que o Panathinaikos ficasse dois pontos à frente. Teria uma ligeira vantagem no hexagonal final, com confrontos diretos mais constantes. O desafio para o AEK seria se mostrar mais forte contra os principais concorrentes à taça. Foi o que aconteceu.

AEK Atenas e Panathinaikos se pegaram logo na primeira rodada do hexagonal, com empate por 0 a 0. No entanto, na segunda rodada, o empate dos alviverdes com o Volos permitiu que o AEK igualasse a pontuação dos líderes, após bater o PAOK. Com o passar das rodadas, a briga se restringiu aos dois, com uma sequência de vitórias de ambos. Isso até que o novo empate por 0 a 0 no segundo turno do hexagonal final confirmasse uma ligeira vantagem ao Pana nos critérios de desempate, graças à primeira colocação na temporada regular. Porém, os alviverdes derraparam exatamente no momento decisivo.

Na penúltima rodada, o Panathinaikos perdeu por 1 a 0 o clássico diante do Olympiacos, realizado na segunda-feira passada. Enquanto isso, o AEK Atenas derrotou o Aris por 2 a 1, fora de casa e de virada, para abrir uma vantagem de três pontos na dianteira. Nesta rodada final, o AEK dependia apenas de si para confirmar a taça. Promoveu a festa em Agia Sofia, com a goleada por 4 a 0 sobre o Volos. Steven Zuber, Mijat Gacinovic, Orbelín Pineda e Damian Szymanski anotaram os gols. Paralelamente, o Panathinaikos sequer cumpriu sua parte, com o empate diante do Aris. Com isso, a Águia de Duas Cabeças encerrou a campanha com uma vantagem de cinco pontos na dianteira – que não corresponde totalmente às dificuldades da caminhada.

O AEK Atenas teve um desempenho excelente como mandante na temporada. Os aurinegros conquistaram 14 vitórias e dois empates em 18 partidas no Agia Sofia. Além do mais, impressiona o rendimento defensivo dos atenienses. A equipe sofreu míseros 17 gols em 36 compromissos no total, uma média inferior a um gol tomado a cada dois jogos. Curiosamente, o Panathinaikos teve uma defesa ainda melhor, com 16 tentos sofridos. Na disputa direta, o AEK compensou com mais gols anotados e também mais vitórias conquistadas – os empates excessivos atrapalharam os alviverdes.

O título do AEK Atenas premia o ótimo trabalho de Matías Almeyda na atual temporada. Durante os últimos anos, os aurinegros sofreram com a falta de estabilidade em seu banco de reservas. Desde que Manolo Jiménez deixou a equipe após conquistar o título em 2018, nada menos que dez trocas de técnicos ocorreram em cinco anos – incluindo duas voltas do próprio Jiménez. Ninguém durou mais do que uma temporada completa. Almeyda rompe a rotatividade e corresponde à confiança. É o primeiro trabalho do argentino na Europa, depois de uma carreira de relativo sucesso em diferentes países – tirou o River Plate da segunda divisão e faturou a Concachampions com o Chivas Guadalajara, antes de passar três anos no San Jose Earthquakes.

Já dentro de campo, o AEK Atenas se destaca por um elenco multinacional e cheio de figurinhas carimbadas. O goleiro é Georgios Athanasiadis, herói na epopeia do Sheriff Tiraspol na Champions passada. A defesa tem nomes como o croata Domagoj Vida, o iraniano Ehsan Hajsafi, o camaronês Harold Moukoudi e o francês Djibril Sidibé. O mexicano Orbelín Pineda, o sérvio Mijat Gacinovic, o marroquino Nordin Amrabat e o polonês Damian Szymanski foram referências no meio. Já o ataque teve a combinação do trinitino Levi García, do argentino Sergio Araujo e do suíço Steven Zuber. O único jogador com sangue brasileiro é o ponta Niclas Eliasson, sueco filho de mãe brasileira. Já o principal símbolo da reconstrução é o meia Petros Mantalos, único do elenco que participou do acesso à primeira divisão em 2015 e esteve também na conquista do título em 2018.

O AEK Atenas ainda pode levar outra taça nacional nesta temporada. Os aurinegros disputarão a decisão da Copa da Grécia contra o PAOK. Os atenienses não levaram o título desde 2016 e a última vez que a dobradinha com a liga aconteceu foi em 1978. Além disso, a equipe entrará na terceira fase preliminar da Champions League – o que garante uma vaga pelo menos na fase de grupos da Conference League. Já o Panathinaikos entrará na segunda fase preliminar da Champions e voltam ao torneio continental depois de sete anos. Olympiacos, Aris e PAOK serão os outros representantes gregos nas copas continentais em 2023/24. O Olympiacos ficará com a vaga na Liga Europa caso o PAOK não vença a final da Copa da Grécia.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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