Eurocopa

Como os ingleses ajudaram a estabelecer o futebol na Itália e influenciaram alguns dos maiores clubes do país

Antes da final da Eurocopa, contamos um pouco da história do futebol italiano sob influência inglesa em seus primórdios

Os ingleses tiveram um papel central para estabelecer o futebol ao redor do mundo, e não apenas pela formulação das regras. Tão fundamental quanto a “criação” da modalidade foi também a maneira como os britânicos (aqui, não apenas os nascidos na Inglaterra) ajudaram a dispersar a prática. Em tempos nos quais o Império Britânico tinha mais influência do que qualquer outro governo no planeta, trabalhadores e estudantes que praticavam o futebol auxiliaram nesse “imperialismo cultural” que se tornou a introdução do esporte em diversos países. E tal raiz inglesa permanece visível em muitos lugares, em especial na Itália. Alguns dos principais clubes do Calcio despontaram graças a “pais fundadores” de origem inglesa.

O primeiro esboço de uma pratica parecida com o futebol na Itália não remete à Inglaterra, todavia. No Império Romano, uma das primeiras modalidades esportivas noticiadas é o Harpastum, praticado com uma bola e mais próximo do rúgbi pela forma como era praticado. Tal modalidade se desdobrou em outras com o passar dos séculos, incluindo aquela que remete ao futebol na Bota: o Calcio Fiorentino. Os jogos deste esporte costumavam parar Florença ao redor da Piazza Santa Croce, em evento que se tornou popular no fim da Idade Média e ganhou mais força durante o Renascimento. A fisicalidade e a violência do Calcio Fiorentino também o aproxima do rúgbi, até pela forma como é praticado com as mãos. Todavia, o calcio (ou “chute”) presente na modalidade também a liga ao futebol.

Apesar desse histórico dos italianos, praticando jogos com bolas desde seu passado remoto, a afirmação do futebol na Itália dependeu do intercâmbio com a Inglaterra. E o “Charles Miller” do país se chama Edoardo Bosio, o filho de um cervejeiro suíço-italiano que nasceu em Turim no ano de 1864. O piemontês ainda era uma criança quando concluiu-se o processo de unificação da Itália, em 1871, após anos de guerra civil. Já no início de sua vida adulta, Bosio convivia com a criação de uma identidade nacional italiana e também com a incipiente modernização do país. Trabalhava como representante comercial de uma indústria têxtil britânica.

Com seus 20 e poucos anos, Bosio ganhou a oportunidade de viajar para a Inglaterra, a negócios. Naquele momento, o futebol era mais do que estabelecido na pátria-mãe. A Copa da Inglaterra havia coroado uma dúzia de campeões e uma própria revolução interna ocorria no esporte, que fincava raízes populares. A modalidade formalizada pelos aristocratas e estudantes de Londres já tinha se expandido entre os trabalhadores do norte industrial da nação. O profissionalismo surgia naquele momento, em 1885, assim como funcionários de companhias ferroviárias e marinheiros haviam levado a bola para outros cantos do mundo. Mas não ainda de maneira tão reconhecida à Itália.

Edoardo Bosio

Bosio visitou Nottingham, um importante centro industrial e, sobretudo, uma cidade onde o futebol criou seus primeiros clubes logo cedo. O Notts County teve sua fundação em 1862, um ano antes da própria formalização das regras. Já o Nottingham Forest foi criado em 1865 – e curiosamente escolheu a cor vermelha de seu uniforme em referência à tonalidade adotada por Giuseppe Garibaldi durante a luta pela unificação italiana. Quando Bosio pisou em Nottingham, os dois principais times locais já tinham duas décadas de existência. E o comerciante também seria fisgado pelo futebol, a ponto de querer levar o esporte para a Itália.

