Europa

Liechtenstein x San Marino: o clássico entre seleções mais insignificante da Europa

San Marino e Liechtenstein não figuram no último pote da Uefa sem méritos. Ou melhor, deméritos. Dois dos seis menores países do mundo, os nanicos estão reconhecidamente entre as piores seleções da Europa. O principado nos Alpes venceu apenas 11 partidas oficiais em 33 anos de história, 154 jogos no total. Muito melhor que a nação encravada na Itália, com uma mísera vitória em 125 partidas. Justamente contra Liechtenstein, há quase 11 anos. Um duelo de importância nula que se repetiu nesta terça, repleto de histórias deliciosas.

VEJA TAMBÉM: Colônia dois, metrópole zero: Cabo Verde destrona Portugal pela primeira vez no futebol

A seleção de San Marino fez sua primeira partida oficial em 1990. A partir de então, o país conquistou míseros dois empates até 2003: 0 a 0 com a Turquia, em 1993, e 1 a 1 com a Letônia, em 2001. Até enfrentar pela primeira vez com seus grandes “fregueses”: Liechtenstein. Como o cruzamento entre as duas equipes nas eliminatórias da Copa ou da Euro é quase impossível, elas disputaram o primeiro amistoso em agosto de 2003. E, depois de ficar dois gols atrás no placar, San Marino buscou o heroico empate por 2 a 2, diante de 850 pessoas em Vaduz. Já no reencontro oito meses depois, fez-se a história: graças a um golaço de falta, 1 a 0 para os alviazuis, levando ao delírio delírio os 700 torcedores presentes no Estádio Olímpico de Serravalle.

No entanto, aquela vitória jogaria uma “maldição” sobre San Marino – como se a seleção precisasse de mais desgraça. O país permaneceu mais de dez anos acumulando derrotas. Só voltou a sair de campo sem perder no último mês de novembro, ao segurar o empate por 0 a 0 com a Estônia, pelas eliminatórias da Euro 2016. Caminho diferente do percorrido por Liechtenstein, que se tornou uma máquina de vencer a partir de então – dentro de seus padrões, é claro.

VÍDEO: Veja a festa dos jogadores de San Marino depois conseguirem primeiro ponto desde 2001

Até o fatídico jogo em 2004, Liechtenstein contabilizava apenas duas vitórias em sua história: 2 a 1 sobre o Azerbaijão e 1 a 0 sobre a Arábia Saudita. Mas a derrota para San Marino mexeu com os brios dos monarquistas. Seis meses depois da humilhação em Serravalle, o principado humilhou Luxemburgo por 4 a 0, em território inimigo. O primeiro dos nove triunfos do país desde então. Entre as vítimas, a Islândia de Gudjohnsen e a Letônia de Verpakovskis. Em 2011, a revanche contra San Marino: 1 a 0 no Estádio Olímpico. E, há quatro meses, outro resultado magnífico, batendo a Moldávia por 1 a 0 em Chisinau. Neste momento, Liechtenstein tem (acredite) chances reais de classificação à Euro 2016, um ponto abaixo da zona de repescagem.

A boa fase das duas seleções já seria credencial suficiente para o amistoso desta terça, em Eschen. Mas havia outro detalhe especial: este pode ter sido o último jogo a colocar frente a frente duas lendas de seus países, Mario Frick e Andy Selva. Os dois atacantes veteranos são, ao mesmo tempo, os jogadores que mais atuaram e que mais fizeram gols por suas equipes nacionais. E cujas trajetórias contam bastante sobre a história das seleções nanicas.

EM 2013: Você não percebeu, mas um clube de San Marino viveu a maior glória de sua história

Nascido na Suíça, Mario Frick foi criado em Liechtenstein, o que o tornou apto para defender o país – já que as duas seleções, ainda que contem com populações ínfimas, preferem manter as raízes nacionais a naturalizar qualquer um. O atacante estreou pelos liechtensteinienses em 1993 e, com mais de 100 partidas nas costas, esteve presente nos grandes momentos da equipe. Anotou 16 gols ao longo desses anos, ajudando em cinco vitórias dos monarquistas. Além disso, fez uma carreira de respeito por seus clubes. Passou por grandes da Suíça, como Basel e Zürich, enquanto viveu o seu ápice ao disputar o Campeonato Italiano por Verona e Siena. Aos 40 anos, segue na ativa, disputando a quarta divisão suíça com o Balzers, clube que o revelou e da região onde cresceu.

Andy Selva, por sua vez, chegou à seleção principal em 1998. Nascido em Roma, pôde ser convocado graças à cidadania de sua mãe. E por meses não trabalhou com o técnico Massimo Bonini, que foi meio-campista do timaço da Juventus na década de 1980 e é aclamado como o melhor jogador samarinês da história – por mais que a seleção só tenha surgido quando já era veterano, disputando 19 partidas por ela. De qualquer forma, Selva escreveu sua própria história na equipe nacional. Marcou oito gols em 71 partidas, incluindo o da marcante vitória sobre Liechtenstein em 2004. Sucesso que permitiu ao atacante a rodar pelas divisões inferiores do Campeonato Italiano, ajudando o Sassuolo no acesso à Serie B e se transferindo logo depois ao Verona. Aos 38 anos, atualmente defende o La Fiorita, campeão vigente de seu país, e jogou as preliminares da Champions 2014/15.

Como não poderia deixar de ser, Mario Frick e Andy Selva estiveram em campo nesta terça, ambos com a braçadeira de capitão. Porém, por causa da idade, o craque de Liechtenstein passou a comandar a zaga de sua equipe, ainda envergando a camisa 10. Nada que atrapalhasse a vitória por 1 a 0 sobre San Marino, gol de Daniel Kaufmann, suficiente para encerrar o equilíbrio na história do confronto e tornar os samarineses, de fato, fregueses. Mais um capítulo do “clássico” criado pela insignificância futebolística dos países minúsculos. É o que garante graça a um jogo de pouquíssima importância. O futebol é espetacular também por essas pequenezas.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo