Eurocopa

Os ultras rivais que acertaram uma trégua para empurrar a Hungria na Eurocopa

Se você acompanhou os jogos da Hungria na Eurocopa, certamente percebeu. Atrás de um dos gols, sempre há uma massa vestida de preto, com a palavra “Magyarország” (o nome do país, na língua local) sobre o peito. E, a cada gol, invariavelmente os jogadores magiares já sabem para onde correr. Eles se jogam para abraçar os fanáticos. Para agradecer a união que tenta empurrar a seleção húngara mais longe na competição. O grupo, chamado de Carpathian Brigade, reúne ultras de diversos clubes da Hungria, incluindo rivais. Sob uma cor neutra, eles se juntam a cada partida da equipe nacional desde 2009. E acertaram uma trégua ao longo do torneio continental, ignorando os conflitos políticos e futebolísticos que persistem entre as facções.

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Por mais que torcidas diferentes convivam em jogos de suas seleções, é raríssimo ver uma associação como a ocorrida entre os húngaros. Algo que se explica, em boa parte, pela longa ausência da seleção nos principais torneios, desde a Copa do Mundo de 1986. E a força se fez sentir desde antes de cada partida da primeira fase. Em Bordeaux, Marselha e Lyon, uma multidão vestida de preto (mas também de vermelho, a cor da primeira camisa) tomou as ruas rumo ao estádio. Uma maneira de marcar presença, embora não evite conflitos com a polícia, como aconteceu no Estádio Vélodrome, contra a Islândia.

Os membros da Carpathian Brigade, no entanto, negam que o grupo tenha sido criado visando o hooliganismo. “Não estamos aqui para fazer merda e brigar, como os russos. Deixamos nossas cores em casa, o preto não faz referência a nenhum clube. Isso é pelo interesse supremo à seleção, estamos tranquilos lado a lado”, afirma Tomasz, um dos membros da brigada, à revista francesa SoFoot.

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Além disso, os húngaros também negam qualquer ligação política ao movimento. Nos últimos dias, alguns veículos da imprensa europeia têm vinculado a Carpathian Brigade ao neonazismo e a movimentos racistas. Obviamente, como acontece em parte considerável dos clubes magiares, há extremistas na multidão – como existem também em outras torcidas da Eurocopa. No entanto, por sua própria pluralidade interna, os ultras reafirmam sua neutralidade. “A viagem à França é também uma maneira para os torcedores se esquecerem da mediocridade de nosso futebol e das medidas extremas de segurança que tomaram na Hungria. Estamos em greve por causa do cadastramento biométrico imposto pela federação. Viemos pelo futebol”, declara Zlotan, outro membro do grupo.

A intenção geral, de qualquer forma, pode não eximir um ou vários participantes da Carpathian Brigade de cometerem imbecilidades nas ruas da França. Mas, por enquanto, a união tem cumprido o seu objetivo: ignorar conflitos internos e oferecer apoio incondicional a sua seleção. Algo que certamente se repetirá na sequência dos magiares nos mata-matas da Eurocopa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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