De volta a Turim, Bosio resolveu fundar seu próprio clube para praticar o futebol e também o críquete. Assim, surgiu o Torino Football and Cricket Club em 1887, com cores grenás como a do Sheffield FC, o clube mais antigo do mundo. Tal agremiação, depois de muitas cisões e fusões, acabaria tendo sua influência na formação do atual Torino, em 1906. O primeiro rival do antigo Torino FCC seria o Nobili Torino, surgido em 1889. As duas equipes acabariam se fundindo para formar a Internazionale Torino, que disputou a primeira edição do Campeonato Italiano em 1898. O primeiro uniforme desta Inter também era grená, inspirado pelo Sheffield FC.

A cidade de Turim pode ser considerada o berço do futebol na Itália. Porém, não é o único local com alta influência para o estímulo do esporte no país. Gênova contava com um dos portos mais importantes do mundo e naturalmente serviria como uma porta de entrada à modalidade. O pioneiro era James Richardson Spensley, um médico londrino que se mudou para a cidade italiana em 1896. Sua missão era cuidar dos funcionários de uma empresa de carvão que transportava o produto pelo porto genovês. Entretanto, ele faria um bocado a mais, ao também incentivar o futebol.

Quando Spensley chegou a Gênova, a cidade já contava com o Genoa Cricket & Athletic Club, fundado em 1893. O clube, como o próprio nome dizia, se voltava às práticas de críquete e atletismo. Mais do que isso, integrava a comunidade inglesa que vivia na cidade. A agremiação se limitava aos britânicos e reproduzia até a camisa da seleção em seu uniforme. O papel de Spensley seria o de introduzir o futebol Genoa CAC. A agremiação seria rebatizada depois como Genoa Cricket & Football Club, o atual Genoa que disputa a Serie A.

Spensley gostava de outras modalidades, como o boxe. No futebol, acabou se tornando goleiro, defensor e também o primeiro capitão do Genoa. E sua importância iria além. Primeiro, por abrir seu clube também a italianos, encerrando as restrições iniciais a britânicos. Depois, também por incentivar a primeira edição do Campeonato Italiano, em 1898. Enquanto o futebol em Turim se limitava a amistosos, Spensley seria o responsável por uma organização mais clara da modalidade na Itália. Assim, tirou do papel a ideia de uma competição local.

James Spensley

Em janeiro de 1898, o Genoa disputou sua primeira partida contra o Football Club Torinese. O intercâmbio entre as duas cidades permitiria a fundação da Federazione Italiana Football (a atual FIGC) semanas depois. E em maio daquele mesmo ano a entidade organizou a temporada inaugural do Campeonato Italiano. O torneio reunia quatro times, o Genoa e mais três de Turim. As partidas se concentrariam no mesmo dia, com semifinais e final para definir o campeão.

Todos os jogos ocorreram no Velódromo Umberto I. Além disso, a competição ganhou até mesmo uma taça, doada pelo Duque de Abruzzi. Pela manhã, o Genoa venceu a Società Ginnastica di Torino numa semifinal e a Internazionale Torino derrotou o Football Club Torinese na outra. Quis o destino que a decisão durante a tarde reunisse exatamente Bosio e Spensley, os dois pais do futebol na Bota. E os dois marcaram gols naquela final, por mais que Spensley tenha começado na defesa e depois tenha ido parar no gol com a lesão de seu arqueiro. O Genoa acabou vencendo a Inter de Torino por 2 a 1 na prorrogação, com gol do também inglês Norman Leaver. Aquela formação do Grifone campeã reunia quatro jogadores ingleses e ainda um suíço, além de seis italianos – embora alguns deles com ascendência inglesa.

Os mesmos quatro times disputaram o Campeonato Italiano de 1899, com nova vitória do Genoa de Spensley sobre a Internazionale Torino de Bosio na finalíssima. Já em 1900, a competição se expandiu. Foram realizadas fases regionais em Piemonte e Ligúria. Após absorver a Internazionale e com Bosio em suas fileiras, o Torinese se classificou em Turim, num triangular que contou com a estreia da Juventus – fundada em 1897 por estudantes italianos. Já o Genoa precisou eliminar a Sampierdarenese, uma das equipes que se fundiria para formar a Sampdoria nos anos 1940. E a Lombardia inscrevia seu primeiro representante, o Milan Football & Cricket Club (o atual AC Milan), que também foi influenciado pelos ingleses em sua fundação.

