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O primeiro jogador inglês na Serie A foi um antigo soldado aliado que ficou na Itália para marcar seus gols após a Segunda Guerra

Charles Adcock teve bons momentos pelo Padova, anotou gol contra o Grande Torino e quase assinou com o Milan

O futebol italiano está ligado aos ingleses desde suas raízes. Diversos clubes importantes do Calcio possuem fundadores nascidos na Inglaterra, enquanto os primeiros astros do Campeonato Italiano também eram britânicos. Tais laços acabaram cortados em diferentes momentos nos quais as autoridades locais buscaram “italianizar” o esporte, sobretudo durante o regime fascista. Até por isso, levou um tempo para que o primeiro jogador inglês pintasse na Serie A, a partir da formação da liga em 1929/30. Entretanto, esse pioneiro possui uma história e tanto: Charles Norman Adcock era um soldado aliado que lutou na Segunda Guerra Mundial e ficou na Bota. Acabaria virando um notável centroavante, a ponto de ser pretendido pelo Milan, além de passar por Padova e Triestina no final da década de 1940.

Os primórdios da trajetória de Adcock não são possuem muitas fontes. O atacante nasceu em 21 de fevereiro de 1923, na cidade de Boston, costa leste da Inglaterra. Durante sua juventude, atuou pelas categorias de base do Aston Villa, mas a Segunda Guerra Mundial estourou durante os últimos anos finais de sua adolescência e ele precisou se alistar nas tropas britânicas. Seria um dos soldados que participou das campanhas na Itália para derrotar a ditadura fascista de Benito Mussolini. E, ao término dos conflitos, resolveu permanecer no país. Apresentou seus predicados como atacante e, aos 22 anos, conseguiu arranjar um contrato com o Padova.

Quando o Campeonato Italiano recomeçou após a guerra, o Padova militava na Serie B. Os biancoscudati até haviam passado um breve período na Serie A durante o início dos anos 1930, mas quase sempre disputavam a segunda divisão. Adcock contribuiu para que essa história mudasse. Em sua primeira tentativa de alcançar a elite, o atacante passou perto do sucesso. Anotou dez gols, mas o Padova ficou a cinco pontos de garantir a promoção. Então, ele seria mais efetivo para elevar sua equipe de nível.

Na Serie B de 1947/48, Adcock balançou as redes 17 vezes em 33 partidas. Liderou a campanha do Padova para retornar à Serie A depois de 13 anos – superando uma disputa cascuda com Verona, SPAL e Venezia. Aos 24 anos, o artilheiro ganhava reconhecimento numa equipe treinada por Pietro Serantoni, meio-campista campeão do mundo com a Azzurra em 1938. Em campo, havia ainda outro vencedor de Copa: o veterano Gino Colaussi, que seria peça fundamental no ataque.

Adcock disputou sua primeira edição da Serie A em 1948/49, ainda sob as ordens de Serantoni. Seria um bom desempenho do Padova, que terminou no 11° lugar, sete pontos acima do rebaixamento. O inglês seria o vice-artilheiro dos biancoscudati, com sete gols marcados em 23 partidas. Chegou a balançar as redes do poderosíssimo Torino, numa derrota por 3 a 1 dentro do Estádio Filadélfia. Já no segundo turno, Padova e Torino fizeram um épico empate por 4 a 4 em fevereiro, três meses antes do desastre de Superga. Adcock também deixaria sua marca contra Genoa, Atalanta, Pro Patria, Livorno, Novara e Milan.

O melhor momento de Adcock aconteceu no final do primeiro turno, quando balançou as redes cinco vezes em sete rodadas. Isso fez com que outros clubes cogitassem sua contratação, inclusive o próprio Milan, fundado por ingleses. Os rossoneri chegaram a negociar com o novato, mas acabaram optando por Gunnar Nordahl, campeão olímpico pela seleção da Suécia meses antes. O atacante chegaria ao San Siro em janeiro de 1949 e se transformaria em lenda, no trio escandinavo com Nils Liedholm e Gunnar Gren.

Curiosamente, Adcock não foi o único jogador inglês naquela temporada de 1948/49. E também não era o único membro das forças armadas britânicas no campeonato. Antes de se tornar atacante profissional, Johnny Jordan foi piloto da Força Aérea Real na Segunda Guerra Mundial, chegando a ser condecorado por suas participações em batalhas contra os nazistas. Ao final do conflito, defendeu West Ham e Tottenham. Já em 1948, acertou sua transferência para a Juventus. Teria uma breve passagem pela Velha Senhora, com cinco gols em 20 aparições pela Serie A, antes de retornar ao Birmingham.

Adcock ficaria mais tempo no Calcio e jogou a Serie A também na temporada 1949/50. Transferido à Triestina, o atacante foi comandado por Nereo Rocco, que mais de uma década depois se transformaria no histórico treinador do Milan que faturou a Copa dos Campeões em 1962/63. Entretanto, a passagem do inglês por Trieste seria tímida. Frequentou muitas vezes o banco de reservas e marcou somente quatro gols pela Serie A, em 17 aparições. Sua equipe ao menos terminou na oitava colocação.

Por fim, Adcock ainda jogaria a Serie B 1950/51 no Treviso, onde também seria comandado por Nereo Rocco. Anotou apenas um gol em nove partidas e não levou seu time além do 15° lugar. A aventura pelo futebol italiano se encerraria naquele momento. Durante a temporada seguinte, ele arrumaria as malas de volta à Inglaterra e assinou com o Peterborough United, na época um time semiprofissional que figurava nas divisões de acesso do Campeonato Inglês. Faleceria em 1998, aos 75 anos.

Depois de Charles Adcock, outros tantos ingleses passaram pela Serie A. A década de 1960 reuniu nomes como Gerry Hitchens, Jimmy Greaves e Joe Baker. Já nos anos 1980, com a bonança do Calcio, vieram astros como Trevor Francis, Luther Blissett, Ray Wilkins, Mark Hateley e Gordon Cowans, antes que os anos 1990 também garantissem Paul Gascoigne, David Platt e Paul Ince. Nas duas últimas décadas, o fluxo de ingleses no Campeonato Italiano diminuiu, mas ainda houve David Beckham como astro do Milan e Ashley Young levando um Scudetto pela Internazionale. Uma história iniciada por um soldado que remete a outros tempos do futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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