Eurocopa

Os embates históricos entre Itália e Áustria no torneio que precedeu a Eurocopa

Itália e Áustria possuem um largo histórico de confrontos, com destaque aos tempos em que eram potências nos anos 1930

Itália e Áustria se encontram pela primeira vez numa partida de Eurocopa no duelo deste sábado pelas oitavas de final da atual edição do torneio. Porém, a história do confronto remete a outra competição que marcou o futebol de seleções do continente antes do surgimento da Euro: entre os anos 1920 e 1950 as duas equipes mediram forças uma dezena de vezes pela antiga Copa Internacional Centro-Europeia, num embate que, em certo período, foi também de estilo de jogo entre dois treinadores lendários: Hugo Meisl e Vittorio Pozzo.

A história dos confrontos entre as duas seleções começa numa competição oficial, em 3 de julho de 1912, pela semifinal do chamado “torneio de consolação” dos Jogos Olímpicos de Estocolmo (disputado pelas equipes já eliminadas da briga por medalhas). Mais experientes, já que vinham disputando amistosos internacionais com regularidade há uma década, os austríacos não tiveram dificuldade para impor aos italianos – cuja seleção fazia sua estreia exatamente naquele certame – o categórico placar de 5 a 1.

As equipes também já se cruzaram quatro vezes em Copas do Mundo, sempre com apertadas vitórias italianas. Três delas por 1 a 0: na semifinal de 1934 (em Milão), na segunda fase em 1978 (na Argentina) e na estreia das duas seleções em 1990 (em Roma). Somente no último confronto, em 1998 pela primeira fase do Mundial da França, a contagem foi diferente, embora a diferença de gols tenha sido a mesma, com a Nazionale vencendo por 2 a 1. Já numa fase final de Eurocopa o duelo nunca havia acontecido até agora.

Houve, no entanto, o confronto pelas Eliminatórias da edição de 1972, com a Itália vencendo em Viena por 2 a 1 e empatando em Roma por 2 a 2 em partidas válidas pelo Grupo 6. O jogo de ida foi marcado pela fratura da perna direita de um dos grandes astros da Azzurra, o atacante Luigi Riva, afastando-o dos gramados por vários meses. Mas antes mesmo da criação da Eurocopa, as duas seleções já haviam cultivado uma longa história de grandes duelos pelo torneio considerado um dos precursores da competição continental.

A copa que precedeu a Euro

Concebida por um austríaco, Hugo Meisl, a Copa Internacional Centro-Europeia surgiu em 1927, disputada entre cinco países: Áustria, Hungria, Itália, Suíça e Tchecoslováquia. Também recebeu vários nomes ao longo das décadas em que foi realizada. Além de conhecida apenas por Copa Internacional, também foi chamada de Copa Švehla – uma vez que o troféu havia sido oferecido por Antonín Švehla, primeiro-ministro tcheco – e, em sua última edição, de Copa Dr. Gerö, em tributo a Josef Gerö, diretor da federação austríaca.

A competição era a contraparte da Copa Mitropa, nascida no mesmo ano também de uma ideia de Meisl e envolvendo clubes dos mesmos países. O formato e a periodicidade, entretanto, eram diferentes: enquanto o torneio clubístico era anual e disputado no sistema mata-mata, o certame de seleções era jogado por pontos corridos em turno e returno, arrastando-se por vários anos. A primeira edição, por exemplo, só foi encerrada em maio de 1930, cerca de dois anos e oito meses depois de iniciada a extenuante disputa.

Hugo Meisl era também o técnico da seleção austríaca desde 1919. Num tempo em que o futebol era assunto avidamente debatido no país tanto entre a classe operária quanto entre intelectuais (como seu irmão, o jornalista Willy Meisl) nos cafés de Viena, Hugo era defensor ardoroso do jogo de passes, de bola no chão, inteligente, fluido e esteticamente agradável. E lançaria as bases para o estabelecimento de uma escola de futebol, uma das mais importantes (senão a mais) da Europa a partir da segunda metade dos anos 1920.