O surgimento do Milan possui seu pé em Turim. Afinal, Herbert Kilpin era um amigo de Edoardo Bosio que trabalhava na mesma companhia têxtil. Filho de um açougueiro, o inglês nasceu em Nottingham e atuava por equipes amadoras da cidade até se mudar para a Itália em 1891, por conta de seu trabalho. Foi lá que conheceu Bosio e integrou as primeiras formações da Internazionale Torino. Seria parte da equipe, inclusive presente na primeira edição do Campeonato Italiano.

Em 1899, Kilpin precisou se mudar a Milão e levou o futebol consigo. Diante da falta de um clube na cidade, ele fundou o Milan FCC naquele mesmo ano. O primeiro capitão, David Allison, também era inglês, nascido em Manchester. A partir de então, o clube rossonero se tornou o bastião do esporte na Lombardia e entrou no Campeonato Italiano em 1900. A equipe enfrentou o Torinese na semifinal, mas acabou derrotada. Bosio anotaria os três gols no triunfo por 3 a 0 sobre o velho amigo Kilpin. Já na decisão, o Genoa de Spensley se sagrou tricampeão, com o capitão ainda protegendo a meta do Grifone.

Herbert Kilpin

A hegemonia do Genoa seria quebrada em 1901. O Milan ficou com o título. Os rossoneri eliminaram a Juventus na semifinal e bateram o Genoa por 3 a 0 na decisão. Kilpin marcou um dos gols. Aquela equipe milanista reunia quatro jogadores ingleses e outros três suíços, além de quatro italianos. Já em 1902, o Genoa conseguiu sua revanche na decisão contra o Milan. Com a meta ainda guardada por Spensley, o Grifone venceu por 2 a 0. O Campeonato Italiano se expandia e aquela edição chegaria a oito participantes. Cada vez mais, a competição ia além dos imigrantes ingleses e conquistava os moradores locais.

O Genoa voltou a erguer o troféu pela quinta vez em 1903, mas desta vez batendo um adversário diferente, a Juventus. E aquela temporada também marcaria um respingo da influência inglesa na Velha Senhora. Os juventinos contavam em seu elenco com Gordon Thomas Savage, o primeiro jogador de origem inglesa do clube. Também funcionário da indústria têxtil e jogador profissional em seu país, o britânico atuou na Internazionale Torino até se tornar parte da Juve. Seria ele o responsável por revolucionar os uniformes. Na época, a Juventus atuava com camisas rosas e gravatas (sim, gravatas) pretas. Savage quis modernizar o fardamento, que desbotava muito, e encomendou um jogo de camisas próprias ao esporte em Nottingham. Conforme uma das versões da história, sua intenção era pegar camisas vermelhas como as do Forest, mas apenas as listradas em preto e branco do Notts County estavam disponíveis. Assim, surgiram os bianconeri.

O Genoa seria também campeão em 1904, no sexto e último título com Spensley no gol. Era o único inglês daquela equipe, dividida entre seis italianos e quatro suíços. Já em 1905, a Juve se consagrou pela primeira vez, ao vencer um triangular contra Genoa e US Milanese. Ex-atleta profissional do Newcastle, o inglês James Squair figurava no ataque juventino. O meio-campo contava com o escocês Jack Diment, que se mudou a Turim para trabalhar nas companhias de transportes. Já entre 1906 e 1907, o Milan voltaria a ser campeão mais duas vezes. Herbert Kilpin ainda era o capitão rossonero, o único inglês do time que contava ainda com suíços e alemães.

