Liga das Nações

Por que Israel x Irlanda devem protagonizar os jogos mais tensos da Data Fifa

Partidas válidas pela Liga das Nações serão disputadas em campos neutros na Hungria e na Sérvia

Estádios neutros, ausência de torcedores visitantes e cobertura televisiva reduzida marcam a prévia do das partidas entre Israel e Irlanda, válidas pela Liga das Nações, durante a Data Fifa deste mês de setembro. O jogo, marcado para o domingo (27), possui contornos de tensão após os recentes protestos e a desaprovação por parte de torcedores, especialistas e políticos ao duelo.

A escolha dos adversários gerou manifestações públicas de ambos os países devido às discordâncias geradas pela ofensiva militar de Israel em Gaza. Há um ano, a Federação Irlandesa de Futebol solicitou à Uefa que suspendesse a Federação Israelense de Futebol em protesto contra a ação militar do país adversário, mas teve o seu pedido rejeitado pelo órgão.

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A rede britânica “BBC” informou que o presidente da Associação de Futebol da Irlanda (FAI), David Courrell, declarou, na última semana, que a Uefa rejeitou um pedido para que as equipes fossem mantidas separadas em sorteios futuros.

O clima de insatisfação já está insatalado antes mesmo do anúncio das atuais partidas. Isso porque, quando a Irlanda foi sorteada no mesmo grupo que Israel – além de Áustria e Kosovo – na Liga das Nações, em fevereiro, a FAI enfrentou apelos para que os jogos fossem boicotados.

Manifestantes marcham exigindo o cancelamento dos jogos da Irlanda contra Israel na Liga das Nações
Manifestantes marcham exigindo o cancelamento dos jogos da Irlanda contra Israel na Liga das Nações. Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire

A associação decidiu, então, realizar uma votação — no mês de julho– entre os seus delegados. Durante a reunião, 75 membros votaram a favor da realização das partidas e 32 votaram contra, ainda segundo a “BBC”.

Na justificativa destacada pela federação, estava o argumento de que não realizar as partidas poderia prejudicar o futebol irlandês a longo prazo, dificultando as suas chances de se classificar para a Eurocopa de 2028, competição da qual a Irlanda é sede juntamente com os países da Grã-Bretanha. Isso se deve à possibilidade de sanções da Uefa por recusa em cumprir os jogos e à potencial perda de milhões de euros em receitas.

De acordo com a agência “Associated Press”,  ativistas se reuniram em frente ao hotel da equipe em Dublin reforçando as tentativas de impedir que a seleção irlandesa participasse do primeiro jogo, que será realizado neste domingo. O segundo embate, a ser realizado na Sérvia, está marcado para o dia 4 de outubro.

Técnico da Irlanda não amenizou tensão prévia ao duelo

Após anunciar a convocação, o técnico da Irlanda, Heimir Hallgrimsson, revelou seu incômodo com a realização dos confrontos entre as seleções.

— Sem entrar em detalhes sobre indivíduos, nenhum de nós se sente confortável jogando essas partidas, mas uma vez que decidimos jogá-las, permanecemos unidos e jogamos como um só –, afirmou.

Ao ser questionado sobre como os jogadores manteriam o foco na partida, em meio ao clima de tensão e protestos, o treinador pontuou que a seleção não está “jogando com genocídio, estamos jogando contra o genocídio. Estamos jogando contra Israel, não estamos jogando com Israel”.

Heimir Hallgrimsson, técnico da Irlanda, durante coletiva de imprensa (Foto: IMAGO / Inpho Photography)
Heimir Hallgrimsson, técnico da Irlanda, durante coletiva de imprensa (Foto: IMAGO / Inpho Photography)

Pelas redes sociais, a Federação Israelense de Futebol respondeu às declarações de Hallgrimsson afirmando que o país “contribuiu para o mundo e para a humanidade”, e chamou as afirmações do treinador irlandês de “ignorantes, hipócritas e estúpidas”.

— Contribuímos para o mundo e para a humanidade em inúmeras áreas, conquistando um número impressionante de Prêmios Nobel ao longo do caminho. Infelizmente, ainda não encontramos uma cura para a estupidez, a ignorância e a hipocrisia demonstradas por (Hallgrimsson). Não estamos jogando contra a ignorância, a hipocrisia e a estupidez, estamos jogando contra o treinador que as personifica — escreveu o perfil da entidade.

Apesar de mudança de local, protestos não diminuíram

Com o cenário de tensão envolvendo a partida, a Irlanda optou por realizar o jogo em campo neutro devido ao que a FAI descreveu como “desafios operacionais” que poderiam surgir se a partida fosse disputada em Dublin.

Dessa forma, a Hungria foi considerada um país anfitrião adequado para os jogos, já que as duas nações desfrutam de laços diplomáticos mais fortes. O país da Europa Central ainda se mostrou disposto a fornecer o policiamento e as medidas de segurança necessárias para que a partida se realize de forma adequada.

Já para a segunda partida, marcada para o dia 4 de outubro, a Federação Irlandesa optou pela escolha da cidade de Backa Topola, na Sérvia. A entidade que conduz o futebol irlandês não explicou o motivo da escolha, mas, por se tratar de um local mais remoto, facilitaria “a gestão da segurança e reduz a possibilidade de protestos”, de acordo com a “BBC”.

Em 2025, o ministro das Relações Exteriores sérvio, Marko Duric, descreveu Israel como um dos “amigos mais próximos e parceiros estratégicos” da Sérvia. O país também adquiriu equipamentos militares, incluindo drones e mísseis israelenses nos últimos anos.

Protesto na sede da Federação Irlandesa de Futebol para exigir boicote à partida entre Irlanda e Israel (Foto: IMAGO / Inpho Photography)
Protesto na sede da Federação Irlandesa de Futebol para exigir boicote à partida entre Irlanda e Israel (Foto: IMAGO / Inpho Photography)

Mas se a expectativa era de que, com a escolha de jogar em estádios neutros a tensão diminuiria, isso não se concretizou. Nas últimas semanas, torcedores de diferentes clubes irlandeses protestaram contra as partidas durante os jogos do campeonato nacional e mais de 160 atletas irlandeses assinaram uma carta aberta do grupo “Irish Sport for Palestine” (Futebol Irlandês pela Palestina, em tradução livre), pedindo um boicote. 

Para ambos os jogos, não serão disponibilizados ingressos para torcedores irlandeses. No primeiro duelo na Hungria, apenas alguns ingressos serão destinados a torcedores de Israel. O segundo embate, na Sérvia, será realizado com portões fechados.

Além disso, a Rede Nacional de Televisão da Irlanda decidiu reduzir a sua cobertura, e também não irá receber receitas de publicidade ou patrocínio dos jogos, afirmando que apenas “cumprirá as suas obrigações contratuais” de transmitir as partidas. 

A Irlanda está entre os países europeus que mais veementemente demonstraram apoio aos palestinos desde o início da ofensiva militar de Israel em Gaza, em outubro de 2023. Até o momento, mais de 73 mil pessoas foram mortas em ataques israelenses, de acordo com o Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas, cujos números são considerados confiáveis ​​pelas Nações Unidas (ONU).

Em maio de 2024, juntamente com a Espanha e a Noruega, a Irlanda reconheceu oficialmente um Estado palestino e, no mesmo ano, o país se uniu ao processo da África do Sul contra Israel por genocídio em Gaza no Tribunal Internacional de Justiça.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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