Só que as coisas não começaram muito favoráveis para a Áustria na edição inaugural do torneio centro-europeu de seleções. A equipe foi derrotada em três dos seus quatro primeiros jogos: em setembro de 1927 perdeu da Tchecoslováquia em Praga (2 a 0) e da Hungria em Budapeste (5 a 3). Mais adiante, em abril de 1928, voltou a ser batida pelos tchecos, agora em Viena (1 a 0). A única vitória nessa sequência inicial veio justo diante da Itália por 1 a 0, no estádio Littoriale (atual Renato Dall’Ara) de Bolonha em novembro de 1927.

O único gol do jogo veio a um minuto do intervalo numa jogada de inteligência e fluidez típica da equipe, com o ponta-esquerda Ferdinand Wesely lançando no espaço vazio o meia Franz Runge, que se deslocou da direita para a esquerda e emendou um chutaço de canhota para superar o goleiro Giovanni De Prà. Em sua crônica, o jornal vienense Sport-Tagblatt criticou a arbitragem do inglês Albert Prince-Cox, que, segundo o diário, permitiu o jogo duro dos italianos enquanto puniu de imediato os revides dos austríacos.

A Áustria se recuperou na metade final do torneio: atuando no velho (e ainda existente) estádio Höhe Warte, em Viena, goleou a Hungria (5 a 1) e bateu a Suíça (2 a 0) antes de receber a Itália no jogo de volta em 7 de abril de 1929. A campanha da Azzurra até ali fora repleta de reviravoltas dentro das partidas. Saiu atrás para vencer a Hungria em Roma (4 a 3), a Suíça em Zurique (3 a 2) e a Tchecoslováquia em Bolonha (4 a 2) e teve de buscar o empate com os tchecos em Praga (2 a 2) e a vitória sobre os suíços em Gênova (3 a 2).

Naquele dia em Viena, porém, não foi possível sequer esboçar reação: a Áustria controlou o jogo e definiu a vitória por 3 a 0 já no primeiro tempo. Aos 19 minutos, Johann Horvath concluiu jogada criada pelo lado direito do ataque e abriu o escore. Cinco minutos depois, Franz Weselik recebeu de Ignaz Siegl e ampliou. E aos 38, Siegl passou a Horvath, que chutou prensado com o médio Alfredo Pitto e anotou o terceiro, definindo o placar, que só não aumentou na etapa final graças aos milagres de Gianpiero Combi no gol italiano.

O Wunderteam contra o Velho Mestre

Seis meses depois, os austríacos encerrariam sua participação no torneio derrotando a Suíça em Berna por 3 a 1 e alcançando a liderança temporária ao lado da Tchecoslováquia com dez pontos. Mas faltava uma partida: o confronto em Budapeste entre Hungria e Itália, as duas equipes que vinham logo atrás na tabela com nove pontos, embora com números inferiores no critério do goal average. O jogo aconteceria em maio de 1930. Foi quando entrou em cena o grande antagonista de Meisl no futebol europeu daquele tempo.

Vittorio Pozzo, assim como o técnico da Áustria, era fanático por futebol e, graças às condições financeiras de sua família, teve a chance de viver em outros países europeus naquelas primeiras décadas do século XX, uma experiência muito valiosa para ajudar a pensar o jogo. Os dois – Pozzo e Meisl – já se conheciam desde os Jogos Olímpicos de 1912, quando o italiano foi alçado ao cargo de técnico da Azzurra pela primeira vez, enquanto o austríaco atuou como árbitro, além de integrar a comissão técnica de sua seleção.

Depois de muitas idas e vindas, nas quais chegou a se afastar do futebol por duas vezes, Pozzo foi reconduzido ao cargo no fim de 1929 no lugar de Carlo Carcano – que sairia para levar a Juventus a uma sequência histórica de títulos na recém-criada Serie A, antes de ser defenestrado em meio a um polêmico e rumoroso caso de abuso sexual. A estreia do novo comandante foi em dezembro daquele ano, com uma goleada de 6 a 1 sobre Portugal em Milão. O jogo contra a Hungria seria o quinto em seu retorno ao comando do time.

Conta-se que no caminho até Budapeste, Pozzo levou seus jogadores a visitarem os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial (na qual os italianos lutaram contra o então Império Austro-Húngaro), com uma parada no cemitério de Redipuglia, tendo como objetivo inflar sentimentos nacionalistas dentro do elenco, numa estratégia alinhada com os emergentes ideais fascistas do primeiro-ministro italiano Benito Mussolini. A Itália goleou a Hungria por 5 a 0 e arrebatou por um ponto a primeira edição do torneio.

Como treinadores, os amigos Meisl e Pozzo tinham algo em comum: ambos se recusavam a tornar seu centromédio um mero zagueiro adicional, como aconteceu na formatação do WM por obra de Herbert Chapman na Inglaterra, e exigiam que o atleta da posição ajudasse na construção das jogadas. Mas as semelhanças de estilo praticamente paravam por aí. O italiano tinha abordagem nitidamente mais pragmática do futebol. Em sua equipe, o preparo físico e a marcação intensa eram dois pontos de importância indiscutível.

Ainda que o primeiro não fosse absolutamente desprezado por Meisl, para os italianos ele tinha tanta importância quanto a habilidade no domínio de bola e no passe para os austríacos. Brian Glanville, decano da crônica esportiva inglesa, comentou: “Tecnicamente menos brilhante do que seus rivais europeus”, o futebol italiano “compensava com a força e o excelente estado físico de seus jogadores”. Ainda que contasse com jogadores de grande talento, como Giuseppe Meazza, era essa força que caracterizava o estilo da Azzurra.

Mas Meisl e Pozzo só voltaram a se enfrentar no comando de suas seleções na disputa da segunda edição da Copa Internacional Centro-Europeia, realizada entre fevereiro de 1931 e outubro de 1932. Itália e Áustria mediram forças logo na abertura do torneio, em Milão. Os dois times traziam novidades: na Azzurra havia Meazza e o ponta Raimondo Orsi. Já pelo lado austríaco, estava o goleiro Rudi Hiden, cuja tentativa de contratação pelo Arsenal causou celeuma na Inglaterra e levou à proibição da importação de jogadores no país.

Na partida do San Siro, os visitantes saíram na frente logo aos quatro minutos com gol de Johann Horvath. Mas a Itália demonstrou poder de reação e chegou à virada com seus mais novos astros: Meazza anotou o gol de empate aos 34 minutos do primeiro tempo e Orsi – que defendera a seleção da Argentina, seu país de nascimento, até 1928 – colocou a Azzurra à frente no placar aos sete minutos da etapa final. Perto do fim do jogo ele ainda desperdiçaria um pênalti, quando Hiden adivinhou o canto e foi buscar o chute.

Mas a vitória italiana por 2 a 1 já era histórica por ser inédita: até ali, os austríacos somavam seis triunfos e quatro empates nos dez primeiros confrontos. Era um resultado que poderia servir de impulso para o bicampeonato, mas ao longo da competição a Áustria foi recuperando o futebol fluido de antes, graças em parte a um talento que Hugo Meisl finalmente decidira trazer de volta ao time: o centroavante Matthias Sindelar, jogador cerebral, virtuoso, sutil, um verdadeiro artista da bola e a essência do chamado “Wunderteam”.

A expressão, que significa “Time Maravilhoso”, nasce justamente na partida que marca o retorno definitivo de Sindelar à seleção, contra a Escócia em Viena no dia 16 de maio de 1931. Nos jogos seguintes disputados até o fim daquele ano, a Áustria foi quase sempre arrasadora. Depois de aplicar 5 a 0 nos escoceses, chegou a golear duas vezes a Alemanha: 6 a 0 em Berlim e 5 a 0 em Viena (com direito a tripleta de Sindelar). Contra a Suíça em Berna pela Copa Internacional no fim de novembro, o placar foi ainda mais absurdo: 8 a 1.