A grande cisão do Campeonato Italiano aconteceu em 1908. Em assembleia, o presidente da Andrea Doria (o outro time que deu origem à Sampdoria) propôs que a competição se limitasse a jogadores italianos. Haveria uma competição com times abrigando estrangeiros e outras apenas para os atletas locais, com uma taça disputada entre o vencedor de cada uma ao final da temporada. A federação aprovou a medida, mas nem todos os clubes aceitaram, acusando-a de xenofobia. Genoa, Milan e o atual Torino (que havia disputado o campeonato pela primeira vez em 1907) ficaram de fora da competição. A liga “italiana” acabou vencida pelo Pro Vercelli, que eliminou a Juventus no regional piemontês, antes de superar Andrea Doria e Milanese na fase final.

Ainda em 1908, os clubes iniciaram o diálogo com a federação. A postura do Milan em se reaproximar da entidade irritou parte de seus membros, que resolveram formar uma nova equipe. Assim, nasceu a Internazionale de Milão, composta principalmente por suíços. A ideia de realizar duas competições paralelas seguiu em pé, mas os clubes mais tradicionais agiram de uma maneira em que esvaziaram a liga “italiana” e entraram com força máxima na liga “internacional”. Genoa, Milan, Torino, Juventus e a própria Inter estavam presentes na disputa, assim como o estreante Venezia. A competição ainda acabou vencida pelo Pro Vercelli, que alinhou uma equipe inteiramente italiana.

William Garbutt

Em 1910, a federação italiana desistiu de sua ideia segregacionista e o Campeonato Italiano passou a incluir também os estrangeiros. Emblematicamente, a campeã seria a Internazionale, com um time recheado de suíços. E em tempos nos quais o Calcio dava passos firmes com as próprias pernas, a influência inglesa no incentivo do esporte começou a se diluir. Mas não sem antes ter um grande personagem a partir de 1910: William Garbutt, um ex-jogador profissional de Reading, Arsenal e Blackburn.

Após pendurar as chuteiras precocemente por uma lesão no joelho, Garbutt se mudaria para Gênova no intuito de trabalhar no porto, mas acabaria se tornando treinador do Genoa e revolucionaria o clube. Seria ele o responsável por estabelecer treinamentos voltados à preparação física e também padrões táticos na equipe. Mais do que isso, o inglês contribuiria à modernização do futebol italiano naqueles primórdios, também introduzindo as transferências pagas de jogadores, que desembocariam no profissionalismo. Garbutt compôs a comissão que treinava a seleção italiana por seis partidas, de 1913 a 1914. À frente do Genoa, seria campeão nacional três vezes, com o último troféu erguido em 1924 – ano de introdução do Scudetto na camisa dos campeões.

A partir da ascensão de Benito Mussolini, o fascismo retomou o projeto de italianização do campeonato, às vésperas da criação da Serie A. Em 1926, os clubes locais seriam proibidos de contratar jogadores estrangeiros, a não ser aqueles com ascendência italiana. As equipes também precisaram abandonar referências em outras línguas em seus nomes. Apesar disso, os treinadores de diversas nacionalidades permaneceram no país, como o próprio Garbutt, que dirigiria a Roma e o Napoli – duas equipes fundidas em meio a este projeto fascista dentro do esporte. O inglês ainda voltaria ao Genoa e seria perseguido durante a Segunda Guerra Mundial, exilando-se num vilarejo no interior após o Reino Unido declarar guerra à Itália. Sua esposa faleceu durante um bombardeio em 1944. Ele retomaria o comando do Grifone ao final dos conflitos.

E o legado de Garbutt conseguiu ser maior que a tentativa de suprimi-lo. Vittorio Pozzo, seu amigo de longa data, o classificaria como “o homem mais importante da história do futebol italiano”. Nada mal, vindo do treinador que conduziu a Azzurra ao bicampeonato mundial em 1934 e 1938. Garbutt expandiria um pouco mais a história construída por Spensley, Kilpin, Savage e outros ingleses que ajudaram na formação do “football” do país, antes que o Calcio ganhasse asas próprias e uma identidade tão forte dentro da Itália.

* Como base para este texto, foram usados o site The Gentleman Ultra e L’Uomo nel Pallone, além dos parceiros da Calciopédia. Fica a dica para leituras complementares nas três páginas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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