Foi nesse ritmo que a equipe de Hugo Meisl chegou para o confronto da volta diante dos italianos no recém-inaugurado Praterstadion de Viena no dia 20 de março de 1932. Depois de um primeiro tempo sem gols, o Wunderteam não demorou a abrir vantagem na etapa final. Aos 11 minutos, o ponta Adolf Vogel passou a Fritz Gschweidl, que levantou para Sindelar cabecear às redes. Dois minutos depois, o mesmo Vogel viu Sindelar desmarcado e passou ao centroavante, que arrancou e bateu no canto do goleiro Ezio Sclavi para ampliar.

Meazza ainda diminuiu para os italianos aos 21 minutos, mas a Áustria controlou o jogo e venceu por 2 a 1, devolvendo a derrota de Milão e assumindo a liderança da Copa Internacional. O time em seguida empataria com a Tchecoslováquia em Praga (1 a 1) e derrotaria a Suíça em Viena por um tranquilo 3 a 1 em sua última partida. Cinco dias depois, a derrota da Itália para os tchecos por 2 a 1 em Praga confirmou para o time de Hugo Meisl a conquista com a qual o Wunderteam escreveria seu nome na história do futebol europeu.

Um mês depois de vencer a Itália, a Áustria reafirmou sua posição de principal força do futebol danubiano de então ao surrar a Hungria por 8 a 2 em Viena. A vitória sobre a Suíça no último jogo da campanha na Copa Internacional marcou a 14ª partida invicta do Wunderteam, série que só foi quebrada ao perder para uma Inglaterra então imbatível em Wembley por 4 a 3. E na virada de 1932 para 1933, a equipe mágica de Hugo Meisl ainda golearia a Bélgica em Bruxelas (6 a 1) e a França em Paris (4 a 0).

Quando a terceira edição do torneio centro-europeu começou, em abril de 1933, o grande time austríaco já iniciava seu lento declínio. Mas ainda era forte o suficiente para obter memoráveis vitórias e chegar como um dos maiores favoritos à Copa do Mundo de 1934 – o outro era a Itália. E uma prévia desse choque de potências aconteceu em 11 de fevereiro daquele ano, em Turim, na protelada estreia da equipe de Hugo Meisl na competição continental contra uma Azzurra que havia vencido seus quatro primeiros jogos.

Com sete jogadores da Juventus no time titular, a Itália levou a campo três ítalo-argentinos – Luis Monti, Renato Cesarini e Enrique Guaita – e o ítalo-brasileiro Anfilogino Guarisi, o Filó. A escalação era bastante semelhante à que estrearia na Copa do Mundo contra os Estados Unidos em Roma dali a poucos meses, com Giuseppe Meazza no comando do ataque. Já a Áustria não contaria com Hiden nem Sindelar, mas trazia de volta o elegante centromédio Josef Smistik e apresentava uma dupla muito interessante em seu ataque.

O centroavante Josef Bican e o meia-esquerda Franz “Bimbo” Binder tinham respectivamente 20 e 22 anos de idade, defendiam o Rapid Viena e haviam estreado há poucos jogos pela seleção. Mas teriam carreira impressionante, reconhecidos e consagrados como dois dos mais prolíficos artilheiros da história do futebol mundial. Bican mais tarde se mudaria para a Tchecoslováquia, onde também defenderia a seleção e se sagraria o maior artilheiro da história do Slavia Praga e goleador da liga em dez edições entre 1938 e 1950.

Mas o destaque naquele dia em Turim seria outro atacante austríaco: o ponta-direita Karl ZIschek, autor de três gols na vitória do Wunderteam por 4 a 2. Ele abriu o placar aos 19 minutos da etapa inicial ao receber passe de Mathias Kaburek em jogada iniciada pelo extrema canhoto Rudolf Viertl e ampliou três minutos depois com assistência de Binder. E o próprio “Bimbo” Binder anotaria o terceiro em arrancada sensacional aos 28 minutos. O jogo até ali era equilibrado nas ações ofensivas, mas a Áustria se mostrava letal.

A Azzurra, porém, ensaiou uma reação logo no início da etapa final. Aos quatro minutos, o árbitro marca um pênalti por toque de mão do zagueiro Franz Cisar. O estreante Guaita bate e desconta. E logo no minuto seguinte, o mesmo Guaita, em posição duvidosa, anota o segundo da Itália, que teria ainda outro gol, marcado por Giovanni Ferrari – que seria o de empate – invalidado por impedimento. Mas a Áustria volta a ampliar com o terceiro de Zischek aos 19 e ainda tem outro gol anulado, de Bican, nos minutos finais.

Entre aquele confronto e o jogo de volta pela Copa Internacional em Viena, as duas seleções se reencontrariam meses depois na semifinal da Copa do Mundo, em Milão. Nele, a chuva torrencial deixou o gramado do San Siro impraticável para o jogo de troca de passes austríaco. Luisito Monti tirou Sindelar do jogo. E o gol da vitória italiana por 1 a 0 saiu num lance polêmico: o goleiro Peter Platzer fez uma defesa, levou a carga de Meazza, a bola escapou de suas mãos e bateu na trave. No rebote Guaita conferiu, sob protestos da Áustria.

Além da vitória no Mundial, a Itália teria sua revanche no torneio centro-europeu: uma grande vitória por 2 a 0 em Viena com dois gols de Silvio Piola na etapa final em 24 de março de 1935 deixou a Azzurra em situação muito confortável na competição. Com os resultados das partidas que viriam a seguir, a equipe de Vittorio Pozzo chegou a seus dois últimos jogos precisando de apenas um ponto para assegurar o título – o que obteria na despedida, num 2 a 2 com a Hungria em Milão, no dia 24 de novembro do mesmo ano.

As duas seleções também fariam a final do torneio olímpico dos Jogos de Berlim, em 1936, onde uma equipe austríaca formada inteiramente por amadores (portanto, sem nenhum atleta que tivesse disputado os confrontos anteriores) foi derrotada por uma Itália contando com jogadores da Serie A – como a dupla de zagueiros da Juventus formada por Alfredo Foni e Pietro Rava – inscritos no torneio como “estudantes”. A Azzurra faturou o ouro vencendo na prorrogação por 2 a 1, com dois gols de Annibale Frossi.

Uma nova edição do torneio começou a ser disputada em 1936, mas o contexto político da época impediria sua conclusão. A decretação do Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha nazista) em 12 de março de 1938 forçou a competição a ser suspensa faltando quatro partidas para o desfecho, incluindo os dois confrontos entre Itália e Áustria, após o de Viena ter sido interrompido no segundo tempo (com os austríacos vencendo por 2 a 0) e anulado. A Hungria liderava então, mas podia ser alcançada pela Azzurra.

Naquele momento, porém, o Wunderteam já fazia parte do passado. Seu criador Hugo Meisl fora vitimado por um infarto em 17 de fevereiro de 1937, aos 55 anos. E pouco depois da anexação austríaca, em 23 de janeiro de 1939, o craque Matthias Sindelar seria encontrado morto em sua casa aos 35 anos, ao lado da namorada Camilla Castagnola, ambos intoxicados com monóxido de carbono, em episódio nunca de todo elucidado. Já Vittorio Pozzo atravessaria a Segunda Guerra Mundial no comando da Itália, ficando até 1948.

Os confrontos do pós-Guerra

Assim, nos dois primeiros confrontos entre as duas seleções no pós-Guerra, “Il Vecchio Maestro” ainda dava as cartas na Azzurra. Mas o contexto, naturalmente, havia mudado bastante. O grande esquadrão do Torino se tornara hegemônico no Calcio, enquanto os austríacos haviam formado uma nova e excelente geração. O primeiro reencontro foi em dezembro de 1946, com vitória da Itália por 3 a 2 em Milão. Quase um ano depois, em novembro de 1947, a Áustria igualou a maior goleada do duelo, vencendo por 5 a 1 em Viena.

O torneio centro-europeu foi restabelecido com uma nova edição iniciada em abril de 1948 e que só terminaria cinco anos e meio depois, estendendo-se até dezembro de 1953. Nesse caminho, o posto de principal potência do Danúbio mudou de mãos: a Hungria viu florescer seu fabuloso “Aranycsapat”, o “Esquadrão de Ouro” liderado por Ferenc Puskás. E também nesse ínterim, o futebol italiano chorou a perda do grande Torino no desastre aéreo de Superga, que vitimou toda a delegação granata em 4 de maio de 1949.

O primeiro jogo entre Itália e Áustria por essa nova edição do torneio aconteceria apenas 18 dias após a tragédia no Estádio Comunale de Florença. E mesmo levando a campo uma equipe bem menos experiente – mas ainda assim formada por grandes jogadores como o atacante Giampiero Boniperti, da Juventus, e o goleador Amedeo Amadei, da Internazionale – a Azzurra conquistou uma vitória marcante por 3 a 1 diante de um grande time austríaco que alinhava o zagueiro Ernst Happel e os médios Gerhard Hanappi e Ernst Ocwirk.

Mordida pela goleada sofrida em Viena no último enfrentamento, a Itália marcou três vezes logo no primeiro tempo. Aos 26 minutos, após boa trama ofensiva, o capitão Riccardo Carapellese faz a assistência para Gino Cappello, que avança e bate o goleiro Walter Zeman para abrir o placar. Aos 42, um cruzamento de Boniperti encontra Amadei sozinho na área para escorar e ampliar. E, dois minutos mais tarde, a retribuição: Amadei ganha de Ocwirk e lança Boniperti, que arranca e bate na saída de Zeman para fazer o terceiro.

Flagrantemente superior no primeiro tempo, a Itália diminui o ritmo no segundo, mas ainda tem uma grande chance de chegar à goleada num pênalti de Happel em Amadei aos 16 minutos. Mas Carapellese bate mal, no meio do gol, e Zeman espalma para escanteio. Cansada pela intensidade alta do primeiro tempo, a Azzurra recua e cede espaços, e a Áustria aproveita para descontar aos 26, em passe de Ernst Melchior para chute violento de Dolfi Huber. Mas a reação dos comandados de Walter Nausch para por aí.

O troco da Áustria vem em 2 de abril de 1950, às portas da Copa do Mundo do Brasil – para a qual os italianos se classificaram automaticamente como detentores do título, mas os austríacos desistiram de participar das Eliminatórias. Na partida do Praterstadion, a novidade da Azzurra – dirigida, assim como no duelo anterior, por um triunvirato liderado por Ferruccio Novo, ex-presidente do Torino – é o médio Carlo Parola, da Juventus, enquanto na Áustria o novo goleador Robert Dienst, do Rapid Viena, faz seu segundo jogo.

A Itália começa bem e chega a acertar a trave com Amadei numa cobrança de falta. Mas a Áustria é quem marca no começo do segundo tempo num chute de cruzado de Melchior, após uma ação ofensiva descrita como “desconcertante” e “velocíssima” pelo Corriere dello Sport. A vitória por 1 a 0 faz com que os austríacos encerrem sua participação no torneio na liderança. Mas com sete jogos ainda previstos no calendário, eles acabariam sendo superados não só pela Hungria, que fica com o título, como pela Tchecoslováquia, vice.

A derradeira edição da Copa Internacional seria disputada entre março de 1955 e janeiro de 1960, já coincidindo em seus últimos tempos com a fase classificatória da recém-criada Copa Europeia de Nações, nomenclatura original da Eurocopa. A novidade daquela edição seria a participação da Iugoslávia. Mas a briga pelo título ficaria entre húngaros e tchecos, com estes prevalecendo por um ponto. Italianos e austríacos fizeram campanhas discretas – ou até decepcionante no caso da Azzurra, que venceu só dois de seus 10 jogos.

Uma das vitórias veio justamente diante da Áustria no confronto de ida no Estádio Luigi Ferraris, de Gênova, em 9 de dezembro de 1956. Dirigida pelo ex-zagueiro Alfredo Foni, um dos grandes expoentes do catenaccio, a Itália alinhou naquele dia seis jogadores da Fiorentina, atual campeã nacional, incluindo todo setor defensivo à exceção do goleiro. Porém, os gols da vitória por 2 a 1 seriam marcados por um jogador da Atalanta, o ponta-esquerda Angelo Longoni – que, por ironia, teria sua carreira na Azzurra resumida a aquela partida.

Entre os dois confrontos com os austríacos daquela edição, a Itália vivenciaria uma desastrosa campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, desclassificada no Grupo 8 europeu, no qual enfrentou Portugal e a Irlanda do Norte, que levou a vaga. Como se não bastasse, em meio a ela, no dia 12 de maio de 1957, ainda sofreria em Zagreb uma humilhante goleada de 6 a 1 para a Iugoslávia – que já havia batido a Azzurra por 4 a 0 em Turim, dois anos antes. As duas derrotas valeram pela Copa Internacional.

Juntando os cacos, a Itália levou a Viena uma equipe com cinco estreantes e apenas um jogador com mais de uma dezena de partidas pela seleção: o capitão Boniperti. A Áustria também tinha, no entanto, sua própria safra de garotos: Paul Kozlicek (20 anos), Erich Hof (21) e Hans Buzek (19) figuravam no setor ofensivo. Mas reunia experiência suficiente para, no gramado coberto de neve do Praterstadion, reagir depois de se ver em desvantagem no início da etapa final e arrancar uma grande vitória por 3 a 2 já no fim do jogo.

E Kozlicek, um dos jovens, abriria o placar para a Áustria aos 41 minutos de jogo, finalizando uma jogada que começou num cruzamento de Josef Hamerl que Alfred Körner desviou de cabeça. Os donos da casa vão para o intervalo em vantagem, mas a Azzurra reage logo após o reinício do jogo: aos dois minutos, o ponteiro-esquerdo Granfranco Petris, da Triestina (um dos debutantes da Itália), deixa tudo igual. E aos 16, ele participará do gol da virada, marcado por Eddie Firmani num rápido contragolpe.

Após tabelarem, Petris lança Firmani nas costas da defesa austríaca, e o atacante chuta forte para vencer Kurt Schmied no gol austríaco. De ascendência italiana, Firmani nascera na África do Sul e se profissionalizara no futebol inglês, mas acabaria defendendo a Azzurra em três jogos durante os oito anos em que atuou no Calcio. Depois de passar à frente no placar, porém, a Itália recairia no que o Corriere dello Sport apontaria como “excesso de prudência” ou ainda “medo de vencer” e deixaria escapar a vitória no fim.

O segundo gol austríaco vem aos 34, quando Körner (que havia marcado o gol do desconto na derrota em Gênova na ida) recebe de Buzek e se infiltra na área para mandar às redes, num lance em que o goleiro Ottavio Bugatti pulou atrasado. E três minutos depois chegaria a nova virada: Buzek aproveita um recuo falho do lateral Silvano Moro e arranca pelo meio da defesa da Azzurra, tocando rasteiro na saída de Bugatti para levar a Áustria – então já sem chances matemáticas de título na competição – à vitória.

“Os ‘azzurri’ foram derrotados porque a partir de um certo ponto a classe superior dos austríacos passou a pesar na balança”, foi a sentença do diário romano L’Unità ao último confronto entre as duas equipes pelo torneio centro-europeu. Em dezembro de 1960, a Áustria venceria mais uma vez a Itália por 2 a 1 num amistoso em Nápoles que marcaria o fim de uma era: seria o último triunfo austríaco sobre a Azzurra até hoje. Na ocasião, era a 12ª vitória da Áustria contra seis da Itália em 23 partidas, além de cinco empates.

De lá para cá, o retrospecto foi completamente revertido. Nos 13 jogos posteriores, seriam nada menos que dez vitórias da Itália e três empates, suplantando a antiga vantagem austríaca nos números do confronto. A Azzurra, que só havia vencido uma única vez em Viena e perdido seis dos oito jogos disputados na capital da Áustria até 1958, triunfou em quatro e empatou em uma das cinco partidas na cidade após aquela data. Esse histórico das últimas seis décadas reitera a posição de favorita da Itália no duelo da Euro 2020.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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